sexta-feira, 30 de junho de 2006

A Festa

O post anterior não é inocente. Revela a excelência de um evento cultural com características marcadamente de Verão, organizado com o propósito de alcançar um público vasto, mas sem quaisquer concessões ao mainstream, conciliando as mais-valias locais com uma programação exigente.
Ora, isto para antecipar que este ano vai haver Festas da Cidade na Guarda. Depois de um jejum de 5 anos, pelas razões conhecidas. Da programação ressalta o óbvio: uma amálgama de pimba e folclore, caucinada por dois espectáculos "âncora": os GNR e Luís Represas. Não é difícil depreender, pela sua coerência, que na programação original não constavam estes nomes, "metidos" posteriormente para compor o ramalhete. Isto após as reacções públicas desancadeadas pelo anúncio da realização das Festas e respectiva justificação, por parte da Câmara Municipal.
Não discordo que haja "Festas na Cidade". Este tipo de acontecimentos faz parte da agenda da maioria das localidades com alguma dimensão deste país. Já se me afigura errado que a oferta que integra a programação não seja pautada pela diferenciação, contrariando a costumeira uniformização. Por outro lado, se as festas são populares, então haveria que nelas mobilizar as colectividades e os cidadãos que espontaneamente se organizassem, à semelhança do que aconteçe noutras cidades. E o local escolhido - Parque Municipal, com alguns espectáculos na Praça Velha - não me parece o mais indicado, sem que se tenha tirado partido da requalificação do centro Histórico, ao abrigo do programa Polis. Quanto à divulgação, revelou-se de um amadorismo desconcertante: o cartaz é graficamente pobre e quase ilegível e não há qualquer informação disponível online, até agora.

quinta-feira, 29 de junho de 2006

Entre 2 e 31 de Julho irá decorrer, em diversas localidades do Alentejo, mais uma edição de ESCRITA NA PAISAGEM, Festival de Performance e Artes da Terra. Os organizadores pretendem "cruzar as artes performativas e da terra com a paisagem alentejana. Nesta terceira edição, o tema do Festival formula-se a partir de 3 palavras-chave: comer-cheirar-agricultura. A especificidade do lugar procura-se, aqui, na especificidade do comer / cheirar de um território que tem ainda uma forte matriz agrícola."

Toda a informação aqui

quarta-feira, 28 de junho de 2006

O regresso dos Flinstones

Fernando Ruas desafiou a população de Viseu a «correr à pedrada» os funcionários do ministério do ambiente que fiscalizam e multam obras feitas pelas juntas de freguesia. Afirmações feitas durante uma reunião da Assembleia Municipal de Viseu.
Mais um discípulo de Alberto João Jardim? Sim, mas ainda em fase de tirocínio. Até porque o Mestre já revelou a sua paternal compreensão.
Só que o caso, para além do evidente embaraço causado na Direcção do PSD, tem contornos mais subtis: é que, desta forma, revelou-se publicamente a predilecção do autarca pelos métodos dos soixant-huitard, num tempo em que as palavras de ordem eram outras
- sous les paveaux, la plage... Ora, ora, senhor presidente da A.N.M.P., só apetece dizer,"não havia nexexidade!"... Ver notícia aqui

terça-feira, 27 de junho de 2006

Imagens de Portugal romântico - 3

Lisboa

Leiria

Ponte de Lima

segunda-feira, 26 de junho de 2006

A Mão da Nuvem

3.
Através das frestas na porta e nas janelas do meu quarto
vem o ritmo dos passos, nem os do dia, nem os da noite.
São os passos de uma mulher eternamente vagabunda
que nunca envelhece, não repousa, não dorme.
O seu nome é o vento.
7.
Ouço em viagem vozes estranhas.
Só as pode guardar um museu destinado
à infância da palavra.
8.
A viagem ensinou-me
a ler o tempo
traçado pela mão da nuvem.
11
Amadurece-me, ó sol.
Colhe-me, ó noite.
15
O mundo não deixa de ser uma criança.
Levanta-te e deita-o no seu leito,
ó amanhã.

Adonis (Ali Ahmad Saïd Esber)
Nasceu na Síria em 1930. Licenciado em Filosofia. Viveu na Líbia, em Genebra e actualmente em Paris, onde é professor universitário. Participou no Encontro Internacional de Poetas "No Cais da Poesia", que decorreu em Faro entre 25 e 27 de Maio de 2006.

domingo, 25 de junho de 2006

Sonho de outra noite de Verão

Van Gogh, Terraço do Café à Noite, 1888

Crimes exemplares - 4

Que saudades eu já tinha
da minha alegre casinha
tão modesta quanto eu...

Quando finalmente acordou, só viu escuro à sua volta. Bateu, bateu, nada. Mas era estranho: os ruídos quase imperceptíveis que vinham do outro lado eram-lhe familiares. Conseguiu distinguir o relógio de cuco, a campainha da porta, o telefone a tocar, a 4ª sinfonia de Mahler que o Zé Tó tanto gostava, enquanto na mesa de trabalho dava os retoque finais no seu último projecto. Nos últimos tempos, falava entusiasticamente sobre o que ele chamava "arquitectura viva". Bateu com mais força. Começou a gritar por socorro, num pânico descontrolado. Mas as espessas paredes de betão não cediam nem um milímetro. Ao fim de algumas horas, esgotada, deixou-se cair na estreita faixa de solo, que, reparou então, não media mais de meio metro. Um pavor indizível começou a tomar conta dela, toldando-lhe os pensamentos. Ao mesmo tempo, um torpor desconhecido invadia-lhe o corpo, à medida que o oxigénio ia escasseando. Imagens soltas sucediam-se no seu cérebro, a uma velocidade vertiginosa. Até que uma espécie de véu de luz se abateu sobre ela, lentamente...

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