quarta-feira, 30 de março de 2011

Stalker

De onde?

O que significa "ser" deste ou daquele sítio? Ou melhor, o que significa anunciar urbi et orbi que se é daqui ou de acolá? Antes de mais, convém isolar o enunciado "sou de tal sítio" do contexto onde aparece. O qual só ao autor do enunciado diz respeito. Pois é nessa declaração, e só nela, que vou pegar. Ora, o sentimento de pertença a um grupo, a um território, a uma cultura, a um corpo de representações colectivas comuns é, sem dúvida alguma, um elemento definidor da identidade do sujeito. Onde participam elementos subjectivos e objectivos, é claro. Mas nos quais não me vou agora deter. A existência social dos indivíduos é determinada, segundo Pascoaes, em primeiro lugar pela família a que pertencem, vindo depois a comunidade, associada a um território e, depois, a nação. Abstraindo do fundo de maneio ideológico que subjaz a esta construção, diria que, embora cada um se possa descartar de algumas destas filiações, dificilmente o poderia fazer em relação a todas elas. Centro-me agora na segunda, pois é dela que aqui cuido. O sentimento de pertença a um lugar é um laço identitário tão forte quanto relativo. Uma vez que pode não ser determinado pela naturalidade, mas pelas circunstâncias da existência, pela afinidade, por ser aí que se adquiriu a notoriedade, o conhecimento, a felicidade. Em suma, é um local adoptado que também nos adoptou, o que sinaliza uma verdade que uma ficção administrativa não pode fazer subsistir. Significativamente, na Idade Média e durante o Renascimento, era comum as pessoas serem conhecidas simplesmente por dois nomes: o próprio e o da cidade onde viviam, ou onde se notabilizaram. Erasmo de Roterdão e João de Ruão são só dois exemplos. Tudo isto para chegar onde? É menos importante o local de onde se é do que aquele onde se está. Claro está que, se ambos coincidirem e se para o sujeito essa ligação for importante, nada mais haverá a crescentar. Mas há mesmo. Porque existe uma relação inversamente proporcional entre o local de pertença formal que se invoca e a substância do seu conhecimento. Ou seja, quanto maior a veemência da afirmação do local de onde "somos", menos lá estamos, ou estivemos, efectivamente. Claro que, para muitos, esta questão nem se põe, uma vez que a sua identidade cultural passa por outras representações. Para esses, "ser" e "estar" são realidades simultâneas, nómadas e, porventura, risíveis, quando vistas em conjunto. No meu caso, posso adiantar que, estando fora de Portugal sou português, se isso vier à tona, e estando dentro sou prioritariamente "do mundo". Quando se trata de referir qualidades próprias, ou exemplos particulares, da Guarda. Na cidade, simplesmente "estou". Ou melhor, "vou estando". O que permite ficar dispensado de declarações redundantes e apropriações nefastas. "Tásse"? "Ora bem"!

As munições gastas do gajo

segunda-feira, 28 de março de 2011

O centro

O homem só é verdadeiro quando se julga incógnito. Se tem de representar a sua pessoa, a arte absorve-o e desvia-o do seu próprio ser.

Aforismos, Teixeira de Pascoaes, selecção e organização de Mário Cesariny

sábado, 26 de março de 2011

O assalto

João Gonçalves, autor do "Portugal dos Pequeninos", é uma figura incontornável da blogosfera nacional. Aguerrido, alheio às nebulosas informativas onde pontuam os spin doctors, sem medo de afrontar os poderes e as convenções, sabe desmontar como ninguém os jogos da política lusa e os micro fascismos do politicamente correcto. Visões que, em grande medida, partilho com o autor.  Em Junho de 2009 publicou "Portugal dos Pequeninos". Como o nome indica, trata-se de uma compilação de textos do blogue, um "best of" com a chancela da Bertrand. O livro foi na altura lançado com pompa e circunstância e apresentado por Pacheco Pereira. E eis que, no dia 24 deste mês, foi tornada pública a sua última obra, intitulada "Contra a Literatice e afins", edição "Guerra & Paz". Na cerimónia, a apresentação coube a Pedro Mexia. Ora, do próprio título retira-se o programa desta edição. Sem cerimónia, privilegiando determinadas "figuras, autores e acontecimentos", o autor comenta a obra de algumas "vacas sagradas" da literatura nacional, mais ou menos "light", como  José Rodrigues dos Santos, Margarida Rebelo Pinto, Eduardo Pitta, Maria Filomena Mónica e Miguel Sousa Tavares. E fá-lo fora dos vínculos e das vassalagens feudais que minam a crítica literária em Portugal. Ao estilo do saudoso João Pedro George, que tão bem desmascarou as toupeiras e as coutadas literárias. Neste clip da rubrica "Estante dos Livros", do "DN", veja-se uma breve referência crítica ao livro. O qual se recomenda sem restrições. 

quinta-feira, 24 de março de 2011

Logo à noite


Sim, lá estarei na mesa. Mas lateja-me aquela frase: "hoje há muita gente que escreve poemas, mas escasseiam os poetas". Aparece sempre no meio de um desejo de quietação. De uma responsabilidade que não se pode descartar. De uma oportunidade que a grandeza concede à dúvida. Mas o que estou a dizer? Será assim tão certa a rarefação?  Haverá uma ordem directamente proporcional nesta fatalidade?  Talvez. A dissolução sem medida, ou a clausura ardente não é para todos. Mas não é preciso exagerar. Os poemas desses poetas que não dispensam o estilo ou a feroz candura, como que inoculam uma espécie de dislexia nos seus hospedeiros.  Muito tempo e nenhuma pressa. Fazem devorar a realidade mais depressa do que esta se consegue regenerar. Abrem brechas, túneis e alçapões. Onde a luz nunca se esconde. Os tais poemas  desses tais poetas nunca estão no mesmo local. São poemas portáteis, negociados entre poetas nómadas. A impiedade é a sua  arma de sobrevivência. O seu recesso amoroso.  A sua moeda de troca.  
Mas como chegámos aqui? Amputada do seu berçário imemorial, a cosmogonia, a poesia banalizou-se. Sucumbiu à vertigem da individuação massificada. Abandonou a contenção. Deixou de ter um crivo a separar a escória do minério. Passou a ter boas maneiras. Longe, muito longe, a monitorização do apelo visceral. Adquiriu propriedades ansiolíticas ou euforizantes, para escravos e hibernantes. E o que fazem os escrevinhadores de poemas à poesia? Epitáfios bem intencionados, nada mais. Refinados ou pré-lavados produtos do ócio, da venalidade, da desatenção. Anseios de reconhecimento e, não raras vezes, de simples comiseração.

Jogar à Benfica



Um golo de sonho de Nico Gaitán, a finalizar uma jogada do mais alto nível. Um hino ao futebol, composto por 16 toques! Para ver e rever sempre. O momento foi destaque do jornal desportivo espanhol "Marca". Que afirma ter o Benfica dado "un auténtico festín en su visita a Paços Ferreira. De los cinco goles logrados por los lisboetas destacó el tercero, obra de Nico Gaitán, que culminó una excepcional jugada de equipo, recordando al más puro estilo Barça por los toques de calidad." Notícia e comentários aqui.