quinta-feira, 8 de maio de 2008

A longa marcha

Em dia de aniversário, é justo falar dos espectros e das correrias sem destino. Das arrumações enganosas, mas infalíveis, onde o amor nos coloca. Acerca dos primeiros, a imprevisibilidade da sua aparição assusta mais do que comove. O que está mal. É a razão febril, é certo, mas ainda a razão. Ou seja, muito mais do que a razão. Uma grandeza por momentos privada do oxigénio da esperança, quando a solidão real, fora de qualquer tentação lírica, bate nas vidraças. E que, num ambiente rarefeito, acaba por reformular a sua lógica ferida à luz desse instantâneo. Podia ser algo como: "O pior fez-se anunciar, portanto vou ter de abandonar o medo de ver o pior acontecer". Por outro lado, os aniversários são também lugares sem tempo. Projectos arrumados no meio da correria. Retomo aqui o que então escrevi por alturas do novo ano. "Algures na vida chega o lugar da gratidão. Por aqueles que nos amaram - poucos, após esticar o balanço com honestidade - por aqueles que não o souberam ou eu não soube, pelos erros que tão bem denunciaram o caminho, pelos outros que não passaram de hesitações, por aqueles que esperaram, divididos entre o orgulho e a queda, pelo consolo da ronda à volta do claustro, pelo fogo que triunfou, por vezes, no cume da insurreição e das sombras, pelas cinzas que foram ficando, pelos caminhos só ainda depois caminhos, pela assembleia de convidados que o vento trouxe e o vento dissipou, pelo orgulho que tudo rasgou, pelos céus de van gogh, pela poeira onde tudo se irá resumir. E brilhar."

Nota

Exprimi aqui a minha estranheza por nunca ter sido convidado para fazer uma crónica para a Rádio Altitude. Na resposta, embora não tendo que o fazer, o seu director remeteu um simpático e cabal esclarecimento acerca do modo de funcionamento dessas crónicas. O qual agradeço, embora tenha dúvidas em aceitar. O que implica, naturalmente e para encerrar a questão aqui, a supressão do post original.

Imagens do Maio de 68 (2)

Quartier Latin, Paris


Praga

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quarta-feira, 7 de maio de 2008

Começar e acabar (1)

Há dois anos atrás, a American Book Review recenseou as 100 melhores frases de início de romances. A esta iniciativa seguiu-se, recentemente, como seria lógico, o seu contraponto, i.e., as 100 melhores frases de encerramento de romances (pdf). A título pessoal, destacaria, de entre as primeiras, três momentos raros:

1- "Todas as famílias felizes se parecem umas com as outras, cada família infeliz é infeliz à sua maneira."
Lev Tolstoi, Anna Karénina, Relógio D'Água
2- "Através da cerca, por entre os intervalos das pétalas encaracoladas, eu via-os a dar tacadas."
William Faulkner, O som e a fúria, Dom Quixote, 1999
3 - "Alguém devia ter difamado Josef K., pois, certa manhã, sem que tivesse feito qualquer mal, foi preso"
Franz Kafka, O Processo, Assírio & Alvim, 1999

Acordo Ortográfico? Não, obrigado! (4)

Mais de 15.000 assinaturas constam do Manifesto/Petição Contra o Acordo Ortográfico, documento que quinta-feira será entregue ao presidente da Assembleia da República, Jaime Gama, por uma delegação dos signatários do documento. Ver aqui notícia completa.

A este propósito, mais uma vez, convém lembrar o óbvio:
1º Esta reforma foi feita ao arrepio da etimologia do português, do seu padrão europeu.
2º Ao contrário das reformas anteriores, nomeadamente a de 1911, feitas a pensar na eliminação de arcaísmos, esta destina-se exclusivamente a adaptar a grafia do português padrão à grafia brasileira.
3º A esmagadora maioria dos especialistas, mesmo que por razões não coincidentes, tem vindo a a recusar este acordo.
4º As alterações propostas têm um impacto real e dramático na vida de toda a gente, uma realidade ignorada pelos promotores do acordo.
4º A míngua de argumentos dos defensores do protocolo degenerou na patética acusação de neo-colonialismo e outras pérolas do politicamente correcto, dirigidas aos que tomaram posição contra o acordo.
5º Esta luta envolve realidades mais profundas do que à partida se julga: é a realpolitik dos que usam a língua como instrumento diplomático e a ligeireza que sempre impuseram na discussão pública do problema. A língua não é propriedade de ninguém, mas uma marca indissociável da nossa história e da nossa cultura.

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Stalker

Momentos Zen - 40

Só encontrará a sua vida aquele que a perdeu.

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