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quinta-feira, 3 de julho de 2008

Locatio

É sempre bom, de vez em quando, alguém me recordar o grau zero do pensamento. Apanágio da uma certa esquerda histriónica e conservadora, que se vai arrastando na ala geriátrica de um subúrbio qualquer. Desta vez, o tema fracturante dessa gente são os senhorios e a sua índole parasitária. O asinino escrevente bem se esforçou por exprimir uma ideia, uma que fosse, para uma discussão séria do tema. Em vão. Lembro então à alimária em epígrafe o seguinte: a esmagadora maioria dos senhorios são pequenos proprietários, que empregaram muitas vezes o produto do trabalho de uma vida inteira num investimento que julgavam seguro: o imobiliário. No entanto, devido ao carácter perpétuo do arrendamento, à impossibilidade de aumentar as rendas, às dificuldades no despejo (agora atenuadas com a nova lei), ao facto de estar ele, um privado, a assumir uma função social (rendas baixas) que deveria ser o Estado a fazê-lo, esse senhorio naturalmente abdicou da realização de obras e de quaisquer melhoramentos na casa. Alguns são mesmo obrigatórios, de acordo com a legislação em vigor. A mesma que impõe obras ao senhorio, dificilmente lhe permite aumentar as rendas. A nova lei foi um flop, pois em vez de incentivar o mercado do arrendamento, retraiu-o ainda mais. E são raros os senhorios que utilizaram o mecanismo dos aumentos, pois já perceberam que os procedimentos de avaliação prévios são uma armadilha para aumentar o IMI. Sei do que falo, por experiência pessoal e profissional.

terça-feira, 18 de março de 2008

Magister dixit

Ontem, na Antena 1, emissão regional de Coimbra, foi entrevistado um Professor daquela Universidade, creio que geógrafo. A tese trazida pelo académico era, basicamente, a refutação da existência de qualquer fenómeno de aquecimento global, devido a causas não naturais. Segundo ele, as estatísticas demonstram que as condições climáticas sofrem alterações cíclicas e relativamente duradouras; que o eixo da Terra não é fixo; que os vikings povoaram a Gronelândia numa altura em que havia ali um clima temperado, após o que tiveram de abandonar o território, devido à chegada de um período de glaciação; que o nível do mar subiu somente 25 cm no último século; que há notícia de as calotes terem derretido em épocas geológicas distantes; que o aquecimento se centra nas cidades, etc. Segundo o eminente professor, podemos estar pois tranquilos. E as imagens dos ursos polares a afogarem-se por falta de gelo, o avanço dramático do mar em certos pontos da costa e os níveis alarmantes de CO 2 na atmosfera? Bah, tudo não passa, segundo ele, de um fait divers de ignorantes para entreter outros ignorantes. Porque o arauto da verdade, de toda a verdade, é ele, a sumidade coimbrã, com aqueles típicos tiques escolásticos que ditam a genuflexão e ordenam a reverência da populaça. Confesso que esta postura, se fica bem no imaginário e na tradição, é irreconciliável com a ciência. Adiante. Sobre esta polémica, gostaria de dizer o seguinte. Não sou cientista nem possuo informações que permitam uma posição consistente. Mas sou por natureza um duvidador metódico. Sei que a existência do aquecimento global não é consensual na comunidade científica. Trata-se de uma hipótese séria e perfilhada, com várias nuances, pela generalidade dos cientistas. Não é ainda uma certeza, mas anda lá perto. Curiosamente, segundo li no Courrier International, praticamente todos os investigadores paladinos do negacionismo são financiados pelas multinacionais a quem o negócio já começou a "correr mal". Precisamente por causa destas "insignificâncias" lançadas pelos ecologistas. Perceberam, ou é preciso fazer um desenho?

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

O cair do pano


Ao contrário dos anos anteriores, a passagem das FARC pela "Festa do Avante" primou pela discrição. Na banca do PC colombiano, vendiam-se uns saquitos de café local, as habituais folhas de propaganda e pouco mais. É claro que a dimensão da campanha que denunciou a presença da organização terrorista intimidou os comunistas, estragando-lhes a sua festa. Mas esse recuo foi logo compensado com um artigo de Albano Nunes, membro do Secretariado e da Comissão Política do PCP, para além de responsável pelas relações internacionais, publicado no "Avante". Às tantas, pode ler-se: "... apesar da violência terrorista da repressão as forças democráticas resistem com grandes acções de massa, obtêm os melhores resultados de sempre nas ultimas eleições, derrotam nas montanhas as sucessivas investidas militares que há 40 anos visam destruir as forças guerrilheiras. E é por isso que, contra a vontade de Uribe e do seu patrão norte-americano, se abre hoje a possibilidade de concretização do «acordo humanitário» proposto pelas FARC de troca de prisioneiros por combatentes presos nos cárceres governamentais." Será que o "acordo humanitário" contempla os deputados assassinados e Ingrid Betancourt, sequestrada há cinco anos? Haverá limites para o discurso esquizofrénico dos comunistas? Pois este texto, meus caros, é um autêntico case study demonstrativo do beco sem saída em que se embrenhou o PCP. A prova definitiva da existência de extra-terrestres, embora não necessariamente de vida inteligente vinda do espaço. Vale a pena lê-lo. Para mim, foi como ir ao dentista, ou à catequese. O melhor é quando se sai.