segunda-feira, 12 de novembro de 2007

O que disse?

O projecto da Câmara de Santa Comba-Dão em construir um Museu dedicado a Salazar e um Centro de Estudos do Estado Novo, na sua antiga casa, está de novo na ordem do dia. Recentemente, foi entregue na AR um abaixo-assinado opondo-se à sua construção, pela mão da jurássica União de Resistentes Anti-Fascistas (URAP). Sobre o assunto, já aqui disse o que pensava. Leia-se também o que escreveu JPP sobre esta matéria, com particular incidência no que poderá ou não albergar a memória histórica num espaço museológico ideologicamente aberto. Quero aqui somente destacar as declarações do promotor da petição prestadas à comunicação social. O homem parecia um mestre-escola, agitando uma galeria de fantasmas de outros tempos, apelos de vigilância "às forças da reacção", entre outras delícias, capazes de o entronizar como um autêntico museu vivo. Sem sequer suspeitar que a sua intolerância é exactamente igual àquela que ostraciza.

Como exemplo de como outros povos convivem com a sua memória, dou o seguinte exemplo: durante a adolescência, passei largas temporadas na Bélgica. Num dos muitos passeios que fiz pelo país, visitei o forte de Bredonk, nos arredores de Antuérpia. Tratava-se de um antigo campo de concentração nazi, que fora transformado num local aberto ao público. O que incluia um centro de documentação e um vasto sector do edifício, restaurado e com informação quanto baste. Recordo-me da existência de um painel sonoro junto às celas, onde, em três línguas, se podiam escutar relatos de alguns dos seus antigos ocupantes. E do número considerável de visitantes. Mas sobretudo do silêncio, que evidenciava um respeito profundo, mas nunca solene. E da ausência de qualquer sinal de aproveitamento, de qualquer explicação, que não a evidência da barbárie.

Ódios de estimação - 3

Clara Ferreira Alves é a pitonisa oficial do regime. Destila oráculos atrás de oráculos sobre personalidades públicas, sobre a situação política aquém e além fronteiras, em especial o conflito israelo-palestiniano, sobre grandezas sociológicas e literárias. Clara Ferreira Alves é muito lida. Adora Graham Greene. Viaja bué. Já quis escrever um romance, mas ficou-se como eterna cronista no "Expresso". Onde vai fazendo e desfazendo reputações, tendências, gostos. Distribuindo estrelinhas e fel pela populaça. Não se lhe conhece obra publicada, prosa com fôlego, a não ser uma recolha das suas crónicas ("Pluma Caprichosa", D. Quixote, 2001). Mas fossem vivos Eça e Ramalho, não lhe poupavam umas bandarilhas na sua ilustração de encher o olho. Clara Ferreira Alves é eximia na insinuação de si própria. É a elegível crónica do stablishment, nas várias "situações" em que este se vai travestindo. Uma vez, chegou mesmo à categoria de "santanete" de luxo, em 2004. Na altura, promovida a directora da Casa Fernando Pessoa, aí pôde passear o seu vasto saber e a sua intuição magnânima. Pouco antes, esteve quase quase a aceitar o convite para dirigir o DN. Mas a senhora padece de uma ingratidão desmedida. Agora veio afirmar, acerca do seu ex-protector, que o homem Não estuda, não se prepara, não sabe decidir ("Eixo do Mal", na SIC-N). Na mesma altura em que, adivinhem, irá ser a entrevistadora oficial do compagnon de route Mário Soares, num programa que irá para o ar na RTP. Do you know what I mean? Humm, Humm! Nuts, nuts! Enfim, tudo indica que VPV acertou na mouche, mais uma vez.

Coleccionismo e pechisbeque

Fui ver as novidades no blogue do TMG. Com alguma surpresa, deparei com uma profusão nunca vista de comentários nas caixas respectivas das últimas postagens. Um sinal de que o debate não é letra morta. Todavia, dei conta de que, por vezes, o anonimato revela o melhor e o pior dos seus autores. A ilustrar a segunda hipótese, veja-se este comentário. Como se nota, até os mistificadores não faltaram à chamada, acorrendo entusiasticamente e fazendo uso dos exercícios masturbatórios a que se resume a sua endurance criativa. A prosa mais parece uma paródia a um texto do Rodrigues Migueis ou do Aquilino, um projecto de guião para um filme do Pedro Costa, ou até mesmo um editorial do jornal "A Guarda". Embora o uso indiscriminado da elipse nos transporte até Faulkner. De qualquer modo, este é dos exemplos mais felizes que tenho encontrado daquilo a que José Gil se refere como uma "não inscrição". Isto é, a ambiguidade com origem no pavor visceral que o português tem em querer conhecer as suas limitações. Sentindo-se desconfortável com aquilo que não conhece e indisponível para o que não compreende. Daí até refugiar-se no limbo do descomprometimento, na teia da virtude permanentemente negociada, na retórica estéril, é um passo lógico. Prova disso é que o resultado deste texto assemelha-se a uma colecção de obscuridades, ao produto de um esguicho solipsista. Ao que parece, com recadinhos cirúrgicos pelo meio. Como uma mensagem criptográfica. Haja paciência!

domingo, 11 de novembro de 2007

Momentos Zen - 27

Percorremos o caminho da ignorância e o da iluminação sonhando

Ver anterior

Mailer

Norman Mailer, provavelmente o maior escritor americano da segunda metade do séc. xx, morreu ontem, aos 84 anos. Li há dez anos "Os Nus e os Mortos" e mais recentemente "Os Exércitos da Noite". Sobre este já aqui foi feita uma breve referência. Não se compreenderá nunca a América dos anos 60 sem a leitura desta obra notável. Pondo a questão em termos claros, os bons escritores são para ser lidos. É só isso que esperam de nós. Por essa razão, "O Fantasma de Hitler" e "O Canto do Carrasco" já estão na minha lista de compras. Sobre Mailer, afirmou Gore Vidal, com quem várias vezes polemizou: "Each time he speaks he must become more bold, more loud, put on brighter motley and shake more foolish bells. Yet of all my contemporaries I retain the greatest affection for Norman as a force and as an artist. He is a man whose faults, though many, add to rather than subtract from the sum of his natural achievements.”

sábado, 10 de novembro de 2007

O alvo

"It's not enough that we do our best; sometimes we have to do what's required."

Winston Churchill

Stalker

O dia estava de feição. Botas calçadas e ala que se fez tarde. O objectivo era o percurso Manteigas (Fonte Santa) - Poço do Inferno, pela estrada florestal (12 Km, ida e volta). Mas também preparar-me devidamente para a travessia da Serra da Malcata que se avizinha, organizada pelo Clube de Montanhismo. Nunca pensei que algum dia iria passear na Serra, em meados de Novembro, com manga curta. Será que o Al Gore tem mesmo razão? Eis algumas das imagens registadas.