Os teus olhos, rastro de luz dos meus passos;a tua testa, lavrada pelo brilho dos punhais;a tua sobrancelha, orla pelo caminho da tragédia;as tuas pestanas, mensageiros de longas cartas;os teus cabelos, corvos, corvos, corvos;as tuas faces, campos de armas da madrugada;os teus lábios, hóspedes tardios;os teus ombros, estátua do esquecimento;os teus seios, amigos das minhas serpentes;os teus braços, alámos à porta do castelo;as tuas mãos, tábuas de juras mortas;as tuas ancas, pão e esperança;o teu sexo, lei do fogo na floresta;as tuas coxas, asas no abismo;os teus joelhos, máscaras da tua altivez;os teus pés, campos de batalha dos pensamentos;as tuas solas, criptas em chamas;as tuas pegadas, olho da nossa despedida.Paul Celan, in "A morte é uma flor", Cotovia, 1998 (trad. João Barrento)