terça-feira, 6 de junho de 2006

Todas as boas mentiras começam com a verdade.

segunda-feira, 5 de junho de 2006

Confissões de um cão tolerado pela gerência

Toda a gente achincalhou a iniciativa de Marques Mendes na A.R., propondo a institucionalização do Dia do Cão. Repito, toda a gente. O país anda eufórico. Compreende-se. Eu louvo entusiasticamente a proposta. É um acto de uma suprema dignidade, especialmente num país a crédito, alucinadamente futebolês, corrupto, venal, atrasado, em permanente festividade corporativa, onde a vidinha é que conta, onde a solidariedade é letra morta, onde a grandeza e o mérito são relegados para a gaveta, onde o Estado se intromete descaradamente na vida de de cada um.
Dizem os detractores da iniciativa que ela representa o paradigma de uma sociedade hipócrita que, numa manobra escapista, dá direitos a quem não os pediu e tolhe outros de forma inaceitável. Isso é verdade, mas noutros contextos. É que, esta inflação de direitos esconde uma realidade tenebrosa: nunca a diferença foi tão aterradora como neste período de tolerância, como bem notou Pasolini, afastando ainda mais cada um da possibilidade de, autonomamente, clamar pelos seus direitos.
Esta invocação simbólica - o Dia do Cão- diz respeito à nossa humanidade mais profunda, à capacidade de podermos ainda sentir compaixão pela vida. Toda a vida. Valha então aquele olhar terrivelmente humano do bicho. Que me atravessa até à medula. Que me desperta para qualquer coisa que esqueci ao nascer. Que me coloca num lugar anterior a todos os lugares. Igual aos iguais.

domingo, 4 de junho de 2006

Crimes exemplares -2

Eu tenho dois amores
em nada são iguais.
Não tenho a certeza
De qual eu gosto mais...

Enquanto ela cantava, conseguiu olhar finalmente para o marido, recostado na cadeira da sala de jantar. Tinha a cabeça inclinada para trás, os olhos perdidos no vazio, uma espuma esverdeada a escorrer-lhe da boca. Na mesa, a ressudante mancha de vinho, entornado na toalha por um copo caído no chão, e os restos do jantar interrompido a meio.
"Bah! Nunca fui boa em contas!", ainda pensou, antes de pegar no telefone.

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sábado, 3 de junho de 2006

Ay nós coitados...


A Guarda é uma das cidades portuguesas com melhores condições naturais para ser "vendida" como um sítio apelativo. Pela sua especificidade, pela memória, pelo património natural e edificado, pela posição estratégica, pelas capacidades instaladas, pela condição de finis terra. Matéria consensual, ao que parece.
Recentemente, fiquei a saber que a Câmara Municipal, através da Vereadora do Ambiente - logo colocada em alta na comunicação social local sem se saber muito bem porquê - veio anunciar uma série de intenções avulsas no domínio do marketing, englobadas num programa de promoção turística da cidade.
Após ter colocado um aparelho para surdos e uns óculos para ver em 3D, utensílios que os guardenses costumam envergar quando deparam com, ou ouvem falar um político local - invariavelmente recrutado na III Divisão política e cívica, com algumas excepções, é certo... - percebi que a autarca tinha mandado imprimir umas T Shirts com a célebre cantiga de amigo atribuída a D. Sancho, exaltando os seus amores pela judia Ribeirinha. Fiquei mais descansado. Pensei que a inscrição dizia respeito às inúmeras mulheres desempregadas ou vítimas de maus tratos domésticos que, no concelho, naturalmente vivem "en gran cuidado" pelo seu futuro ou pelo seu benemérito "amigo". Mas, no amor, todos os cuidados são poucos, ou então, deliciosamente risíveis, como se sabe.
A Vereadora, num impulso digno de nota, corre para "vender" a imagem da Guarda ao exterior. Não obstante, antes de qualquer planeamento, antes de qualquer estratégia a seguir, é fundamental que o debate se alargue e nele participem e dêm o seu contributo o maior número de cidadãos, empresas e instituições, guardenses ou não.
Ora, o critério decisivo a preencher nesta questão será o de responder a duas simples perguntas: quais as vantagens comparadas com que a Guarda se pode afirmar junto do público, isto é, que produtos irão integrar a "marca" Guarda? Qual a imagem distintiva que irá dar-lhe visibilidade, poder de atracção? Para responder a essas questões, proponho um exercício prévio. Sem pensarem muito, respondam sem medo e honestamente ao seguinte: o que tem realmente a Guarda para oferecer? Pensem bem antes de responder. Pensem no que vos levaria a deslocar muitos kilómetros para visitar uma cidade em muitos aspectos atrasada e provinciana no pior sentido possível. Pensem bem. Seriam os versos do Rei Povoador? Seria a magnitude incompreendida e ignorada da Sé? Seria uma restauração medíocre, com duas ou três excepções dignas de nota? Seria uma vida nocturna em ascensão, mas com uma oferta pouco segmentada e onde a música difundida é de uma previsibilidade bocejante? Seria a observação in loco do homem beirão, um Sísifo voluntário, como disse Miguel Torga, que ambiciona o poder e o mando, truísmo já assinalado por Gil Vicente - olhai vós bem que este sam eu, diz o Juiz da Beira. Nada de confusões ou familiaridades apressadas, portanto - características temperadas, valha a verdade, por um irredutível desejo de liberdade e sua defesa, ou por uma radical mundividência? Seria um comércio que não se modernizou, desajustado à procura e com preços incrivelmente altos? Seria o apelo da montanha, a piedosa grandeza do granito, a limpidez do ar, um paradigma que já foi medicinal mas que agora poderá ser de um inconformado meneio espiritual, ou de um irrequieta pulsão desportiva? Seria a mais que razoável oferta cultural, no entanto desacompanhada de soluções urbanísticas que a prolonguem e potencializem? Seria para simplesmente ver confirmado o insólito: não existe, numa cidade de montanha, um único circuito pedonal na zona envolvente, ou sequer uma ciclovia, nem uma programação pública e regular de actividades que promovam a ligação e a descoberta do património natural? Seria a crua imagem de uma terra ingrata e austera, quase imóvel, mas onde a naturalidade ainda pesa mais do que o artifício? Seria a louca e pueril persistência dos que decidiram ficar, certificando-se no espelho de que o seu encontro com a cidade não foi uma ilusão, e cuja puerilidade alucinada se transformou numa espécie de mistério, poeira oculta, movimento encerrado num espaço sem tempo?
Tantas perguntas, senhora Vereadora! Que tardam, e non vemos. Mas o seu ar sorridente, televisivo e asséptico, envergando a singular T shirt decerto vendida na inenarrável Loja do Concelho, seguramente já respondeu às minhas. Teme-se o pior.

Publicado no jornal "O Interior"

sexta-feira, 2 de junho de 2006

Lista de tarefas


É preciso correr é preciso ligar é preciso sorrir/é preciso suor/é preciso ser livre é preciso ser fácil é preciso a roda/o fogo de artifício /é preciso o demónio ainda corpulento/é preciso a rosa sob o cavalinho/é preciso o revólver de um só tiro na boca/é preciso o amor de repente de graça/é preciso a relva de bichos ignotos/e o lago é preciso digam que é preciso/é preciso comprar movimentar comércio/é preciso ter feira nas vértebras todas/é preciso o fato é preciso a vida/da mulher cadáver até de manhã/é preciso um riso na boca do pobre/é preciso a máquina a quatro mil vóltios/é preciso a ponte rolante no espaço/é preciso o porco é preciso a valsa/o estrídulo o roxo o palavrão de costas/é preciso uma vista para ver sem perfume/e outra menos vista para olhar em silêncio/é preciso o logro a infância depressa/o peso de um homem é demais aqui/é preciso a faca é preciso o touro/é preciso o miúdo despenhado no túnel/é preciso o braço coberto de espuma/a luz o grito o grande olho gelado/ E é preciso gente para a debandada/é preciso o raio a cabeça o trovão/a rua a memória a panóplia das árvores/é preciso ainda que caias de borco/na cama no choro no rogo na treva/é precisa a treva para ficar um verme/roendo cidades de trapo sem pernas

Mário Cesariny, Manual de Prestidigitação

Nova cara

Caros leitores e leitoras:

Para quem tem visitado com frequência este blogue já se deu conta que, recentemente, sofreu uma profunda reestruturação ao nível gráfico. O que implicou, numa via experimental, o recurso a vários modelos sucessivos, numa lógica de tentativa e erro. Durante este processo, é natural que tenham sentido alguma perplexidade. Mas eis que o barco chegou a bom porto e o que agora vêm é a solução gráfica adoptada. Espero que seja do vosso agrado, tanto como o está a ser para mim.
Para os que só agora chegaram, que sejam bem-vindos.
Obrigado.

quinta-feira, 1 de junho de 2006

Nel mezzo del cammin di nostra vita
Mi ritrovai per una selva oscura
Ché la diritta via era smarita


Dante, Divina Comédia