terça-feira, 13 de outubro de 2009

A noite das facas longas


A vitória de Isaltino Morais e Valentim Loureiro nos respectivos municípios levam-nos a ter em conta duas coisas: Em primeiro lugar, o sentimento de partilha, de pertença a uma comunidade e a responsabilidade individual que daí advém é diminuta. Não há muito mal em ter um presidente que ‘roube’ aos outros, desde que sobre algo para mim. Em segundo lugar, está a pouca consideração que se tem pela Justiça. Isaltino foi condenado a 7 anos de prisão, uma decisão judicial que pouco interessou à maioria dos eleitores de Oeiras. Há muitos anos que os tribunais fazem pouco dos cidadãos. Agora recebem o troco.

André Abrantes Amaral, n'"O Insurgente"

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

O trigo e o joio

"A vitória [do PS ] foi em especial sobre as expectativas nos media. (...) Comentadores como Constança Cunha e Sá e Sousa Tavares, que contribuem ultimamente para um tom mais socialista da "nova" TVI, diziam às 20h45 que não se devia fazer "leituras nacionais", mas rapidamente alteraram a sua opinião quando se verificou a subida do PS em número de câmaras. Rodadas pelas eleições anteriores, as três TV fizeram um bom trabalho. (...) Houve apenas o habitual parolismo tecnológico, desta vez a cargo de José Alberto Carvalho (RTP), mostrando um operador de câmara num Segway, o que, aliás, não trouxe vantagens no dispositivo comunicacional da RTP. O aspecto mais negativo das emissões é a habitual falta de senso dos repórteres quando se amalgamam nos mesmos locais. Perdem a perspectiva da relevância jornalística e política. Intervêm para dizer minutos a fio que Fulano ainda não chegou, que Sicrano continua no 13.º andar. A patetice chegou ao ponto do repórter da SIC perguntar a Santana Lopes se ele se deslocava na rua para ir à casa de banho. O longo processo eleitoral desde Junho veio acentuar a crescente pobreza dos comentadores das TV, nomeadamente da SIC e TVI. O que mais impressiona é que há vários muito mal preparados. Não estudaram os resultados das eleições anteriores, não conhecem nada ou quase nada das autarquias, acompanharam pouco ou nada a campanha, quase nada acrescentam de politicamente relevante. A crescente exigência da sociedade e dos espectadores e leitores exige mais preparação e mais qualidade, não apenas no dispositivo técnico e jornalístico, mas também nos painéis de comentadores. "

Manuel Cintra Torres, no "PÚBLICO" de hoje

Stalker

Lido

Ontem foram criados muitos empregos: 308 para Presidente de Câmara, 4 260 para Presidente de Junta de Freguesia, 2633 para deputados municipais. Começou a retoma económica.

no "Combustões"

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A frente Leste

Esta senhora chama-se Herta Müller. Foi-lhe recentemente atribuído o Prémio Nobel da Literatura. A escritora é praticamente desconhecida em Portugal. Sendo romena, é etnicamente alemã, em cuja língua escreve. Uma dupla identidade comum nos países do centro-leste europeu, de que Kafka foi o exemplo maior, como é sabido. Vive em Berlim desde 1987, onde se exilou por motivos políticos, para fugir ao regime ditatorial de Ceausescu. Da sua já vasta bibliografia, só três obras têm edição em português: O homem é um grande faisão sobre a terra, trad. Maria Antonieta C. Mendonça, Cotovia, 1993; A terra das ameixas verdes, trad. Maria Alexandra A. Lopes, Difel, 1999; O Compromisso, trad. Lya Luft. Globo, 2004. Uma obra a descobrir, naturalmente.

Esmiuçar as músicas

Uma das vantagens de morar no centro, durante uma campanha eleitoral, é ficar a saber de cor as músicas utilizadas pelas várias comitivas para galvanizar a populaça, alinhadas no meio de soundbytes cada vez mais uniformes. Esses temas icónicos são generosamente difundidos através de algumas dezenas de decibéis. Bom, para começar, devo dizer que o solo de harmónica do hino do PSD é particularmente interessante. Anda ali mãozinha do Rui Veloso, com certeza. Digna de nota é a introdução coral, muito semelhante à de "All you Need is Love", dos Fabulous Four. A CDU insiste na "carvalhesa", um best seller medieval recuperado pelos comunistas para uso doméstico. À mistura com vozes megafónicas anunciando novas políticas, embora nunca se sabendo quais, graças ao conhecido efeito Doppler. O PS apostou na criação local. E fez bem. Quem consegue ainda ouvir os hits do Paco Bandeira? Quanto ao PP, esperava uma coisa mais arrojada, mais vanguardista, atendendo ao lema da campanha: F de Futuro. Ou até mesmo um solo de canto lírico registado no jacuzzi de Portas. Mas não, tudo ficou por um mix beato-pimba. O silêncio do BE é que me desiludiu redondamente. Esperava uns temas arab-funk e hip-hop incendiário pour épater les bourgeois... Pena... Será que não têm dinheiro para uma reles instalação sonora? Ou foi todo gasto em tranquilizantes para Louçã, dada a sua característica impulsividade verborreica ("segurem-me senão eu bato em todos!")?

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

A doce mentira

Alguém teve a amabilidade de me enviar a seguinte pérola trendy por email:
Até que ponto confias na tua companheira ou no teu companheiro? Tens dúvidas quanto à fidelidade da tua cara-metade? Já alguma vez a/o apanhaste em falso, a mentir ou a dizer que estava em determinado local que depois vieste a comprovar não ser verdade? Sentes que a vossa relação está diferente e que podes estar a ser traída/o ou enganada/o? Com este novo dispositivo para telemóvel que te propomos, a qualquer momento e em qualquer lugar podes saber onde se encontra qualquer pessoa que desejes, simplesmente inserindo o número do seu telemóvel. O sistema funciona através de localização por satélite cruzada com informação de código IMEI que os telemóveis emitem a cada minuto e é recebido pelas operadoras. Experimenta já... e oxalá não te surpreendas com o resultado!

Recapitulando... Já existe o chip detector para cães e está prevista a instalação obrigatória de um dispositivo semelhante nos veículos automóveis. Só faltava pois um substituto dos detectives de outros tempos. Ou, se quiserem, um "ciumómetro" todo o terreno, um gadget para idiotas desocupados/as certificarem onde estão as suas "caras-metade". Pelo menos, em que célula estão os seus telemóveis. Portanto, uma oportunidade de borla para o utilizador ir meditando sobre as diferenças entre o significado romanesco das mortes de Emma Bovary e de Anna Karenina. Ou entre a degradação dos valores, enquanto tema de fundo da trilogia "Os Sonâmbulos", de Broch e a triste sina do agrimensor n' "O Castelo" de Kafka. Entretanto, pode ir trauteando o tema "Satellite of Love", de Lou Reed. Por último, o anunciante não disse mas eu adivinho: garantido pelo serviço está seguramente uma coisa. Já adivinharam? Isso mesmo, um belo par de cornos. Ou então, quem sabe, o início de um folhetim para outra telenovela...