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sexta-feira, 12 de março de 2010

Irena Sendler (1912-2010)


Esta senhora, recentemente falecida com 98 anos, deveria ser nomeada, com inteira justiça, de Benfeitora da Humanidade, se tal título existisse. A história conta-se em poucas palavras. Durante a 2ª Guerra Mundial, Irena conseguiu uma autorização para trabalhar no Gueto de Varsóvia, como especialista de canalizações. Tal só foi possível graças à sua nacionalidade alemã e ao atestado de "sangue puro", é claro. Mas os seus verdadeiros objectivos iam muito mais além... Sabia muito bem quais eram os planos dos nazis relativamente aos judeus, mesmo que a palavra "endlosung" lhe fosse desconhecida. Como actuava? Irena transportava crianças judias para fora do gueto, escondidas no fundo da sua caixa de ferramentas. Levava também um saco de serapilheira, na parte de trás da sua camioneta, para crianças de maior tamanho. Como meio dissuasor, no mesmo compartimento levava sempre um cão, a quem ensinara a ladrar aos soldados nazis quando entrava e saia do Gueto. Claro que os soldados não queriam nada com o cão e, para além disso, o ladrar encobriria qualquer ruído que as crianças pudessem fazer. Enquanto conseguiu manter este trabalho, conseguiu retirar e salvar cerca de 2500 crianças. Por fim, os nazis apanharam-na e foi torturada brutalmente. Irena mantinha um registo, com o nome de todas as crianças que conseguiu retirar do Gueto, o qual guardava num frasco de vidro, enterrado debaixo de uma árvore no seu jardim. Depois de terminada a Guerra, tentou localizar os pais que tivessem sobrevivido e reunir as respectivas famílias. Infelizmente, a maioria tinha sido levada para os campos de extermínio. Para aqueles que tinham perdido os pais, mesmo assim, ajudou a encontrar casas de acolhimento, ou pais adoptivos.
No ano passado foi proposta para receber o Prémio Nobel da Paz... Mas sabem que mais? Acabou por ser preterida em favor de Al Gore. Um ex-presidente americano que andou a fazer conferências por todo mundo, pagas a peso de ouro, onde mostrava uns diapositivos sobre o Aquecimento Global. Lembram-se?

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A frente Leste

Esta senhora chama-se Herta Müller. Foi-lhe recentemente atribuído o Prémio Nobel da Literatura. A escritora é praticamente desconhecida em Portugal. Sendo romena, é etnicamente alemã, em cuja língua escreve. Uma dupla identidade comum nos países do centro-leste europeu, de que Kafka foi o exemplo maior, como é sabido. Vive em Berlim desde 1987, onde se exilou por motivos políticos, para fugir ao regime ditatorial de Ceausescu. Da sua já vasta bibliografia, só três obras têm edição em português: O homem é um grande faisão sobre a terra, trad. Maria Antonieta C. Mendonça, Cotovia, 1993; A terra das ameixas verdes, trad. Maria Alexandra A. Lopes, Difel, 1999; O Compromisso, trad. Lya Luft. Globo, 2004. Uma obra a descobrir, naturalmente.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Ela por ela

Doris Lessing foi recentemente entrevistada no "The Guardian". Às tantas, afirma a jornalista autora da peça, que "como todos os meios de comunicação ressaltaram, Doris Lessing é apenas a 11ª mulher recompensada entre os 104 laureados do Prémio Nobel da Literatura." Mais à frente, "se Doris Lessing não é uma escolha assim tão surpreendente, talvez seja, entre outras razões, porque ela é, acima de tudo, uma escritora de ideias e de ideais."
Se houvesse um detector de politicamente correcto em cada artigo de jornal ou prelecção académica, era muito difícil não começar logo a apitar com veemência. Neste caso, poupei trabalho ao leitor a aqui ficaram registadas duas pérolas dessa má consciência, que degenerou num whisfull thinking serôdio e totalitário. Em relação à mais básica, a distribuição do prémio pelos géneros, ela fala por si. Mas seria interessante saber quantos dentistas já foram galardoados. E quantos chineses? E quantos esquimós? E quantas donas de casa de Cincinatti? E quantos ex-nadadores-salvadores? E quantos húngaros com pé de atleta? E quantos membros da tribo Massai? A lista seria interminável. De resto, para quem sente a literatura mais perto de si do que a veia do pescoço, como é o caso do escriba, será que um galardão que ignorou Borges, Yourcenar, Lobo Antunes ou Duras tem alguma importância? No entanto, a partir de agora e para minimizar o "escândalo", deveria haver quotas para mulheres nobelizadas. Neste momento, o saldo está em 93-11 a favor desses hirsutos e primitivos usurpadores dos talentos femininos. O que quer dizer que, nos próximos 80 anos, deveriam ser unicamente premiadas mulheres. Ou então, num assomo de liberalidade, os descendentes de Greene, Camus, Hemingway, Mann, Kipling, Beckett, Faulkner, Eliot, Hesse ou Steinbeck, deveriam entregar os prémios a uma associação feminista qualquer, que depois daria conta do recado. Em qualquer caso, as laureadas seriam sempre, de preferência, escritoras de ideias e de ideais. Por essa ordem, claro.

Publicado no jornal "O Interior"

sábado, 14 de outubro de 2006

Pró ano há mais

Ao turco Orhan Pamuk foi atribuído o prémio Nobel da Literatura. É sempre bom saber que os académicos de Estocolmo estão atentos a tão ilustres desconhecidos. E que o politicamente correcto, muito mais do que a literatura, é a pedra de toque da difícil escolha. Parece que o escritor - adicto de Istambul como Kavafis o fora de Alexandria, embora este não tenha sido nobelizado - tentou ligar o romance clássico europeu com o imaginário de cariz oriental. E que já tem uma vasta obra publicada, embora só duas obras o estejam em Portugal, "A Cidadela Branca" e "Os Jardins da Memória" (ed. Presença). E que se tem notabilizado por declarações polémicas sobre a repressão dos arménios pelo estado turco. Todavia, esta atribuição, como outras recentes, dá a ideia que obedece a um sistema de quotas - de género, étnicas, religiosas, geo-políticas - assaz estranhas ao mérito intrínseco da obra contemplada. Banalizando-se o prémio e o premiado. A Literatura, essa, está de saúde e recomenda-se.

PS. Bastante mais estimulante foi a atribuição do Nobel da Paz a Muhammad Yunus, fundador do Grameen Bank e criador do famoso micro-crédito, que já contemplou 2,4 milhões de clientes em todo o mundo.