quarta-feira, 4 de outubro de 2006

Diário de um tolo - 10

Ser ainda como se já não fosse. Claro. Todavia, cada dia que passa estou mais certo de que cresci, digamos, por distracção. Consentindo que o estado das coisas se transformasse, a pouco e pouco, em estado(s) de alma. E de que, neste ponto, como em quase todos, a vida não permite partidas falsas. Mas sobejou ainda uma tarefa incompleta: como pôr de acordo a arte de viver com a minha forma de viver a arte? Como tornar as razões do êxtase alavancas de salvação (ignorando, para já, as outras, afinal tão aptas como estas)? Ora, como se sabe, a vida não é propriamente linear, mas também não é determinada pelo caos. E se a arte é o que fornece alguma inteligibilidade a esse caos, foi também lá que encontrei algumas pistas. Há mais ou menos dez anos, quando adaptava para teatro "Os Passos em Volta" de Herberto Helder, num poema seu pude ler "pensar com delicadeza, imaginar com ferocidade". Na altura, percebi que o começo da resposta estava aí. Mas faltava a pedra de toque para uma tríade imaginária, faltava o cume onde tudo ardesse. Encontrei-o numa das "Crónicas" de Lobo Antunes, lidas há pouco tempo - "amar com elegância". Et voilá! O puzzle estava agora completo...

Ver anterior

É obra!

Ora diz lá, é verdade que este blogue acabou de atingir os 5000 visitantes?
Não cominto nem desfirmo, mas é capaz de ser.
Houve algum prémio para o quinquilhanésimo incauto?
Sim, um convite para ir ver a exposição das T shirts museológicas do Alves Ambrósio no Paço da Cultura, válido para três pessoas.
Três pessoas?
Sim. Um é para o representante da Taschen em Portugal e o outro para a Margarida Rebelo Pinto.
Porquê?
O primeiro irá entregar uma menção ao A.A. de melhor cliente do hemisfério ocidental. A escritora ir-me-á explicar em detalhe de onde vem a suposta apetência das mulheres modernas por "carninha fresca", segundo a sua última crónica no "SOL". Até pode ser que a "mostra" a inspire para o seu próximo folheto.
Tu és mesmo complicado. Adiante. Que dificuldades tens sentido, agora que já és um bloguista encartado?
Muntas, a bem dezer. Mas nunca hei-se superar o desgosto por a Letícia não me ter comunicado pessoalmente que o nascituro infante burbónico vem a caminho, por supuesto.
E projectos para o futuro?
Olha, tens lume?

terça-feira, 3 de outubro de 2006

Vida e opiniões de um liberal

Muito se tem falado ultimamente na blogosfera acerca de uma das transferências mais "caras" de sempre: PEDRO ARROJA assinou pelos blasfemos. Exactamente. O "think tank" do luso liberalismo mais a norte. É difícil qualificar Arroja. Para alguns terá piada. Para outros não passa de um coleccionador de soundbytes ultraliberais. Há ainda quem o leve a sério. Mais certo será encará-lo como um cromo. Um cromo com tendência para o misreading e que caiu no caldeirão errado quando era pequenino. De vez em quando delira, mostra uma irreprimível propensão para a excentricidade, atingindo um ponto em que a desrazão confina com a poesia. Para degustação, apresento-vos um vintage: a entrevista que lhe fez Fernanda Câncio para a revista "Grande Reportagem" em 1993. Que poderá ser aqui lida na íntegra.
A partir de ontem, o PÚBLICO on line reabriu o acesso gratuito à edição impressa, com excepção das colunas e artigos de opinião. As alterações contemplam igualmente novos serviços para os assinantes e melhorias na pesquisa de textos. Ver aqui notícia completa.
Loomis Dean

segunda-feira, 2 de outubro de 2006

Uma aventura no país do Simplex

Recentemente, chegou-me ao conhecimento mais um caso insólito, demonstrativo de como a Administração Pública lida com os cidadãos. Um amigo meu, desempregado, após consulta das acções de formação disponíveis no IEFP, inscreveu-se num curso intitulado Gestão de Instituições Sociais, destinado a ACTIVOS qualificados, note-se. Passados uns meses, recebeu uma convocatória para se deslocar ao Centro de Emprego da Guarda, referente ao mencionado curso. Pois bem, à hora marcada apresentou-se e, após uma breve apresentação, fez uns testes psicotécnicos. Passados uns dias, foi lá novamente, para uma entrevista que concluía o processo de selecção e entregar uma declaração em falta. Foi-lhe dito que reunia todas as condições para frequentar o curso, que começaria em Outubro. Três dias depois, é informado por telefone que, afinal, já não podia ser admitido, uma vez que, embora dado como desempregado, tinha actividade aberta nas finanças. É claro que o meu amigo ficou estupefacto, pois a sua actividade profissional habitual é residual. Por outro lado, após ter questionado os serviços, foi informado que o curso, embora estivesse previsto na modalidade pós-laboral, tal não fora contemplado para este Centro. Parece mentira, não parece? Gostava então de saber para que é que existe o IEFP? Pelos vistos, em vez de dar conta das condições reais dos utentes que a ele acorrem, faz uso de práticas e de regras absurdas, privando as pessoas que REALMENTE precisam, de se valorizarem para o mercado de trabalho. Que graças a umas habilidades estatísticas, se vai tornando num mero agente de propaganda dos Governos, manipulando os números para parecerem mais pequeninos e cada vez mais próximos da ficção.


Publicado no jornal "O Interior"

A biblioteca de Tamegroute

Os livros são ainda os testemunhos por excelência da memória. Correspondem a uma das poucas características universais, comuns a qualquer cultura: a necessidade de registar os sonhos, os pensamentos, as fantasias. Borges relatou numa das suas obras que o mesmo Imperador que mandou construir a Grande Muralha da China foi o mesmo que mandou destruir todos os livros existentes no Império. Como se, por causa disso, o tempo começasse a correr de novo e a memória se apagasse.
Ora, o encontro, o verdadeiro encontro de civilizações começa por pequenas coisas. Algumas irrisórias. A biblioteca de Tamegroute podia ser um exemplo. Tamegroute é uma pequena aldeia marroquina no sopé do Atlas, rodeada de jardins e de uma terra cor de argila. Mas é sobretudo o local de uma das mais prestigiadas zaouïas de toda a África do Norte.
Fazendo parte do mesmo edifício onde funciona uma confraria religiosa e um centro de estudos teológicos, a biblioteca encerra tesouros imemoriais. Foi fundada por Mohamed Abu Nasr no séc. XVII, a partir de obras adquiridas ao longo das suas várias peregrinações a Meca. Cada uma das suas viagens transformou-se num périplo de vários anos: Egipto, Etiópia, Arábia, Iraque, Síria, Pérsia…
O acervo contempla desde manuscritos com nove séculos, tratados científicos, obras religiosas da idade do ouro do Al Andaluz, exemplares do Corão gravados a ouro, sendo o mais antigo do séc. XIII, iluminuras em pele de gazela e, sobretudo, uma tradução de Pitágoras para árabe, com 600 anos, numa época em que esta ainda era a língua das ciências. Em Tamegroute, os autores persas e gregos repousam em paz. E foi graças às traduções árabes que o seu saber foi transferido para o Ocidente, via Andaluzia, como se sabe. Filosofia, mística, direito e história do mundo muçulmano estão igualmente presentes em abundantes compilações.