quinta-feira, 4 de maio de 2006

ORCHATA DE CHUFA

a Garcia Lorca

Descia as serras em Outubro
se a respiração num repente parasse
de mãos estendidas para os olhos.

esquecia o fino azul das manhãs
se presa fácil de uma vertigem:

embriagar de cores meu destino
em cada constelação uma cigana
uma doce cabala de dias férteis
e nuas terras prometidas.

inventaria um estilhaço qualquer
para me ferir nos olhos
e tombar no chão da tribo
no sul nas marés.

faria rodar em mim
ainda o pião ainda a criança
- e mesmo assim percorrer
a fogueira nocturna e nunca
acordar os outros, estes outros.

na geografia simples de um rosto,
como na de um país,
há por vezes uma erosão
que devasta a pele e a pedra,

um sopro de sementes fuzilando os lábios
hasta el corazón del sueño . é

um grito é um beijo. são
mil searas andaluzas
numa lenda de terra queimada.

in "Labirintos"

terça-feira, 2 de maio de 2006

O 1º de Maio

O Dia do Trabalhador é feriado nacional. Tirando esse facto, tornou-se o dia mais cinzento do ano. Veja-se o afã com que os sindicatos repetem de ano para ano, ad nauseum, o mesmo discurso catastrofista e atávico, uma fábula em que os bons e os maus só mudam de nome. Longe vão os tempos das lutas operárias a sério. Mas não é essa memória, nem a grandeza de tantos que nelas participaram, o que se comemora. Não! Até porque a classe operária começa a ser coisa do passado, desmantelada que está a indústria pesada e desaparecidas as grandes concentrações industriais.
A questão é, pois, ver quem fala mais alto contra os "perigos" que espreitam, os previlégios em risco, as "manobras obscuras" que estão prestes a abater-se sobre a "classe trabalhadora" e, sobretudo, o supremo instrumento do mal, o Código do Trabalho. Uma rétorica cheia de tropismos, destinada a assegurar a sobrevivência dos próprios sindicatos, em muitos casos estruturas pesadas e mais preocupadas com a visibilidade das acções que promovem, do que com uma defesa efectiva dos seus associados.
Duas notas, para terminar. Durante dois anos trabalhei intensivamente com o Código do Trabalho, na altura precisamente em que entrou em vigor. Para lá de algumas imprecisões técnico-jurídicas, parece-me ser um óptimo instrumento de desenvolvimento económico, com mecanismos onde certos direitos dos trabalhadores são, até, melhor salvaguardados, para lá das inegáveis vantagens da sistematização.
Por outro lado, durante esse período, estive em contacto directo com o mundo do trabalho, no sector informativo de um serviço público. Posso dizer que, em relação aos trabalhadores, numa percentagem de 80% daqueles que atendi, a sua única preocupação era "fazer contas". Os seus "direitos" resumiam-se a isso: um resultado expresso numa máquina de calcular.

domingo, 30 de abril de 2006


"Estados Alterados" on tour 2006 - Ponte romana sobre o Tejo, Alcântara, Espanha

A prole

O Governo da República está a estudar a forma de extorquir mais umas coroas ao incauto cidadão, antes do período de defeso do Mundial de Futebol, altura em que, podendo, pedirei asilo político num iglo algures no ártico. Desta vez, segundo o jornal "Público" de ontem, vai agravar a taxa social única de 11% para 13% para quem não tiver filhos ou só um, mantendo-se para quem tiver dois e beneficiando de "desconto" quem tiver mais que dois. Estou enternecido. Não há dúvida que o Estado pensa em nós, mesmo enquando concepturos.
Entretanto, vão fechando maternidades por esse país fora. Contraditório? Não. Existe uma explicação para o paradoxo: afim de concretizar o messiânico boom demográfico, vai dinamizar-se a circulação automóvel, com as pessoas a passar a vida entre a sua casa e a maternidade a 100 Kms, aprovisionando as despensas com fraldas, roupa para bebés, chupetas - adivinham-se tendências especulativas com estes artigos - e a aviar os receituários de Viagra, pois que o investimento é capaz de valer a pena. Agora pergunto: e aqueles que não podem (por razões económicas, clínicas, ou religiosas), ou não querem, por opção, obedecer ao célebre comando bíblico da multiplicação, vão ser penalizados por isso? Em que planeta estamos?
Se o Governo quer assegurar a sustentabilidade da Segurança Social, como lhe compete, então recorra a outras medidas, sem pôr em causa as liberdades individuais. Se essas medidas forem tomadas para encorajar o aumento da taxa de natalidade, então que os incentivos funcionem pela positiva - aumento do abono de família e dos períodos de licença de maternidade e de parto, por exemplo - mas nunca por uma penalização discriminatória. Só espero que o Presidente da República requeira a apreciação preventiva da constitucionalidade de qualquer diploma naquele sentido que lhe chegar às mãos.

quinta-feira, 27 de abril de 2006

Hic et nunc (não é Latim, estou com soluços, bolas)

A Senhora Professora Luísa Queirós de Campos, doutorada em Literatura Inglesa e Professora Coordenadora de Literatura Inglesa no Instituto Politécnico da Guarda, acaba de escrever neste jornal (Vd. edição da semana passada) um texto intitulado Usque Quantum, Americe, patientia nostra abutris?
Ora, a Senhora Professora começa por fazer uma minuciosa análise semântica de declarações públicas prestadas pelo director artístico do T.M.G. Demonstra assim uma invulgar sintonia com a recente técnica da vivissecção vocabular, aplicada à crítica literária e popularizada por João Pedro George, no seu livro Não é Fácil Dizer Bem. Que a cultura não precisa da autorização nem do aval dos poderes, estamos todos de acordo. O único senão é que esquece o contexto em que aquele enunciado se produziu. Esquecer o referente não parece ser muito ortodoxo, Senhora Professora!
Mas a Doutora, para além do inusitado e burocrático zelo dispendido com as habilitações escolares do Director Artístico do TMG, nada traz de novo quanto a uma crítica consistente e sustentada sobre as opções de programação do TMG. É que, em 272 actividades desenvolvidas até agora (não contabilizando as que dizem respeito ao Serviço Educativo), a Senhora Professora elegeu, como referência…duas! Será porque só presenciou essas? Porque não quer falar das outras a que assistiu? Porque já viu o mesmo em Itália, Londres ou Nova Iorque? A dúvida subsiste. Mas é muito pouco, e demasiado leviano para ser credível, afirmar que a programação é pouco “popular”, sem apresentar dados, grandezas, informação objectiva, matéria-prima que legitime qualquer tratamento crítico que depois faça.
Por outro lado, enunciar de forma avulsa uma série de nomes de referência da música e do teatro é colocar o problema de forma caricatural, não lhe parece, Senhora Professora? Julga que encenações desses autores e repertório desses compositores andam por aí, a pairar, à espera que um programador detecte o sinal e as traga ao palco? Anda iludida, Senhora Professora! Programar, segundo creio, é antes de mais, saber não ser neutro com o que se escolhe. Mesmo no âmbito daquilo a que se designa serviço público. Diria até que se pode sempre escolher, de entre o que há em determinado momento, de acordo com a natureza da programação que se elegeu (e do orçamento, é claro). Pode-se mesmo, o que é desejável, mobilizar agentes locais e acolher produções originais, a solo ou em regime de parceria (já participei em duas, por sinal). Em contrapartida, quase nunca essas opções se fazem por obras ou autores pré determinados. Pelo menos, neste tipo de instituições.
A Guarda tem ainda alguns trunfos estratégicos que seria insano largar mão, Senhora Professora. Um deles é precisamente o facto de, há duas décadas para cá, ter sabido ganhar e consolidar uma posição de relevo no roteiro cultural nacional, conquistando públicos e o reconhecimento da crítica especializada. Não quer que voltemos atrás, pois não?
Concordo obviamente consigo quando adverte dobre a pluralidade do público. Até iria mais longe: em rigor, o público não existe, mas indivíduos cuja motivação para com as manifestações culturais que frequentam é vivida de modos infinitamente diferentes. Mas se falarmos na relação constante que mantêm com essas manifestações, desde logo se cria uma clivagem fundamental: para alguns, como já escrevi, a cultura é normalmente invocada como um lugar onde se nivelam e apagam as tensões e os desequilíbrios éticos e sociais. Para esses, tudo se esgota na simples presença em dado evento. Para outros, porém, as culturas são expressões de permanente tensão entre as várias representações que vários grupos fazem de si e do outro. A sua expressão pública não é, nem pode ser, pacífica nem ingénua, sendo certo que a imprevisibilidade do resultado será um modo possível da sua manifestação. Para esses, em suma, as opções de vida que tomam raramente são desligadas das opções artísticas que perfilham, sobretudo as que dizem respeito à modernidade.
O T.M.G pode e deve existir para uns e para outros.
A Senhora Professora afirma, por outras palavras, que a programação do Teatro Municipal da Guarda tem sido um regabofe elitista e experimentalista. Onde pretende chegar? Não é que eu acredite, mas será que pretende recolocar o debate em paragens onde ele já esteve – o populismo – só que agora revisto e aumentado com uma retórica esquerdista e atávica?

Texto publicado no jornal "O Interior"

GUARDA, vista de poente

a Andrei Tarkovski
na rota da luz


depressa se arrasta o corpo
até à luz, enquanto se pintam
na estepe os últimos ícones

depressa os dedos alcançam
a margem, enquanto
os barcos inventam outros barcos

é só o tempo de escutar
como as sombras se esvaziam
e te atravessam os lábios
os mais claros objectos
as mais fugazes cintilações.

in "Labirintos"