sexta-feira, 24 de março de 2006

O Teatro da Palavra

Foi ontem apresentada no TMG a peça ORGIA, de Pier Paolo Pasolini, pelos Artistas Unidos. O texto, definido como "um poema a várias vozes", evoca o fim da inocência vivido por um casal, algures num subúrbio de uma grande cidade, por via das suas obsessões eróticas e fetiches vários, que culmina na fuga-suicídio. Aqui, como em toda a obra literária e cinematográfica de Pasolini, descobrem-se as suas constantes reivindicações e gritos de insurgência: o hedonismo contemporâneo como padrão uniformizador e versão soft do totalitarismo, o corpo como ponto de partida de todas as revoluções, a inocência da carne, a nostalgia de um universo camponês, pré-nacional e pré-industrial e que inclui as culturas urbanas subproletárias. Um mundo antigo, em suma, onde a inocência era o maior trunfo erótico e a única condição para a santidade. Veja-se, neste ponto, a inclusão na banda sonora da peça do excerto de uma ária da "Paixão Segundo São Mateus", de Bach.
Em 1974, num ensaio intitulado "Sobre a revolução antropológica em Itália" afirmava Pasolini que "o Poder decidiu que somos todos iguais. A ânsia do consumo é uma ânsia de obediência a uma ordem não enunciada. Nunca a diferença foi tão aterradora como neste período de tolerância." Mais à frente enuncia as duas principais características dessa igualdade: a fossilização verbal (não é por nada que Passolini quis aprender e chegou a escrever no seu dialecto natal do Friuli) e a tristeza, afirmando: "a alegria, quando existe, é sempre exagerada, ostentatória. A tristeza física aqui referida é profundamente neurótica. Ela deriva de uma frustração social, agora que o modelo a seguir já não é o da própria classe, mas o que o Poder impôs, muitos não são capazes de o realizar." A era do vazio? Claro que não. O binário espera-esperança, que move as nossas representações colectivas há uns largos séculos responde por si.

quinta-feira, 23 de março de 2006

A Agenda Cultural da Guarda

Recentemente, a fim de ser divulgado na agenda cultural municipal um evento nesse âmbito em que estou envolvido, forneci ao NAC a respectiva informação em tempo útil, como sempre fiz. Qual não é o meu espanto quando, ao examinar a folhinha minimalista que agora saiu, “fazendo as vezes” da defunta agenda, desse evento, nem sinal. Dirigi-me ao NAC, onde me foi dito que só divulgavam “realizações promovidas pela Câmara” (sic). Não sei se esta história de mau gosto se deve a restrições orçamentais, ou à falta de coordenação entre os serviços desta pesada máquina, que consome recursos avultados, pagos pelos contribuintes, e nem sequer cumpre o seu objectivo mais básico – divulgar as actividades culturais das colectividades e munícipes, limitando-se a propagandear as suas próprias actividades, qual Narciso contemplando o seu rosto no rio Lethes. Uma coisa é certa: vergonhoso!

sexta-feira, 17 de março de 2006

Imagens da Revolução Espanhola (6)



NSATSA

eu sei que a relva é suave
e nos poços há punhais
de mel

eu sei que há um poema selvagem
galopando
no último reduto das coisas

eu sei
do fingimento,
das horas inúteis


na véspera, meu amor,
há sempre lábios sujos
olhos tardios
errando
p’lo vértice da chuva.


in "Labirintos"

terça-feira, 14 de março de 2006


FALTAM 15 DIAS!...

A "caçada" (se é que se pode assim chamar) de focas anual do Canadá é a maior carnificina de mamíferos marinhos do planeta. É também a mais cruel. No fim deste mês, pescadores do Atlântico Norte vão invadir os bancos de gelo para matar focas bebés a tiro e à paulada, apenas para ganharem alguns dólares extra com as suas peles.A maior parte destas focas está indefesa.
O ano passado, 98.5% das focas abatidas tinham dois meses de idade ou menos ainda...Por favor, ajude a acabar com esta barbaridade.O Canadá não necessita deste cartão de visita.Envie uma mensagem ao PM canadiano (click no selo)
E não se esqueça de assinar a petição (na bandeira)!

terça-feira, 7 de março de 2006

A Memória das Coisas - 7

PÊRA DO MOÇO – A Árvore

Não dorme. Com a idade tornou-se igual a um campo onde houve uma batalha, uma batalha ocorrida há séculos, um campo de muitas batalhas. Eis um ser doido. Um ser farol. Um ser mil vezes suprimido. Um ser exilado do fundo do horizonte. Um ser altivo. Um ser como no primeiro dia. Porque és apenas uma semente de uma semente. Outono, terra, água, altura, silêncio prepararam o germe, a farinhenta espessura, as pálpebras maternas que enterradas abrirão novamente para o alto a singela grandeza da folhagem. A sombria teia húmida de novas raízes, as antigas e novas dimensões de outro castanheiro na terra.

quinta-feira, 2 de março de 2006

GYE NYAME

como um desfile de cegos
ao som do alaúde desperto na água tranquila
dos cristais,

assim o dia se estende pela lentidão do ar
que atravessa os muros,
pelas mãos que se despem na neve
- únicos deuses conhecidos

assim o mais leve, o mais límpido rumor
de setembro,
um nome de sangue esquecido nas navalhas,
a respiração das pedras.


como desenhar um bosque de chuva
numa parede de ninguém?

como desenhar um rosto, o meu rosto,
só pelo tempo de os lábios
tecerem o musgo
e as searas fustigarem o leito da luz?


assim um dia meus olhos serão maiores

assim as laranjas se espremem
como seios de rainha

assim a noite se afunda
na palpitação do fogo

O que fazer do meu rosto
- perguntarás-
podia falar-te do mistério dos corvos
em fuga,
quando o gesto das asas parece lembrar
a inquietação desses náufragos
algures entre o sol e o barro.


desvendo antes o segredo
onde eu nascia e somava na pele
os séculos, as frias moradas
daqueles países da ausência,
o incessante respirar,
o retomar do canto.

para vós plantei a aldeia e o trevo,
o talhão de rosas
que arredonda os gestos e os sonhos:

em cada pétala
há um rosto
do teu rosto.


In "Labirintos"