terça-feira, 8 de maio de 2007

Momentos Zen - 1

Quando compreenderes totalmente uma coisa, compreendes tudo.
Caspar David Friedrich, O monge à beira mar

segunda-feira, 7 de maio de 2007

As cidades perdidas - 3

Em Doroteia, Marco Polo descobre, na voz de um condutor de camelos, que a manhã da liberdade total só é algo na escassa realização do possível.
Em Fedora, Marco Polo descobre para além da cidade real (isto é, a que advém incessantemente e por isso imperfeita), a cidade ideal (isto é, todas as cidades possíveis tornadas impossíveis na escolha). O museu de Fedora é, então, tal como os museus de todas as cidades, o lugar da nostalgia; mas não o lugar das escolhas irreversíveis, como os demais; antes o lugar da nostalgia de um futuro que nunca existirá, dos desejos perdidos por caprichos do destino.
Curiosamente, Marco Polo acaba por compreender (o que revela a Kublai Khan) que ambas as cidades - a real e a ideal - se sustentam: somos quer os desejos frustrados do passado, quer os desejos impossíveis do futuro. E algo entre, talvez.

As cidades perdidas - 2

A verdadeira essência de Anastásia não se encontra na descrição da cidade. A sua descrição é como a imagem do corpo de uma mulher para o adolescente: desperta pequenos desejos logo sufocados pela mão ruinosa sobre uma torre de carne incendiada e vista de longe. (Cristóvão Rilke sabia que a morte encontrada no assalto à torre de nada valeria sem as pétalas em seu peito). Quem pelo contrário está em Anastásia (quem é aquele «homem»: Marco Polo? Italo Calvino?) não possui fantasmas lúbricos, está nela como quem entra numa mulher, como quem desce à terra, ou como quem mergulha na Substância espinosista: «A cidade parece-nos como um todo em que nenhum desejo se perde e de que nós fazemos parte, e como ela goza tudo de que nós não gozamos, só nos resta habitar este desejo e satisfazer-nos com ele». Porém, fazermos parte do todo tem esta consequência: «julgamos gozar por toda a Anastásia enquanto afinal não passamos de seus escravos».

As cidades perdidas - 1

«O desejo é a própria essência do homem», escreve Espinosa na sua Ética. Na cidade de Doroteia, que «terrenos bravios» fizeram desejar, o Marco Polo de Italo Calvino descobre que o desejo é ou fruto de um cálculo cheio como um ovo de esturjão (contemplação interesseira da geografia humana da cidade) ou um rasto cumprido no deserto, muitos anos após conhecer o espaço vazio da sua praça: «Nessa manhã em Doroteia sei que não havia nenhum bem na vida a que eu não pudesse aspirar». Que é como quem diz: nessa praça, um condutor de camelos conheceu a manhã da liberdade, antes da escolha e do cumprimento do desejo.
Mas quem isto ler vê apenas um reflexo de um reflexo da cidade de Doroteia - o que vem a ser precisamente qualquer reflexão. Para a possuir (e perder) será necessário dirigir-se a ela, lê-la; ou inventá-la.

domingo, 6 de maio de 2007

The final cut

Foi aprovada sexta-feira na generalidade a Lei que vem proibir o consumo de tabaco em locais públicos, incluindo estabelecimentos hoteleiros e de diversão. Mais uma machadada contra a liberdade. Agora só falta as brigadas anti-colestrol denunciarem aos costumes um cidadão "apanhado" a comer uma sande de coiratos. E repare-se que - pasmo dos pasmos - a Lei foi aprovada por unanimidade, A Bem da Nação, sem um único voto contra. Já é altura de aprendermos alguma coisa com os americanos. É que lá existem lobbies por tudo e por nada. Até em defesa do tabaco, como a divertida comédia "Thank You For Smoking" bem ilustra. Por cá, meia dúzia de notáveis insurgiram-se contra os perigos desta lei e desta lógica sanitária. E pouco mais. Neste "mais" incluo algumas contundentes postagens que tenho visto na blogosfera e algumas deste vosso criado. Porque é que os fumadores e os amantes da liberdade não pressionaram mais alto?
E pronto. Espero para ver os bares e restaurantes a falir em massa. E meia dúzia de zelotas a esfregarem as mãos.