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segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Ferida de Outono

Haider morreu e dizem que era homossexual. Também dizem de Hitler mas não dizem de Mussolini, nem de Estaline. Dizem de César. O delfim de Haider no Partido, disse que Haider era o “homem da sua vida” (Lebensmensch) e disse que mantinha uma relação com ele, “para além da amizade”. Antes de sair para morrer, Haider bebeu uns copos num bar “gay” depois morreu com dores horríveis no peito e no tórax, quando o carro capotou.
Pois bem...o mal de eu estar a falar nisto é que estava para começar por dizer aquilo que o bispo de Cantuária disse quando saiu a defender um padre acusado de ser “gay”: “eu próprio nunca soube bem a minha sexualidade, embora, quer os senhores telespectadores acreditem ou não, sempre levei uma vida casta”. Pois bem...o corpo, a alma e a afectividade de um ser humano são moldáveis. Até há quem ache que é normal meter-se sexualmente com meninos e meninas (pode ser na Tailândia), ou até com bébés, quem ache que matar e arrancar órgãos palpitantes ou até beber o sangue dos inimigos, é...não direi normal, mas é “natural”. Há quem diga que a situação faz o comportamento e conclua, que, no fundo, podemos ficar nos braços dum tal Fado, que “é assim”. Enfim, com Haider ou sem Haider, com Hitler ou sem ele, de repente estamos todos a falar daquilo que os mercadores de obscenidades dizem ser um direito do mercado. A confiança é a de que tudo é admissível porque o que é, “é assim”, é Lei. Nisto tudo se perdeu o Amor, o Amor do Coração, que é humilde e tudo suporta, o amor que ficará no fim dos tempos, quando a Fé e a Esperança morrerem. Agora percebo porque é que o baixito e ridículo fascista, Starace, que insistia em fazer crosses pelas ruas de Roma, tomada pelos guerrilheiros comunistas, quando foi preso, lhe perguntaram o que andava a fazer e disse tranquilamente: “Ia tomar um café”. E quando o levaram a reconhecer o corpo espancado do seu camarada Mussolini disse apenas: “ É o meu Duce” (vê-se agora porque é que alguns desesperados escreveram na parede contra a qual foram metralhados: “Dux, mea Lux”). Aos que se entretêm a assassinar Haider, em vez de o vencerem, também digo, de punho bem cerrado: “Vou tomar um café”. E quando o punho cerrado se estender ao sol de mão aberta vejam como um águia, atacada no ninho, levanta as asas.
André

NOTA: Sobre o assunto, ler também aqui.

domingo, 19 de outubro de 2008

Na morte de Jörg Haider

Vi-o de longe, uma vez, e uma outra, ao lado de Riess-Passer, a mulher que governou a Áustria, por vez dele, quando a União Europeia rechaçou o país. Parecia uma ave das montanhas que contempla o caçador antes de ser abatida, ou seja, de cabeça erguida. Tinha o nariz comprido de quem respira longe as mensagens odoríferas de ódio e amor que circulam no vento da estepe, de onde todos europeus, vimos. Era um populista, com orgulho. Era também um liberal, mesmo quando elogiou a política do trabalho de Hitler (certamente que não se referia ao trabalho escravo que a Imprensa se encarregou de extrapolar) ou quando foi a algumas cerimónias de veteranos da Guerra, que, na Áustria, incluíam ex-SS. Começou a sua carreira graças ao amigo/inimigo do socialista Bruno Kreisky, que era o liberal Ferrari-Brunnenfeld, graças a um Professor de Direito muito reaccionário e graças à fortuna do seu pai, que adquiriu muitos bens por um xelim, a um Judeu expulso. Mas nada disto determinou Haider. A verdadeira Democracia não é o argumento da maioria, mas o espaço para a diferença, a individualidade e a incerteza. Ao contrário de Kurt Waldheim, que escondeu o Passado, Haider só tinha futuro. Sempre “Peter Pan”, sempre criança, muito mais humilde e acessível do que se pensa, mas também macaco, fugidio e tenaz como um duende das montanhas. Os austríacos gostavam dele e, ser populista no país de Schubert, Mozart e Maria Theresa, é estar ao nível de um catedrático. Como há muitos mais heróis do que suspeitamos, Haider foi perseguido por toda a gente sem outro refúgio que uns copos numa cervejaria de Outono. Nem todos os heróis se contam entre os vencedores. Um dos mais belos poemas que li foi encontrado no bolso do peito de um pára-quedista alemão caído em combate, certamente com a “Edelweiss” na lapela, e que tem a cor dos regatos puros da montanha. No poema diz-se: “Dá-me Deus tudo o que resta depois de teres dado as certezas. Dá-me o nevoeiro”.

André