sábado, 22 de dezembro de 2007

Preces atendidas - 19

Monica Bellucci

Leituras de Natal

A D. Quixote acaba de publicar a última obra de Jonathan Littel : As Benevolentes (Les Bienveillantes). Trata-se das memórias de Maximilien Aue, um ex-oficial nazi, alemão de origens francesas que participa em momentos sombrios da recente história mundial: a execução dos judeus, as batalhas na frente de Estalinegrado, a organização dos campos de concentração, até a derrocada final da Alemanha. Uma confissão sem arrependimento das desumanidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial, que provoca uma reflexão original e desafiadora das razões que levam o homem a cometer o mal. A tradução é de Miguel Serras Pereira. Um breve excerto:
"...continuei a ser dos que pensam que as únicas coisas indispensáveis à vida humana são o ar, o comer, o beber e a excreção, e a busca da verdade. O resto é facultativo (...). Se suspendermos o trabalho, as actividades banais, a agitação de todos os dias, para nos entregarmos seriamente a um pensamento, as coisas passam a ser completamente outras. Depressa as coisas começam a vir à tona, em vagas densas e negras. À noite, os sonhos desarticulam-se, desdobram-se, proliferam, e ao despertar deixam uma fina camada acre e húmida na cabeça, que leva muito tempo a dissolver-se. Nada de mal entendidos: não é de culpabilidade, de remorsos que aqui se trata. Isso existe também, sem dúvida, não quero negá-lo, mas penso que as coisas são muito mais complexas. Até mesmo um homem que não fez a guerra, que não teve de matar, sofrerá aquilo de que estou a falar. Regressam as pequenas maldades, a cobardia, a falsidade, os gestos mesquinhos que afligem todo e qualquer homem. Não é de admirar por isso que os homens tenham inventado o trabalho, o álcool, as conversas fiadas estéreis. Não é de admirar que a televisão tenha tanto sucesso. "

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Wild

A equipa que produziu o multi-premiado “O Mar é Azul” apresenta agora a série épica que celebra o planeta de uma forma nunca antes vista.Com recurso à alta definição e a um orçamento sem precedentes, a série O Planeta Terra é o projecto mais caro e mais ambicioso alguma vez produzido pela BBC – foram investidos 16 milhões de Euros numa produção que se estendeu por mais de cinco anos, com utilização de 40 câmaras durante mais de dois mil dias de filmagens e em mais de duzentos locais diferentes.
A série foi lançada em DVD num pack que inclui 11 episódios e uma magnífica sequência final de três episódios: "salvar espécies", "as regiões selvagens" e "coabitar". A série contém imagens de uma beleza estonteante e o debate final é de uma qualidade invulgar. Uma boa opção para o sapatinho neste Natal. Ou então, comprem e não digam nada a ninguém...

Da vida das marionetas

Tenho saudades dos verdadeiros cartões de boas festas. A maioria com grafismo kitsch, é certo. Não obstante, havia neles uma materialidade piedosa, sincera. Cheiravam a cola, tinham erros, um destinatário certo. Não eram simples impulsos virtuais, mas o sinal de um esforço, de um elo que se robustecia, de um potlach postal onde a generosidade não era palavra vã. Tudo isto desapareceu. Agora valem as "mensagens" de natal, que entopem as caixas de correio electrónico e a memória dos telemóveis. Ao spam das boas práticas comerciais, juntam-se as mensagens individuais de gente pouco recomendável, que assim alivia a sua má consciência. A verdadeira generosidade está ausente, é claro. É que as pessoas já não dialogam. Estamos cada vez mais despojados de tempo para os outros e para nós próprios. Comunicamos cada vez menos. As tecnologias, ao estimularem a preguiça, vieram potenciar o frenesi consumista nas nossas vidas. A realidade dá muito trabalho: visitar os outros, procurá-los nesta quadra propícia, escrever-lhes umas linhas num papel, metê-lo num envelope e depositá-lo numa caixa de correio é quase uma blasfémia. Com os sms e os e-mails vamos dando corda ao vazio, até à queda final.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Vai lá, vai! - 2

Nesta curta digressão, houve tempo ainda para algumas epifanias, como passear em Carnaby Street, por exemplo. Mas sobra ainda um breve episódio. Como já calculava, em Inglaterra lê-se muito. Seja nos jardins, nos autocarros, no comboio, em sítios públicos em geral, quase toda a gente lê um jornal, um livro ou uma revista. Certa vez, na carruagem do metro onde seguia - tentando abstrair dos desesperantes e repetidos avisos "mind the gap", durante as paragens - reparei que todos os passageiros iam a ler. Todos? Não, pois do outro da carruagem provinha um diálogo na língua de Camões. Era um casal jovem que trocava umas impressões acerca de títulos académicos e doutoramentos, na perspectiva dos "esquemas" e expedientes para lá chegar. O contraste desconcertante que a situação evidenciava era por demais sugestivo. Sinalizava o fosso entre a dedicação ao conhecimento, o cultivar da dúvida que se desfaz e refaz, próprio de outras latitudes, e o saber honorífico, a erudição saloia, a ignorância encartada... Bom, eis mais algumas imagens do périplo londrino:




Portobello Market

Vai lá, vai! - 1

Na semana passada andei por Londres durantes alguns dias. Claramente insuficientes para conhecer minimamente a grande metrópole. Mesmo assim, para uma impressão, chegou e bastou. Devo dizer que o tempo ajudou bastante: três dias seguidos de sol em Dezembro na pérfida albion não acontece muitas vezes. É impossível falar de tudo o que me impressionou: se a monumentalidade de certas zonas, se o ambiente de alguns pubs, se as pistas de gelo em Hyde Park e na Somerset House, se a magnífica Tate Modern, se a zona ribeirinha do Southbank, se o bem organizado sistema de transportes, se a estonteante zona em volta de Picadilly Circus à noite, se o excelente, embora pouco conhecido, Museum of London, junto à muralha romana nos limites da City, se a ponte pedonal do Millennium, sobre o Tamisa, entre a catedral de S. Paulo e a Tate, se o imperdível Mercado de Portobello Road. Eis algumas imagens:

St. James Park

Porta mais antiga de Inglaterra (séc. XI), na Adadia de Westminster

Millennium Bridge, com a Tate Modern ao fundo

O Tamisa e o London Eye

Noite azulada


A operação Noite Branca começa a dar alguns frutos. Melhor, deu à costa algum peixe miúdo. A parte imersa do iceberg. De fora ainda está, por enquanto, quem encorajou, beneficiou, ou garantiu a impunidade destes nichos de crime organizado. Já interrogaram o guarda Abel? A ligação de alguns arguidos às claques afectas ao FCP é por demais conhecida. É o reino do "meio", como JPP apelida esta teia de cumplicidades. Atente-se a lista de agressões a jornalistas cometidas por elementos afectos à conhecida agremiação regional. Resta saber qual a dimensão e o alcance da cumplicidade do clube com as redes privadas de segurança de estabelecimentos nocturnos. Ou estão à espera que o cappo di tutti cappi seja julgado primeiro? O mesmo de quem, aliás, Bruno Pidá já foi guarda-costas.