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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

BMEL: primeiro balanço

Já está aberta ao público há cerca de três meses. Todavia, só de há uma semana para cá me tornei frequentador assíduo da Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço. Logo no momento da inscrição como leitor, cuidei de tirar a limpo alguns itens que particularmente me interessavam. No desiderato, informaram-me que a livraria municipal ainda não foi transferida para o edifício, como estava projectado. Por outro lado, não está ainda ligada em rede com as bibliotecas das universidades de Coimbra e Salamanca, como tem vindo a ser anunciado. E a cafetaria ainda não está em funcionamento, sem qualquer explicação. Mas há uma situação deveras insólita e que urge denunciar. Os periódicos não estão, regra geral, disponiveis para o público. A razão invocada é que não foram ainda digitalizados. Mas como é tal falha possível? Então não foi para isso, sobretudo, que a Biblioteca Municipal esteve encerrada durante mais de um ano, sem qualquer alternativa para os utilizadores? Disseram-me então que o equipamento existente era insuficiente e que os jornais e revistas tinham sido submetidos a um tratamento de desparasitação. Sabe-se que estes procedimentos são naturalmente morosos e delicados. Mas não houve tempo mais do que suficiente para o processo estar concluído? Se falta equipamento para digitalizar, porque não providenciou a Câmara meios alternativos? Afinal, esse fundo só existe por uma razão: estar à disposição do público em geral, estudiosos e investigadores. Por sinal, a melhor forma de zelar pela conservação dos originais é promover a sua consulta em formato digital. De que é que estão à espera? Por outro lado, é inexplicável a ausência de um website próprio da BMEL. É assim tão difícil? A informação institucional existente resume-se a uma grelha informativa no portal das bibliotecas nacionais e umas fotografias na página oficial da autarquia guardense. Noutra perspectiva, mais imediata, o saldo é francamente positivo: a sala de leitura é magnífica, luminosa, funcional. O acesso à rede wireless não levanta qualquer problema. Os títulos estão dispostos de forma criteriosa e acessível. O atendimento é competente e atencioso. Em resumo, um espaço de eleição, mas ainda muito aquém das suas potencialidades.

segunda-feira, 2 de outubro de 2006

A biblioteca de Tamegroute

Os livros são ainda os testemunhos por excelência da memória. Correspondem a uma das poucas características universais, comuns a qualquer cultura: a necessidade de registar os sonhos, os pensamentos, as fantasias. Borges relatou numa das suas obras que o mesmo Imperador que mandou construir a Grande Muralha da China foi o mesmo que mandou destruir todos os livros existentes no Império. Como se, por causa disso, o tempo começasse a correr de novo e a memória se apagasse.
Ora, o encontro, o verdadeiro encontro de civilizações começa por pequenas coisas. Algumas irrisórias. A biblioteca de Tamegroute podia ser um exemplo. Tamegroute é uma pequena aldeia marroquina no sopé do Atlas, rodeada de jardins e de uma terra cor de argila. Mas é sobretudo o local de uma das mais prestigiadas zaouïas de toda a África do Norte.
Fazendo parte do mesmo edifício onde funciona uma confraria religiosa e um centro de estudos teológicos, a biblioteca encerra tesouros imemoriais. Foi fundada por Mohamed Abu Nasr no séc. XVII, a partir de obras adquiridas ao longo das suas várias peregrinações a Meca. Cada uma das suas viagens transformou-se num périplo de vários anos: Egipto, Etiópia, Arábia, Iraque, Síria, Pérsia…
O acervo contempla desde manuscritos com nove séculos, tratados científicos, obras religiosas da idade do ouro do Al Andaluz, exemplares do Corão gravados a ouro, sendo o mais antigo do séc. XIII, iluminuras em pele de gazela e, sobretudo, uma tradução de Pitágoras para árabe, com 600 anos, numa época em que esta ainda era a língua das ciências. Em Tamegroute, os autores persas e gregos repousam em paz. E foi graças às traduções árabes que o seu saber foi transferido para o Ocidente, via Andaluzia, como se sabe. Filosofia, mística, direito e história do mundo muçulmano estão igualmente presentes em abundantes compilações.