Em tempos, durante um fim-de-semana que passei numa vila do Alto Minho, a certa altura houve um jantar em casa da família dos meus anfitriões. Antes do repasto, como convém, perguntaram-me se gostava de anho, pois estava a assar. Fiquei em pânico. Ocorreu-me que, por aquelas bandas, usassem na gastronomia espécies venatórias incomuns. Ou que tudo não passava de uma praxe. Pois acreditem que mantive a presença de espírito suficiente para ir à casa de banho estimular os neurónios, até dar com uma pista que me fizesse chegar até ao malfadado anho. De repente, foi-se chegando uma hipótese, como quem não quer a coisa. Quando olhei para ela, ali, à minha frente, reconheci a solução: AGNUM! Eureka! O latim, isso mesmo, caros amigos! Foi através do latim que lá cheguei! A meias com uma expressão bíblica bem conhecida: agnus dei, o cordeiro de Deus. E como no norte a tradição ainda é o que era, dizem, a corruptela não andaria longe do étimo. Trocando por miúdos, eis que se aproximava, a passos largos, um borrego assado. A interjeição que se seguiu deve ter sido audível em toda a casa, pois alguém foi à porta saber se alguma coisa não estava bem. Passados uns minutos, fui ter com os convivas e, com o ar mais natural deste mundo, atirei: "Anho? Adoro! Com batatas assadas ou com arroz no forno?" Confesso que arrisquei. E se fosse mesmo um unicórnio? Para outro momento ficarão algumas histórias em que não me saí tão bem, para compensar. E também porque me ocorre sempre um excerto do "Poema em linha recta", de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos, (aqui na íntegra):sábado, 15 de março de 2008
O divino cordeiro
Em tempos, durante um fim-de-semana que passei numa vila do Alto Minho, a certa altura houve um jantar em casa da família dos meus anfitriões. Antes do repasto, como convém, perguntaram-me se gostava de anho, pois estava a assar. Fiquei em pânico. Ocorreu-me que, por aquelas bandas, usassem na gastronomia espécies venatórias incomuns. Ou que tudo não passava de uma praxe. Pois acreditem que mantive a presença de espírito suficiente para ir à casa de banho estimular os neurónios, até dar com uma pista que me fizesse chegar até ao malfadado anho. De repente, foi-se chegando uma hipótese, como quem não quer a coisa. Quando olhei para ela, ali, à minha frente, reconheci a solução: AGNUM! Eureka! O latim, isso mesmo, caros amigos! Foi através do latim que lá cheguei! A meias com uma expressão bíblica bem conhecida: agnus dei, o cordeiro de Deus. E como no norte a tradição ainda é o que era, dizem, a corruptela não andaria longe do étimo. Trocando por miúdos, eis que se aproximava, a passos largos, um borrego assado. A interjeição que se seguiu deve ter sido audível em toda a casa, pois alguém foi à porta saber se alguma coisa não estava bem. Passados uns minutos, fui ter com os convivas e, com o ar mais natural deste mundo, atirei: "Anho? Adoro! Com batatas assadas ou com arroz no forno?" Confesso que arrisquei. E se fosse mesmo um unicórnio? Para outro momento ficarão algumas histórias em que não me saí tão bem, para compensar. E também porque me ocorre sempre um excerto do "Poema em linha recta", de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos, (aqui na íntegra):O coleccionador
sexta-feira, 14 de março de 2008
quinta-feira, 13 de março de 2008
Playlist da casa (6)
Miles Davis & John Coltrane, "The Complete Columbia Recordings, 1955-61" (box set, 2000, 6 CDs)



Divórcio na Hora
Recebi há pouco um email que reza assim: "O mandatário judicial português Januário Lourenço, em conjunto com uma empresa de tecnologias da justiça sediada na Inglaterra, acaba de lançar o portal Divórcio na Hora, dando início a uma nova era de desmaterialização do requerimento de divórcio tradicional em papel." E mais à frente: "O Divórcio na Hora consiste num requerimento electrónico de divórcio que permita a dois cidadãos requerer o seu divórcio por acordo, por via electrónica e fazendo uso das tecnologias já existentes e do CC (Cartão do Cidadão), com igual valor legal que o requerimento em papel com assinaturas a caneta." É claro que o sistema só funciona não havendo acordos de regulação do poder paternal, alimentos ou partilha de bens. Mais à frente esclarece-se que o autor do projecto é especialista em direito do ciberespaço. Olha que bem! Também quero! Mas em verdade vos digo, meus irmãos: fiquei deveras impressionado. De tal forma que estou a pensar em casar, só para ver se este simplex funciona. Em tempos já me passou pela cabeça essa ideia peregrina. Na altura, o móbil do crime era vir a beneficiar da ADSE para arranjar os dentes, sistema de que a putativa noiva era utente. Mas na manhã seguinte olhei para o lado e desisti.
