terça-feira, 8 de abril de 2008
segunda-feira, 7 de abril de 2008
O preço certo
Hoje dei pelos sinais de alarme: ando a sofrer de menos. É que, de acordo com uma antiga estatística panglossiana, é necessário que mantenha os índices de sofrimento em alta, para poder pensar "como deve ser". Basta distrair-me um bocadinho, acreditar na felicidade, ou coisas desse género e pronto. É o desmentido, em toda a linha, do célebre refrão que nega o machado que corte a raiz ao pensamento. Portanto, nada de desconcentrações. "Depois queixa-te!", ouço sussurrar, no fundo do bosque, a voz da consciência. Nem mais.
Crimes exemplares - 22
Com uma denúncia, começa sempre com uma denúncia, naquele café está uma máquina de brindes que dá dinheiro. Este país é muito assim, pequenino e medricas, um rosto irrelevante (que seria desprezível se por acaso atentássemos nele) escondido atrás de um telefone, de um email, de uma folha de papel. O arguido vinga-se, já que falaram demais, agora é ele quem não fala. Na verdade não é desforço, é estratégia: o advogado disse-lhe que se cale, que nada confesse e ele cumpre, que o doutor é que sabe. É-lhe perguntado o nome, a filiação, a naturalidade. Olha receoso para a esquerda do púlpito, está na dúvida. Ao aceno subtil do advogado, que finge cofiar a barbicha, responde a tudo, mas responde baixinho. Hesita envergonhado no segundo nome do pai, que não chegou a conhecer. Se já respondeu em Tribunal. E ele mudo, os olhos aflitos e os sons a quererem fugir-lhe da boca cerrada, a cabeça que acena ligeiramente, não se percebe se num não se num talvez. Então o juiz percebe a razão dos silêncios, dos balançares, da estranha linguagem corporal e lembra-lhe de que, quanto aos antecedentes criminais tem que falar e falar com verdade. Ele não acredita, acha que é uma armadilha; um embuste para que desagrafe a boca e confesse o chorrilho dos seus pecados, e por isso continua calado, os olhos agora no chão, fixos nos nós do soalho. Finalmente o advogado, que responda ao meritíssimo, o silêncio vem depois. O corpo descontrai, e o alívio que dele flui quase se ouve contra os quatro cantos da sala. Que não, que nunca respondeu nem esteve preso.
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Lido

Quando chegueiEncontrei as palavras fechadas
E nenhuma chave sob a memória
Mas sentei-me à porta do poema
Mesmo sabendo que não regressas
E que já não moro aqui
in "A Imitação dos Dias"
domingo, 6 de abril de 2008
sábado, 5 de abril de 2008
Acordo Ortográfico? Não, obrigado! (2)
A Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) pondera a possibilidade de suscitar a apreciação da constitucionalidade do Acordo Ortográfico de 1990 junto do Tribunal Constitucional. O acordo, como se sabe, pretende "unificar" a ortografia de acordo com a norma brasileira. A notícia do DN refere ainda que, segundo Vasco Teixeira, presidente daquela associação, "em causa está a possível ilegalidade do protocolo modificativo de 2004, que prevê que a ratificação do acordo por três países o torne válido em todos os estados da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP). A versão inicial, de 1990, previa que o documento só seria efectivo se aceite nos sete países." Recorde-se que o protocolo já foi ratificado pelo Brasil, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde. O que significa que, por absurdo, vigoraria mesmo que a ratificação portuguesa fosse anulada. Vasco Teixeira considera que esse cenário deixaria "a falar sozinhos" os três outros países. "Três em sete nem sequer é uma maioria simples", ironizou, com propriedade.
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sexta-feira, 4 de abril de 2008
O barnabé das costureirinhas

Mário Nogueira, o chefe do soviete Fenprof é um dos últimos exemplares vivos da espécie comunio defenestadoris sapiens, segundo designação aceite pela maioria dos antropólogos. Aquele derrame espasmódico de ódio corporativo e aquele bigodinho à Rolão Preto são só o disfarce de uma natureza cruel e brutal, o atributo mais associado àquela espécie. Soube-se agora que o antigo mandatário da candidatura do chefe Jerónimo tem um altar em casa com uma imagem do Zé dos Bigodes, segurando umas criancinhas, como o georgiano mais conhecido da história costumava fazer. Todos os dias, depois de umas abluções e uma sessão de tiro ao alvo na fotografia da Ministra da Educação, o Mário faz um acto de contrição jdanovista, seguido de uma breve simulação de uma execução em massa de todos os que "atentam contra os direitos dos associados do sindicato" - "Só para descontrair do stress diário", veio mais tarde a reconhecer - acabando por entrar numa espécie de êxtase xamânico, por se sentir tão pertinho do "pai dos povos". O Mário, recentemente, tem-se multiplicado em entupir os tribunais com umas preciosidades legais. São acções atrás de acções. Mas o homem, pelos vistos, é pouco conhecedor das minudências jurídicas. Canta vitória sobre vitória para os basbaques da comunicação social, ignorando que os tribunais se limitaram a aceitar o que lá mandou colocar, sem nunca terem decidido sobre o fundo da questão. Até agora. O Tribunal Constitucional, através do acórdão nº 184/2008, de 12 de Março, veio chumbar as pretensões dos requerentes, 25 deputados que pretendiam ver declarados inconstitucionais certos aspectos da Lei que alterou o Estatuto da Carreira Docente. O Mário, esse tem estado caladinho que nem um rato. Fazendo jus ao outro atributo da sua espécie: a demagogia sem limites.
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