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terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Mais fugas

Só conto isto por uma questão de curiosidade. Rigorosamente mais nada. Medalhas, só de latão! Sim, já que os brindes do bolo-rei foram proibidos. Para desgosto das crianças e dos pobres de espírito de todas as categorias. Mas a fava, ao que parece, ainda continua. E sai a cada vez mais portugueses. Porém, a sua existência é para mim um dado puramente empírico, uma vez que não sou grande apreciador daquela especialidade de confeitaria, própria desta época. O caso é que, aposto que ainda ninguém falava no assunto, mas já neste blogue se badalava acerca deste novo paradigma da globalização chamado Wikileaks. Foi aqui e estávamos no distante ano da graça de 2008!...

quarta-feira, 28 de abril de 2010

O Dragão e o Elefante

Lê-se na introdução: "São três mil e quinhentos milhões: São mais jovens, trabalham e estudam mais do que nós. Têm mais poupanças e mais capital para investir. Inúmeros Prémios Nobel. Os seus salários são muitíssimo mais baixos. Têm arsenais nucleares e exércitos de pobres. A China e a Índia não são apenas as duas nações mais populosas do planeta: são o novo centro do mundo." Palavras que revelam o programa da obra. O autor, Federico Rampini, é correspondente do "La Repubblica" em Pequim. Publicou anteriormente "O Século Chinês", um êxito editorial. Conhece pois muito bem o terreno de que nos fala, combinando o método do jornalista e o entusiasmo do narrador. Aqui, o leitor é conduzido numa visita guiada através dos dois países, sendo analisadas as perspectivas de competição e colaboração das duas economias num futuro próximo e os motivos pelos quais a China e a Índia serão responsáveis por 42% do PIB mundial em 2030, deixando para trás os Estados Unidos com 23% e a Europa com apenas 16%. E por detrás dos números, equaciona a complexa realidade que os suporta, socorrendo-se de uma bem documentada análise política e cultural dos dois países, numa perspectiva dinâmica e aberta. Em suma, Rampini revela por que é que a China e a Índia serão no futuro próximo os pesos-pesados da economia global. Sem deixar, porém, de destacar as contradições do regime ditatorial chinês: uma cleptocracia paternalista, em que uma economia de mercado predatória, sem limites, embora sob a tutela do Partido Comunista (cuja nomenclatura se transformou numa ávida classe de empresários), coexiste com a ausência de regras democráticas, de direitos fundamentais e de qualquer modelo de solidariedade social. Onde os custos da perfomance económica passam pelo números do trabalho infantil, pela deslocalização forçada de populações inteiras, pelo pesadelo ambiental - Xangai, Cantão e Pequim, cada uma com cerca de 20 milhões de habitantes, estão envoltas num permanente fumo tóxico, os principais rios são pouco mais que esgotos a céu aberto, com níveis de poluentes químicos assustadores, as condições sanitárias nas áreas populosas são propícias ao desenvolvimento de novas epidemias, etc -, pelas circunstâncias infra-humanas, de quase escravatura, em que vivem e trabalham grande parte dos operários fabris. Os quais chegam aos milhões todos os anos às grandes metrópoles, vindos das zonas rurais. A exploração é comum tanto às unidades mais pequenas (trabalho ao domicílio no ramo das confecções e sapatos) como àquelas de grande dimensão que as multinacionais subcontratam, da Nike à Timberland, da Walt Disney à Puma. Do outro lado, o enorme teste por que passa a maior democracia do planeta, sobretudo depois do episódio do estado de sítio declarado por Indira Gandhi nos anos 70. Ás voltas com níveis de corrupção altíssimos e uma burocracia paralisante.
Algumas curiosidades são relatadas, escolhidas de entre centenas: as autoridades de Nova Deli conseguiram remover as vacas da cidade através de um microchip desenvolvido localmente e implantado nos animais; os números do Instituto Indiano da Ciência, em Bangalore (a Silicon Valey indiana), a mais selectiva das Universidades, de onde saem os investigadores mais procurados pelas multinacionais da informática e da electrónica; porque é que a prevista cotação do iuane - a moeda chinesa, recentemente revalorizada, o que tornou o made in China um pouco mais caro, para alívio da Europa e EUA - pode constituir uma autêntica revolução nos mercados financeiros; as contrapartidas que o Governo chinês impôs à Airbus para firmar o recente contrato de fornecimento de 150 aviões A320; as notas de euro poderão ser impressas na Malásia, porque a empresa holandesa qua ganhou o respectivo concurso aí montou a sua principal unidade de produção. Imprescindível para a compreensão do mundo actual.
Ficha: China e Índia, Federico Rampini, Editorial Presença, Março 2007

domingo, 20 de janeiro de 2008

O fim da ironia

Há dias, no "Combustões":
Com Sir Edmund Hillary, agora levado pela Parca, já poucos heróis trágicos restarão. Que me lembre, Neil Alden Armstrong, com 77 anos, é um sobrevivente dessa raça de gigantes que passou de moda. Os tempos de glória - glória mercenária, glória para marketing - ou vão para os gladiadores dos tempos modernos (os futebolistas, os motoqueiros, os corredores da Fórmula 1) ou para os santos laicos das ditas grandes causas que se profissionalizaram na arte de condoer o coração dos telespectadores. Não os considero, porém, heróis, mas angariadores de pífias cruzadas em que o Zé Ninguém descarrega em outrem a responsabilidade de curar as feridas da consciência colectiva. Os Life Aid, os Médicos disto e daquilo, as ONG's, os profetas do descalabro ambiental, todos eles, são a negação dessa heroicidade que se fazia de rasgos individuais de ousadia extrema. Os horizontes fecharam-se para as grandes aventuras individuais, todo o planeta deixou de ser mistério: há estradas, telefones, internet e hotéis no Tibete e nas estepes da Ásia Central, paquetes de luxo nos mares do Ártico, turismo exótico no Pólo Sul, para ver baleias e focas, Massai de telemóvel em riste no Quénia, heliportos no coração da Amazónia, satélites e GP'S para navegadores solitários perseguidos pela CNN. O mundo perdeu a magia e o feitiço. A geração dos gigantes e dos heróis passou à história...

Acrescento que não é o homem que escolhe o seu destino, mas sim o destino que escolhe o homem. É nesta visão do heroísmo individual que assenta o teatro grego. O profundo significado da tragédia está simplesmente na ironia: ela trata não dos pontos fracos dos protagonistas, mas dos seus méritos. O herói é empurrado sem apelo para a metáfora trágica não pelos seus defeitos mas pelas suas virtudes. Será que já esquecemos este legado fundamental?