sexta-feira, 18 de agosto de 2006

O regresso do MEC

Boas notícias. O saudoso MEC (Miguel Esteves Cardoso para os distraídos ou para os mais novos) está de volta à blogosfera, depois de ter participado na aventura pioneira do Pastilhas.
É curioso pensar que, sem as suas crónicas no Expresso e depois no "Indy", a minha adolescência prolongada teria sido incomensuravelmente mais pobre: sem os Joy Division, ou a Virginia Astley, só para dar dois exemplos. Poderão encontrá-lo aqui. Corram. Mais palavras para quê?

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Sonho de outra noite de Verão

"O deserto não é a ausência.
É o estado anterior à presença, antes da travessia dos nómadas, antes da paragem dos aventureiros...
Donde vem esta nostalgia que trazemos connosco, que dá por vezes o sentimento de termos perdido a parte de imensidão que é nossa....
Haverá um espaço perdido, que pode ressurgir ao sabor dos nossos confrontos com as imensidões que cruzamos, o céu, os oceanos, os desertos, a noite...
Trará o código genético, além dos testamentos, o vestígio de uma viagem sem limites através dos esconderijos do universo...
Há nestes impulsos misteriosos para espaços infinitos, a marca de um esforço para o reencontro com uma imensidão dantes conhecida e, depois, desaparecida...
A vida seria então a construção de um invólucro que desamarra do mundo uma parcela de infinito, para lhe dar um peso, um lugar, um princípio e um fim.”

Yves Simon, The Wondrous Voyager

Ó pá, também quero!

A consultoria Deloitte concluiu, através de um estudo, que cada empregado municipal falta, em média, um mês de trabalho por ano. O nível médio de absentismo para os 136,5 mil funcionários é de 22 dias úteis. Ver mais
Estou admirado como é que o Doutor Louçã ainda não se lembrou de uma medida deste tipo para combater o desemprego: dois meses de férias. Bastaria que a majoração de três dias, prevista no Código do Trabalho em função da assiduidade, passasse a 22! Resultado: nenhum, como é de calcular. Num país com elevada propensão para o delírio - onde os incêndios se começaram a chamar ignições - não me admiraria.
No referido estudo, não deverão estar contabilizados os magníficos dias de praia, coincidentes com mais umas jornadas de luta contra não se sabe muito bem o quê, promovidas pelas centrais sindicais, de acordo com a misteriosa e geriátrica agenda do Partido Comunista...

Viagens - 3

O cactus San Pedro compreende várias espécies de um género antes chamado Trichocereus e agora foi reunido dentro do género Echinopsis. São pelo menos 3 espécies principais: a E. pachanoi é originária do Equador e norte do Peru, estendendo-se até Huarás e Huánuco; a E. peruvianus começa no departamento de Lima e vai até Cuzco; a E. bridgesii corre ao redor do lago Titicaca e chega a La Paz. No sul da Bolívia e no norte da Argentina há mais umas duas ou três espécies que não se conhecem muito bem. São bastante diferentes entre si: enquanto umas medem de 5 a 6 metros, outras nunca passam de 1,5m; algumas têm troncos de 30 cm de espessura e outras de apenas 7 cm; há espécies com 4, 5 ou até 12 segmentos ou divisões laterais. A quantidade de espinhos também varia muito. Mas todas as espécies contêm o mesmo princípio activo, a mescalina.
O uso do San Pedro provoca a ascensão lenta e perseverante a uma grande montanha solar: os ventos modelam visões sobre as texturas naturais (falésias, blocos de pedra), a terra abre o seu amor pleno e nutriente, convidando à subida, sem esforço, até ao topo onde se respira o céu. O olhar da ave e os passos do felino são oa melhor maneira de conduzir o corpo nessas alturas crescentes. Desde a alvorada ao anoitecer, o San Pedro abre e harmoniza as frequências de um organismo que busca a purificação e a ligação ao sol que sustem este mundo, a origem do fogo vital. Aflora o instinto animal, retido pela contemplação maravilhada das formas. A alma germina em contacto com Gaia (de forma mais terrestre do que a inigualável ayahuasca). As lutas do mundo dos espíritos ou as percepções extáticas atravessam o dia, vertidas em cada brilho, cada gesto.

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quinta-feira, 17 de agosto de 2006

Populismos

Quando se refere a existência de populismos na cultura, colocam-se imediatamente algumas questões prévias, cuja ausência de esclarecimento dificilmente permitirá ir-se mais longe.
Em primeiro lugar, partindo do princípio de que vivemos na sociedade do espectáculo e usando a terminologia de Guy Debord, dir-se-á que o populismo apresenta caractrísticas radicalmente diferentes, consoante o espectáculo fôr concentrado ou difuso. No primeiro caso, refere-se a sociedades fortemente hierarquizadas, onde o mercado é ainda incipiente, ou a regimes autoritários ou totalitários, caso em que a fabricação de uma identidade e de uma estética próprias determina uma concentração de meios e uma visibilidade propagandeada dos resultados sem paralelo. Por outro lado, o espectáculo difuso é próprio das actuais sociedades democráticas onde predomina a economia de mercado. Paradoxalmente, é aí que um pensamento hegemónico e uma formatação da actividade criadora e da fruição da cultura têm melhores condições para triunfar.
Em segundo lugar, há populismos à esquerda e à direita. A forma como se encara a actividade cultural, a identidade e o património tem menos a ver com posicionamentos ideológicos do que com a própria estruturação da personalidade de quem intervem decisivamente neste campo. Se é valorizada a empatia e a defesa da vitalidade interior, a pluralidade efectiva ao nível da produção e oferta ficarão assegurados. Se o poder for ocupado enquanto forma de domínio e o aproveitamento da desresponsabilização de vastas maiorias pelos poderes públicos fôr a tónica, então seguramente o populismo levará dianteira.
Por último, refira-se que há casos de políticas culturais equilibradas e audazes em autarquias por parte de representantes afectos a forças que cobrem todo o espectro político. Assim como o contrário. Ora, em termos de oferta cultural, uma entidade pública tem responsabilidades diversas de uma empresa privada, nomeadamente assegurar a pluralidade e a diversidade. É aí que muitas vezes as câmaras pecam. Quando organizam eventos de massas, não entendo que estejam a manifestar uma determinada preferência ao nível do gosto, mas a promover a sua dissolução, ocupando o seu lugar preocupações exclusivamente eleitoralistas. É a popularidade dos conteúdos que interessa, domesticando-se a vitalidade própria da arte e assegurando o ciclo completo de uma lealdade renovada e estável, à margem de qualquer integração no interior anímico.

Publicado no jornal "O Interior"

quarta-feira, 16 de agosto de 2006

Viagens - 2

A Psychotria viridis (na foto) é um arbusto da selva amazónica que os índios usam na preparação da ayahuasca. Existem cerca de 700 espécies de Psychotria na América, muitas delas frequentes na bacia amazónica. São arbustos ou árvores pequenas de folhas simples, opostas e inteiras. No Peru chamam yajé a uma variedade de Psychotria viridis de 2 a 3 metros de altura, com folhas de 10 a 20 cm de longitude, por 5-7 cm de largura. São lanceoladas ou ovaladas. As flores deste arbusto são pequenas e de cor branca.
Descobriu-se DMT no cérebro humano, pelo que se a sua simples possessão fosse ilegal todos seríamos delinquentes. Mesmo sendo a DMT ilegal, as plantas que a contêm são legais e algumas podem ver-se nos parques e jardins públicos, como varias espécies de Acácia, muito comuns e apreciadas na jardinagem ornamental. Todos os anos descobre-se um novo vegetal que contem dimetil triptamina (DMT), pelo que se torna inútil a erradicação desta substância.
Com o uso da ayahuasca, fala-se da purificação e conexão à fonte regeneradora da saúde, atravessando as profundidades inconscientes até à iluminação que desfaz abismos. É como aprender a nadar com a consciência expandida nos fractais da criação, no tecido pulsante de todas as interacções presentes. Confluem os sinais do corpo, do lugar e das mentes que que vagueiam nesse momento. Um local amplo, à noite, são factores propícios a esta experiência terapêutica e visionária, que se expande a partir da quietude e se articula através do canto, por exemplo. O grande vazio criador mostra as suas energias, a que se pode atribuir vários nomes (Lao Tsé preferiria o de Tao, ou Mãe do Universo). As lutas do mundo dos espíritos, as meditações extáticas povoam a noite, despoletadas por cada som, cada gesto mais longínquo.

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Sonho de outra noite de Verão

Vermeer, Lição de música