quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
Da pieguice
Não me surpreende a costumeira indignação dos cry babies saudosos do bom velho agit prop, por causa de uma afirmação de Passos Coelho numa conferência académica acerca da congénita pieguice dos portugueses. Alguns desses portugueses, uns por osmose com catecismos de outros tempos, já em fase de morte assistida, outros por obrigação "revolucionária", outros por ressabiamento, outros porque uma ilusão de que l´air du temps ainda é o seu particular l'air du temps, esganiçaram-se num alvoroço de capoeira contra a recomendação da Passos Coelho. Devo dizer que não me surpreendeu a regulamentar halitosis ideológica propalada pelos chefes da esquerda "revolucionária" com assento parlamentar. No entanto, confesso que a má citação de Camões por Zorrinho, líder parlamentar do PS, me deixou boquiaberto. Seja como for, o 1º ministro acertou em cheio. Juntamente com a inveja, a fome social e o medo da cidadania, a pieguice é um dos sintomas mais graves da degenerescência nacional. Uma coisa é a luta individual, anónima, muitas vezes heróica, de milhões de portugueses, por uma vida digna. Isso é sério e intangível. Outra coisa é a sua caricatura: precisamente a pieguice. Ou seja, o hábito da queixinha, da eterna lamentação, da revolta desperdiçada, do papaguear de catecismos exóticos, decalcados do tempo em que a palavra ainda fundava o poder. Ou seja, um colete de forças letal. Tudo isto enquanto as guitarras tangem e se canta o fado...
domingo, 5 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
Bolosfera
No interior da vasta galáxia blogosférica existe o planeta futebol. E dentro deste, o asteróide composto pelos blogues benfiquistas, benficófilos e afins. Alguns deles, e não por acaso, estão listados no sidebar deste blogue, em "SLB files". Embora tendo em comum a mesma paixão clubística, todos têm uma linha editorial diferente: ou mais alinhada com o discurso oficial, ou mais crítica em relação ao mesmo. Há também os outsiders, num registo mais irónico e desprendido, onde a marca identitária é claramente a do autor. Mas há um que é um caso especial. Trata-se do "Religião Nacional". Um espaço cujo autor apresenta como de "Crónicas liberais sobre o futebol português". O subtítulo não engana e, na primeira leitura, confirma-se o seu acerto. Um caso onde a paixão clubística não belisca em nada a lucidez, a clarividência e o rigor. O autor não procura a arrumação politicamente correcta, nem os casos de faca e alguidar do futebol. Mas consegue, paradoxalmente, trazer-nos as visões mais desassombradas, polémicas e descomplexadas. O autor escreve artigos, pequenos ensaios. Fora de causa está o comentário fácil, ou os recados que só a bajulação acomoda. Aqui não cabe a inveja social e humores ínvios, que muitos transportam clandestinamente para o futebol. E, de forma excelsa, fala-se deste por aquilo que realmente é: um jogo. Mesmo que com implicações políticas, cada vez mais extensas e muitas vezes opacas. Como exemplo, leiam isto.
A hora
Não. Fica-te, se queres, a ruminar o que foste. Eu parto ao encontro do que sou, do que já começa a ser, meu descendente e antepassado, meu pai e meu filho, meu semelhante dissemelhante. O homem começa onde morre. Vou ao meu nascimento.
Octavio Paz, "Velho Poema", in "Águia ou Sol", Hiena Editora, 1985 (trad. Rui Rosado)
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