sexta-feira, 7 de março de 2008

Ilusões - 4

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O choque

Há uns dias atrás, encontrei um amigo que esteve uma temporada na Índia. Tinha chegado no dia anterior. A primeira coisa que me relatou foi a sua primeira impressão quando regressou. "Parecia que não havia gente nas ruas", foram, grosso modo, as suas palavras. É claro que esta referência deve ser entendida em termos puramente quantitativos. E melhor esclarecido fiquei acerca deste espanto sincero, quando me descreveu alguns troços da realidade quotidiana naquele imenso país. Na grande maioria das cidades indianas, os níveis de ruído são inimagináveis. Durante praticamente todo o dia. O movimento nas ruas é frenético, de uma intensidade que esmaga. Mas é a escala que impressiona, sendo que a densidade populacional nas áreas urbanas é elevadíssima. Das maiores do mundo. De tal forma, que o jet lag ambiental deve ser enorme e a reacção deste meu amigo torna-se perfeitamente compreensível.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Parabéns!

O "Público" acabou de atingir a maioridade. Foi ontem. Com todo o merecimento, diga-se. Que continue, por muitos anos, a ser a referência incontornável do jornalismo independente no nosso país. O momentum foi celebrado com a pompa da circunstância: uma edição especial, sendo director "por um dia" Pacheco Pereira, que vale a pena ler: as crónicas de Rui Ramos (Homem ao Mar, um texto memorável, sobre o naufrágio de L. F. Menezes) Helena Matos e Rui Tavares, o artigo de Miguel Esteves Cardoso sobre o que mais odeia no jornal e a reportagem sobre o dia de JPP como director. O qual faz questão de contar a "anatomia de um casino e a história de um Ferrari". Ah, e também o número especial da revista P2 (ainda sem a versão online) com um grafismo completamente renovado e conteúdos sumarentos. Fotografias dos "Objectos e situações que mudaram a nossa vida nos últimos 18 anos" (resultado de uma votação online), entremeadas por crónicas, à propos, de alguns colunistas residentes, era o prato forte da publicação. Louva-se também que, por um dia, os artigos de opinião estivessem disponíveis para não assinantes.

terça-feira, 4 de março de 2008

A grande marcha

O PCP organizou uma manifestação intitulada "bifanas à jerónimo". Agora a sério, chamava-se "Marcha Liberdade e Democracia". Mais a sério ainda, esta força política deveria especializar-se em turismo sénior, na modalidade "pacote manif liberdade e democracia", sendo destinos preferenciais Cuba, China, Irão, Coreia de Norte, Líbia e Bielorrússia. Tudo incluído, é claro. Mesmo uma estadia prolongada custeada pelos respectivos Estados, num local convenientemente resguardado e à sombra. Isto sendo optimista, é claro. Segundo os organizadores, foram 50 000 os desfilantes. Suspeito que, desta vez, valeu tudo. Até os coxos e os mendigos foram requisitados. Os lares da 3ª idade da margem sul ficaram vazios. Alguns proverbiais professores "em luta" foram também vistos. Parece que os celebrantes mostraram os seus cartões, en passant. E o chefe do coreto bramiu umas palavras de ordem contra a "ofensiva aos direitos dos trabalhadores", o "grande capital", "as políticas de direita" e outras frases evangélicas. O rebanho acatou, ergueu o punho, agitou umas bandeiras, entoou vários hinos, fez as genuflexões da ordem em honra dos "partidos irmãos" e das "lutas contra o imperialismo" (FARC incluída) e... bom, para já, não me ocorre mais nada. Desde Novembro de 1975, era eu um puto, que assim dou conta da força do PC.

O emplastro

Este homem é pior do que uma dor de dentes ambulante. Este homem causa efeitos secundários fora de toda a posologia. Este homem não tem uma única ideia para o país. O seu princípio de Peter é ser um mediano autarca suburbano. Mais do que isso, é uma afronta à inteligência e à res publica. Este homem é, afinal, um subúrbio de si próprio. Este homem é uma mistura de vendedor de banha da cobra e contorcionista. Onde chega, manda um soundbyte para o pagode. Que ninguém leva a sério, a não ser ele próprio. Este homem quer desmantelar, seccionar, despublicizar, descasinar, desmedicinar, descomentarizar, desnaturalizar. Num dia quer salvar o "Estado Social", no outro quer desmantelá-lo. Este homem é um vendedor de enciclopédias que não sai do bairro que votou nele. Um líquido fefrigerador em circuito fechado, esquecendo-se que o país existe. Que precisa de alternativas. Que tem problemas complexos para resolver. Que precisa de seriedade. Que está farto de tacticismo e de faz de conta. Este homem está quase a chegar ao prazo de validade. Para muitos, seria 2009. Todavia, o mais certo é nem sequer lá chegar. Assim, já não vamos saber por quantos iria perder contra Sócrates. Os barões do seu partido já andam impacientes. Uns lamentam abertamente o investimento. Outros já vão coçando os tomates, enquanto esperam sentados que o homem caia, como diz JPP. As "bases" da carne assada, por sua vez, não vêm o seu lugarzinho ao fundo do túnel, como lhes foi prometido. Este homem, porém, cometeu um feito notável: conseguir ser o pior desastre da vida pública nacional, desde que me lembro. Pior ainda do que Santana Lopes. É obra!

segunda-feira, 3 de março de 2008

Delfos

Não há que ser demasiado ambicioso com a dor. Não esperar cânticos de redenção. Deixemo-la simplesmente entrar. Como uma visita persistente e incómoda. Que forçou a porta e pôs os cães das redondezas a ladrar. Nada a fazer. Deixá-la entrar. É ela que nos faz levar a sério. É ela que nos reenvia para dentro de uma lucidez circunspecta, exacta. É através dela que nos chegam os sinais de uma natureza que simplesmente nos reflecte. A que diz: "eu sou e tu estás", "podes usar-me como quiseres, mas tudo o que fizeres terá consequências".

domingo, 2 de março de 2008

Stalker