quinta-feira, 3 de maio de 2007

O momento

Qualquer destino, por longo e complicado que seja, consta na realidade de um único momento: o momento em que o homem sabe para sempre quem é.

Jorge Luis Borges, in "O Aleph"

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Mayday

Chama-se 2007 Mayday. Numa cultura de "valores seguros" e onde o espaço público se reduziu a um epifenómeno, é deveras estimulante ver aparecer esta iniciativa, mobilizadora e interventiva quanto baste. Como já aqui referi, torna-se absolutamente necessário o aparecimento de movimentos sociais criativos, que desdenhem os benefícios difusos e o folclore de um sistema de emprego "trancado". Numa altura em que as oportunidades reais criadas pelo sistema de ensino - que se vangloria de uma escolaridade obrigatória de mãos dadas com a iliteracia - são reduzidas. E em que os sindicatos mantêm o seu autismo, vivendo amarrados a velhas lógicas e ao interesse dos seus filiados, completamente desligados deste "novo protelariado" onde germina a criatividade das grandes lutas do Século XXI. Pois é mesmo disso que se trata.
A propósito, escreveu Gonçalo Reis no último número da revista "Atlântico": Todo o sistema político português - político, económico, social e cultural está desenhado para a vã glória dos instalados. Quem já tem um lugar na carruagem segue viagem, mesmo se em velocidade lenta e sem destino. Mas chegou a hora de incorporar os jovens, os recém-qualificados, os que ambicionam fazer diferente, os outsiders, os que não gozam de privilégios. (...) A resposta convencional do sistema, de todos os governos, tem sido manter este colete de forças, este regime de respeitosa protecção do imobolismo, ao mesmo tempo que, por descargo de consciência, se anunciam permanentemente "políticas para a juventude", Mas esta postura já não passa. Os jovens não querem ajudas laterais, aguardam possibilidades concretas.(...) As gerações emergentes estão ansiosas por rebentar as costuras que toldam a modernidade - a iníqua legislação laboral, as restrições à concorrência, o clientelismo numa administração pública que insiste em não mudar. (...) É por isso que a agenda do futuro caberá não aos que se limitam a proteger, mas aos que apresentarem soluções para libertar a sociedade civil, não aos que teimam em residir num ambiente fechado, intervencionista e burocrata, mas aos que abrirem alas às forças vivas, substituindo a cobertura da velhas benesses pela lógica das oportunidades reais.
Efectivamente, os aparelhos de controle e reprodução dos privilégios, maxime o Estado, os partidos, os sindicatos, continuam a deliquescer e a petrificar-se em simultâneo, continuam numa rota em que uma rigidez histérica serve só para mascarar a vacuidade, o abismo. Portanto, se em vez da mediocridade bem relacionada, for premiado o mérito e a imaginação, à medida que o poder “desaparece”, a nossa vontade de poder deve ser o desaparecimento.

Preces atendidas - 6

Jeanne Moreau
Ver anterior

O encontro

Quando se percorrem países linguísticos, tem-se por vezes a sensação de não se ser mais que uma personagem ou figura absolutamente contingente, virtual, permutável com aquelas que são lidas. Como num leque de espelhos ou universos, em que o passado, o presente e o futuro se confundissem em pura possibilidade.
Assim, enquanto a mula bebe água no riacho, leio a frase de As cidades invisíveis de Italo Calvino: «O homem que cavalga longamente por terrenos bravios sente o desejo de uma cidade» e logo me vejo na garupa do cavalo do porta-estandarte Cristóvão Rilke (antepassado suposto do poeta) cavalgando, cavalgando, cavalgando pela noite, pelo dia, pela noite. Também aqui não há montanhas, apenas uma árvore. Árvore que de noite se incendiou com a mulher que salvei das cordas; no meu peito, «palavras luminosas» trazidas de longe.
Mas porque estou cansado da lucidez da noite e preciso de uma luz mais doce, procuro outra árvore à sombra da qual me recosto. Sou então o Estrangeiro da Anabase de Saint-John Perse, «que passava». Converso com a donzela (nada romântica), que a meu lado se sentou. Coloco-lhe «bagas amargas» sobre as mãos: «Eu vos saúdo, minha filha, sob a maior das árvores do ano». "Nasceu um potro sob as folhas de bronze". Diz ela, ou eu, não sei. Escutamos as folhas que nos escutam: e eis um grande barulhar numa árvore de bronze. A mula afasta-se um pouco. E alguém diz: «Eu vos saúdo, minha filha, sob o mais formoso vestido do ano».

Toca a marchar


Com quatro trajectos alternativos, a PDSSE vai levar a cabo uma caminhada pela Serra. Para mais informações, aceder aqui.

terça-feira, 1 de maio de 2007

Diálogos imaginados


Francis Ponge, Douze petits écrits,

Francis Ponge:
- «O que daria uma destilação do Mundo?», perguntava, maravilhado, um homem, ébrio pela primeira vez.
O que se maravilhou com a frase:
- E o que daria uma destilação franca da Arte?
Francis Ponge:
- Suponha que os pensamentos são balões; o ansioso até nestes se poderá cortar.
O que se maravilhara com a frase, ressacado, ansioso, ressentido:
- Que daria – então – uma destilação de frases como estas, tuas?
Francis Ponge:
- Para compreender, a inteligência tem de se sujar. Antes de tudo, antes até de se sujar, tem de ser ferida.
Com um grande lenho na inteligência provocado por um balão, já sóbrio, o outro:
- O que eu sei é que textos e textos de uvas secam neste momento na videira. O que a minha ignorância me revela é que a leitura que se pratica por aí é um sulfato que se aplica a um fruto que não sofre o esventramento dos dentes, nem a degustação - quanto mais a destilação paciente, constante, o apuro que inebria os gestos e os modifica...
Francis Ponge:
- Os eternos distraídos que se ocupem de distracções...
O outro, já só por brio:
- Não te entristece este entulho todo – a imagem, a aspirina, a cultura – que todo o texto converte em entulho? Não te entristece a inutilidade das tuas frases fulgurantes?
Francis Ponge:
- Sonho cavalar: o cavalo, depois de comer a carroça, contempla o horizonte.
O outro:
- Um demónio te ouça!
Basquiat, Mona Lisa, 1983