sábado, 4 de dezembro de 2010

Palimpsesto (2)





O milagre

O Poeta e o Herói são dois milagres; contradizem a Natureza, como duas pedras que voassem.

Aforismos, Teixeira de Pascoaes, selecção e organização de Mário Cesariny

Sarebbe bello vivere una favola - 16


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sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A igualdade segundo César

Como se sabe, o eterno Presidente do Governo Regional doa Açores acaba de isentar os funcionários regionais dos cortes impostos na função pública pelo PEC 2. 
Sobre o assunto, escreve João Gonçalves no "Portugal dos Pequeninos": "o pequeno Kim dos Açores veio dizer que a sua "medida regional" - compensar três mil funcionários públicos tão portugueses como os de Faro, da Guarda ou do Funchal, por exemplo, dos cortes gerais que entram em vigor daqui a umas semanas - é dele e que nem o Querido Líder tem nada a ver com isso. Acresce, diz, que tal coisa não custa nem um cêntimo a ninguém. Ai não? Então o dinheiro brotará das fumarolas? Ainda estou para saber o que é que Medeiros Ferreira "viu" nesta criaturinha politicamente abjecta, saída directamente de um livro de Orwell para contribuir para o esterco em que tudo isto se tornou."

Sá Carneiro por Pulido Valente

«Trabalhei dia a dia desde o princípio de 1979 até Dezembro de 1980 com Sá Carneiro; primeiro como adjunto no partido e membro do Governo-sombra, a seguir como secretário adjunto no Governo propriamente dito. Até há pouco tempo, julguei que sabia o que ele pensava da política portuguesa e que tinha uma ideia aproximada do que ele se propunha fazer. Erro meu. Hoje, trinta anos depois do desastre que o matou, apareceram dúzias de íntimos, que nunca vi na altura perto dele e filósofos que explicam numa prosa arrevesada e solene o verdadeiro pensamento do homem. Compreendo que a ocasião é boa para ganhar uns cêntimos ou para ajudar carreiras tremelicantes. Mas não consigo deixar de me espantar com revelações que não revelam nada e com a transposição anacrónica para a cabeça de Sá Carneiro de coisas que manifestamente não o preocuparam ou que nem sequer imaginava. Assim se escreve a história e o jornalismo que se diz de “referência”. No meio dessa mistura de alhos com bugalhos, convém perceber que os fins de Sá Carneiro eram dois. Primeiro, levar a direita (o PPD e o CDS) ao poder e, segundo, acabar com a tutela militar a que Portugal estava submetido. Talvez seja inútil explicar que se o poder ficasse indeterminadamente nas mãos da esquerda que se opusera à ditadura, e só nas dela, não tardaria que se criasse a ideia de que não assistia ao PSD e ao CDS qualquer legitimidade para governar e o regime democrático ficava à partida liquidado. As maiorias de 1979 e de 1980 e a genérica moderação da AD (que se absteve de perseguir fosse quem fosse e respeitou meticulosamente a lei) legitimaram a direita em definitivo. O que simplificou a vida a Diogo Freitas do Amaral, ao PS e a Mário Soares, quando, pouco a pouco, resolveram reduzir os “revolucionários” de 1974 e 1975 ao pequeno papel que, num país civilizado, lhes cabia. Sá Carneiro queria apressar este processo, que, na prática, durou até ao colapso do PRD. O plano (se merece o nome) era eleger Presidente da República um general conservador e provocar, com o apoio dele, um referendo sobre a Constituição. Infelizmente, esta estratégia não passava de uma fantasia. Em 1980, o eleitorado da direita andava pelos 47 por cento e não bastava para submeter a esquerda. Pior ainda, a AD proclamara na campanha para as legislativas que “governara bem”, com Eanes, e ninguém aceitaria, como não aceitou, a súbita necessidade de correr com Eanes para garantir que dali em diante não governaria mal. Sá Carneiro morreu e o candidato da AD, como se previa, perdeu. Muita gente não se consolou deste desastre. Acontece que um desgosto, que do coração partilho, não substitui a evidência histórica.»

Vasco Pulido Valente, no "Público"

Stalker

A tempestade

Caiu mais um nevão na Guarda. And so what? Uma ocorrência perfeitamente banal, que nada tem de extraordinário, como é sabido. Aliás, a neve é um elemento crucial na iconografia da cidade. No entanto, sempre que aparece, dá ideia de que caiu o Carmo e a Trindade. A cidade pára. As escolas, sem excepção, fecham. As repartições estão a meio gás. Os compromissos cedem. Os eventos agendados são adiados sine die. Um manto de displicência, irresponsabilidade e catastrofismo parece ter-se abatido sobre a cidade, em vez de cristais de água. Repare-se que, preferencialmente, encerra tudo o que é público. As entidades privadas, no geral, estão a funcionar. E o que fazem as autoridades? Sobretudo comunicados. O Serviço de Protecção Civil, em vez de actuar como uma central de operações, resume-se a aparecer como uma central de comunicações redundante. Onde a inspiração parece vir inteirinha de Monsieur de La Palisse (o tal que 5 minutos antes de morrer ainda estava vivo). Podem ouvir-se coisas como: "saiam à rua bem agasalhados", "cuidado a circular nos passeios", "se andarem de carro, levem o todo o terreno", "não se prevê que a a circulação se altere nas próximas horas", "prevêem-se melhorias para amanhã", etc. Por outro lado, não se vêem viaturas próprias para remover a neve e o gelo das vias. Não se vêem equipas a trabalhar, mas tão só os jeeps da Protecção Civil a fazerem a ronda e nada mais. Afinal, esta gente é paga para quê? E ainda por cima, ao serem criticados pela opinião pública, reagem como se estivessem isentos de avaliação. Para quando a Estação de Limpeza de Neve, prometida há anos? Conheço países onde a neve faz parte do quotidiano, sendo portanto encarada não como um elemento perturbador, mas eventualmente poético. Na minha cidade, é todos os anos mais do mesmo. Salvem-se as fotografias, o divertimento, a poesia. E o silêncio.