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terça-feira, 4 de maio de 2010

Lido

À falta de anticlericalismo popular, há agora uma nova forma de anticlericalismo intelectual de parte da esquerda « fracturante ». Enquanto não houver um Papa que seja mulher, lésbica, negra, de preferência não crente, e que vote nos EUA no Obama, os Papas, em particular este, são alvos preferenciais. E este acirra os ânimos de forma muito especial porque é branco, alemão, conservador, teólogo, e conhece bem demais a impregnação da doutrina cristã pelas variantes na moda desde os anos sessenta de « progressismo » esquerdizante.

Pacheco Pereira, no "Abrupto"


quinta-feira, 29 de outubro de 2009

O crime do padre armado

Eis um dos melhores títulos que tenho lido para uma notícia. Ajustado que nem uma luva ao mediático pároco de Boticas. Um verdadeiro personagem camiliano perdido no Norte profundo, como convém. O mesmo que, conta-se, agrediu o sacristão com uma coronhada, durante um funeral, só porque aquele tocou o sino mais cedo. Não se sabe se a vítima ofereceu a outra face nem o que aconteceria se os sinos soassem mais tarde. Entretanto, apesar das evidências criminais contra o prelado e da hostilidade dos paroquianos, o Bispo de Vila Real pretende mantê-lo no cargo. Esperando talvez que descubram mais esqueletos no armário. Ou que uma intervenção divina o absolva...

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

O sofisma como uma das belas-artes

Como já aqui se tinha previsto, o desespero dos defensores do "Não" em trazer novos soundbytes para a discussão pública vai-se tornando mais notório. Agora, não hesitam em recorrer à chantagem, à contabilidade de merceeiro, ao populismo mais rasteiro. Só falta aparecerem os milenaristas para ajudar à festa. A última novidade é o anúncio de um catastrófico aumento dos impostos, se ganhar o "sim". Sobre o tema, leia-se esta excelente desmontagem em "O Cachimbo de Magritte".
Noutro plano, ainda deste mundo, mas já com letra sacada sobre o outro, apareceu ontem o Bispo de Vijeu em homilia televijiva. Soube-se que o prelado descortinou três perguntas numa só: aquela que vai ser submetida à apreciação dos portugueses. Dessas três, jurou a pés juntos que votaria a favor na 1ª - a despenalização da mulher - e contra nas outras duas. Ao princípio, pensei que estaria com problemas de audição: um representante da Igreja Católica vir dizer que despenaliza a mulher é o grande acontecimento desta instituição desde o Concílio de Niceia! Mas o entusiasmo logo arrefeceu, às mãos da real politik. Afinal, este clérigo, em três minutos, conseguiu uma proeza hercúlea: condensar a habilidade, a teologia e a retórica. Senão vejamos: primeiro divide o que é uno (que outra coisa não fez o cristianismo?); acto contínuo, santifica uma parte e demoniza a outra; no final, para compor a contabilidade, concede a parte mais pequena e guarda a maior, numa genial operação aritmética. Desse modo, aquilo que já se defendia e se quer continuar a defender continua intocado, mas dando a ilusão que se "cedeu" em qualquer coisa. Ou seja, é preciso que alguma coisa pareça que mude para que tudo fique na mesma. Brilhante! À atenção de homens de negócios, correctores da Bolsa, políticos em tirocínio e advogados rebarbativos. Entretanto, sua Excelência "despenalizou" as mulheres. O que indicia duas coisas: 1º que as mulheres que sofrem lesões graves por via do aborto clandestino vão começar a aparecer miraculosamente curadas; 2º que o direito penal ainda não é disciplina leccionada nos seminários.

Publicado no jornal "O Interior"

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

O padre incendiário

O pároco de Castelo de Vide, de dedo em riste, anda a distribuir panfletos inflamados pelas suas ovelhas, a propósito do referendo que se avizinha. O mais ousado continha um rol de sanções para os votantes no "sim" e ainda para as mulheres que praticaram ou venham a praticar o aborto. Assim, para os primeiros reserva a excomunhão pura e simples. Com tarifa incluída. Para as madalenas que abortaram, isso constitui pecado mortal, sem apelo nem agravo. Não podendo sequer ser enterradas em solo sagrado. A não ser que mostrem um arrependimento "sincero", acompanhado de várias penitências para ajudar. Aos que se abstiverem estará reservada uma pena mais ligeira. Certo é que, implicitamente, estão a ajudar o "mal". Mas o pecado é simplesmente venial, podendo ser redimido com algumas avé-marias e umas esmolas substanciais. O edictum terribilis é omisso em relação aos putativos pais das crianças. Pois é, o seguro morreu de velho: sabe-se lá se algum deles não se chama Amaro e veste de preto?

Publicado no jornal "O Interior"