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segunda-feira, 21 de abril de 2008

A mentira em edição de luxo

Julgava eu que, do lado dos comunistas, já nada me podia surpreender. Incluindo, sobretudo, a falsificação da História. Eis que deparei, agora mesmo, com algo que supera a mais febril alucinação: o anúncio de uma edição especial do "L' Humanité" - o órgão oficial do PC gaulês, como é sabido - intitulada "Mai 68, le grand tournant" (Maio de 68, a grande viragem). Contem 132 páginas, abundantes declarações de estudantes e assalariados envolvidos, e faz-se acompanhar de um DVD. Repare-se no hirsuto manifestante, quiçá após um tirocínio na Sierra Maestra, tentando assemelhar-se aos seus heróis. Além disso, desfila (bem) acompanhado por uma moçoila que, por contraste, parece saidinha de um filme do Godard. Só falta um "pormenor" nesta imagem antológica: empunhar o protagonista um puro habano, em vez de uma bandeira.
Os comunistas estão na fase de tomar como seus todo o tipo de ícones que sinalizem movimentos sociais e políticos. É um autêntico processo de usurpação. Neste caso, a história é conhecida. O Maio de 68 nasceu em meios estudantis politizados, em grande parte fora dos circuitos marxistas. Pretendia-se uma forma nova de combate político, pela afirmação de uma liberdade integral, da espontaneidade, da imaginação. Os meios sindicais ortodoxos, controlados pelo PCF, cedo perceberam que esta não era a sua luta. Que passava já só pela adesão à sociedade de consumo e nunca por outro tipo de reivindicações. E, naturalmente, só por razões tácticas a elas pareceram aderir. O que quer dizer que, só em meios operários ligados ao anarco-sindicalismo, ou onde a influência dos comunistas era residual, o apoio e a participação nas revoltas teve alguma expressão. No final, conta-se que foram mesmo os comunistas que traíram a "revolução", tudo fazendo para que definhasse um movimento por definição inorgânico, não controlável. Entregando-o aos pés de de Gaulle. Esta estratégia já dera frutos durante a Guerra Civil Espanhola, com a jovem República e, sobretudo, com os anarquistas catalães, repetindo-se aqui. Portanto, esta apropriação de um movimento de contestação sem paralelo no Ocidente é tão incongruente como sinistra. Como se os algozes se quisessem desculpar, tomando como seu o discurso das vítimas. Por outro lado, nos tempos que correm, o comunismo não se poderá descredibilizar unicamente por via política ou doutrinal. Esse trabalho competirá à História e só a ela.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

A balança

Ontem vi parte do debate televisivo que opôs Ségolène Royal e Nicolas Sarkozy, os dois candidatos que vão disputar no domingo a 2ª volta das presidenciais em França. Num contraditório de grande qualidade, os temas discutidos nesse excerto centraram-se em política nacional - saúde, emprego, fiscalidade, segurança social, competitividade e segurança. A candidata socialista pareceu-me muito bem preparada e bastante incisiva. O gaulista jogou mais à defesa. Se o debate fosse disputado aos pontos, diria que houve um empate técnico, uma vez que a solidez argumentativa e o conhecimento das matérias foram repartidos pelos dois de forma equitativa. Algumas notas a registar:
1º ambos evidenciaram um discurso claro e conciso, apoiando sempre a argumentação dispendida em números, na experiência pessoal, ou num programa presidencial preparado até ao ínfimo pormenor. São as figuras de proa de uma renovação geracional e de um modo diferente de estar na política.
2º temas como o SMIC (salário mínimo), reforma antecipada, horas extraordinárias, as 35 horas, número de funcionários públicos, peso da Administração, pleno emprego, integração das minorias, emigração, dominaram essa parte do debate. Royal mostrou-se avessa a grandes mudanças nos direitos sociais e laborais. O seu discurso passou ao lado da moderna social-democracia europeia. Sarkozy deu a entender que não há direitos sem responsabilidades e que certas "conquistas" não podem ser encaradas como dogmas. Em relação à integração das minorias, optou claramente por um modelo anglo-saxónico, em vez do paternalismo assistencialista que tem dominado em França. Por outro lado, num país onde o sector público representa uma parte substancial da economia, que não mostra sinais de crescimento, muita coisa haverá a fazer em relação à competitividade. Em resumo, a primeira quer aperfeiçoar o sistema, de forma um pouco difusa. O segundo torná-lo mais eficaz, em torno de um programa bastante coerente.
3º confesso que, fosse eu cidadão francês, teria muita dificuldade em decidir o meu sentido de voto. Agrada-me a forma corajosa como Sarkozy rompe com certos tabus (para a esquerda). Mas desconfio dos seus métodos. Por outro lado, as preocupações sociais de Royal despertam a minha simpatia. Mas, lá como cá, parecem destinadas mais a tranquilizar aqueles que já beneficiam do sistema. Impedindo que a sociedade gere a sua própria dinâmica. Mas foi sobretudo a intenção desta última em reabrir o processo de aprovação de um novo tratado constitucional europeu maximalista que me fez recuar. Embora desconfie que, na hora da verdade, lhe desse o benefício da dúvida.

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Lido

Vale a pena ver "A grande ilusão francesa", um artigo de Rui Ramos publicado na edição de quarta-feira do jornal "Público". Uma reflexão inquietante sobre glórias passadas de dois países, tendo como pano de fundo as próximas eleições presidenciais em França, erigidas por alguns como uma espécie de referendo europeu. Disponível aqui.

sábado, 20 de janeiro de 2007

Cara ou Coroa?



Ao contrário do que acontece no sistema político português, o desenho dado pela constituição francesa ao poder executivo torna-o claramente bicéfalo (P.R./Primeiro-Ministro). Ou melhor, a dinâmica de poderes criada traduz-se num sistema de geometria variável, onde a primazia presidencial na condução do Executivo está condicionada ao apoio parlamentar. Isto é, à existência ou não de duas maiorias da mesma côr política.
Acaso fosse cidadão da pátria de Montaigne e Victor Hugo, teria sérias dificuldades na escolha do candidato à Presidência, nas eleições que se avizinham. Reduzidas definitivamente a uma corrida entre duas estrelas - Ségolène Royal e Nicolas Sarkozy - tais os sinais contraditórios ou convergentes das propostas e do perfil de ambos, ou as dificuldades na antevisão do que o seu desempenho iria ter no país e na UE. Porquê?
A primeira tem a seu favor o facto de assumir a sua condição de outsider em relação à classe política tradicional. De romper com os tabus dos socialistas, como a intangibilidade do welfare state, o jacobinismo e as jogadas de poder florentinas. No entanto, nota-se um certo populismo reconhecível no seu discurso. Na ânsia de captar simpatias, uma indefinição estratégica em relação à integração europeia e a uma política de defesa comum. O mal estar, a perda de influência, a redefinição do papel do Estado, os anacronismos vividos por uma das grandes nações da Europa, são temas aparentemente ausentes do seu programa.
O segundo, que finalmente viu o caminho desimpedido e sem concorrência na sua área de influência, tem inegáveis qualidades pessoais e políticas. Não é refém do politicamente correcto. Enquanto Ministro do Interior, tomou medidas corajosas, embora impopulares. Assume-se como candidato da ruptura, da inovação, das reformas ao nível da economia e do aparelho produtivo, de uma estratégia europeia para a França, expurgada definitivamente dos fantasmas gaulistas. Segundo deu a entender, rejeita a entrada da Turquia na U.E., em meu entender uma posição bastante sensata. Por outro lado, temo que uma retórica nacionalista apareça, à última da hora, durante a campanha. E que a ruptura com o calculismo e o isolacionismo da direita francesa seja simples táctica eleitoral.