sexta-feira, 24 de novembro de 2006

Graffitis - 4

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Dos livros - 1

"Quem me surpreender em flagrante delito de ignorância, não me fará nada de mal, pois não posso responder a outrem pelas minhas opiniões, eu que não o faço a mim mesmo e que não estou satisfeito com elas. Quem estiver em busca de saber, que o pesque onde ele se encontra: não há nada de que menos me gabe. (…) Se sou de alguma leitura, também o sou de nenhuma memória. (…)
Não conto os meus empréstimos, peso-os. Se os tivesse querido fazer valer pelo número, teria carregado o meu livro com o dobro deles. São todos tirados de nomes tão famosos e antigos que me parece que se nomeiam por si sós, sem precisar que eu o faça. Dos raciocínios e das ideias que transplanto para o meu solo, misturando-os com os meus, por vezes omiti o nome do autor, para pôr a brida na temeridade dos juízos precipitados que se emitem acerca de toda a sorte de escritos, nomeadamente dos recentes, de homens ainda vivos, o que permite a toda a gente falar deles e parece denunciar a sua concepção e o seu desígnio como igualmente vulgares. Quero que dêem um piparote no nariz de Plutarco tomando-o pelo meu, e que se escaldem a injuriar Séneca através de mim. Preciso é que eu esconda a minha fraqueza sob essas grandes autoridades. Muito gostaria de quem me soubesse desplumar, se o fizesse pela clarividência do seu juízo e pelo seu discernimento da força e da beleza dos ditos. Pois eu que, por falta de memória, não consigo todas as vezes destrinçá-los quanto à proveniência, sei muito bem que, tendo em conta a medida dos meus limites, o meu solo não é de todo capaz de produzir algumas preciosíssimas flores que por lá acho disseminadas, (…).
Só por duas coisas tenho de responder, caso ocorram: enredar-me; haver nos meus raciocínios vícios que eu não detecte, ou que não possa perceber quando mos mostram. Pois amiúde escapam-nos defeitos ao olhar, mas a doença do juízo consiste em não poder apercebê-los quando no-los revelam. A ciência e a verdade podem-se encontrar em nós sem o juízo, e este sem elas; e é, deveras, o reconhecimento da ignorância uma das mais belas e seguras provas de juízo que se me deparam.
Bem desejaria ter uma mais perfeita inteligência das coisas, porém não a quero adquirir ao caríssimo preço que ela custa. Nos livros busco só o dar-me prazer através de uma decente distracção ou então, se estudo, neles procuro apenas a ciência que trata do conhecimento de mim mesmo e me ensina a bem morrer e a bem viver."

Montaigne, Dos Livros, em Ensaios, Relógio d'Água, 1998

quinta-feira, 23 de novembro de 2006

A resposta

aqui antecipei o que penso acerca do aborto, relativamente ao próximo referendo sobre a IVG. Todavia, se a minha resposta será inequívoca pelo sim, ela não dispensa algumas notas que a sustentem.
Antes de mais, acredito que o corpo é o ponto de partida de todas as revoluções, como bem dizia Pasolini. Todas as linhas de fractura começam aí. Veja-se o episódio (trágico) da "heresia" dos cátaros, por exemplo.
Comecemos pelo aparentemente mais inócuo: se eu quiser fazer-me tatuar de forma bizarra, ou meter piercings por todo o lado, ou se arranjar uma cabeleira roxa, ou se usar roupas que eu próprio desenho e construo, à base de materiais reciclados, ou se decidir participar num espectáculo em que me auto-mutilo, ou se quiser doar em vida alguns órgãos "dispensáveis", que legitimidade tem o Estado, a Moral, ou o que quer que seja, para me censurar? Para além de todas as outras diferenças, há duas coisas que nos distinguem do resto do reino animal: os supremos privilégios de podermos escolher a nossa morte e o de não procriar. Ora, o cristianismo diz-nos "crescei e multiplicai-vos" e que a nossa vida está nas mãos de Deus. Para quem segue pela vida como se o amor ou a arte fossem a única forma de traficar com o desconhecido - o meu caso - estes conceitos são estranhos e incompreensíveis. Alguns exemplos:
  • imagine-se que, de plena consciência, decidia não querer ter filhos. Nesta linha, escolhia viver com quem tivesse tomado essa opção. Agora imagine-se que acontecia um imprevisto, determinado por factores absolutamente acidentais. Quem teria o direito de nos obrigar a ter filhos que não seriam, de todo, desejados?
  • O mesmo se diga no caso de uma mulher a quem o marido, numa noite de violência e bebedeira, acaba por engravidar. Perspectivando-se mais um rebento a juntar a outros sete, dos quais dois já andam a fazer uns "trabalhos"por fora. Quem iria lá dizer-lhe: vá, agora aguenta? É essa a alternativa de quem acha que o útero da mulher deve estar ao serviço de comandos divinos e não da sua liberdade.
  • Por outro lado, sabe-se que os métodos contraceptivos, uns mais que outros, não são 100% eficazes. Mesmo utilizados correctamente, de forma esclarecida e responsável, pode suceder uma gravidez indesejada. Quem teria legitimidade para dizer a uma mulher a quem isso aconteça o que deve ou não fazer?
O Estado - e para isso terá que existir uma Lei que o determine - deve-se limitar a criar condições para que, se for essa a sua vontade, qualquer mulher, independentemente do seu poder económico, possa praticar uma IVG sem riscos para a sua saúde e sem medo da Justiça. É para viabilizar esse cenário que se vai fazer este referendo. Já nem sequer discuto o facto de ao embrião - e não ao feto - ser atribuído o atributo "vida", pois na verdade só mesmo uma interpretação muito extensiva, baseada em conceitos morais, pode responder afirmativamente.
A vida não pode ser referendada, é óbvio que não. O que se vai referendar é o apagamento de qualquer censura penal a um ACTO MÉDICO específico, realizado dentro do período que a lei vier a definir. Que deverá ter um acompanhamento prévio por técnicos especializados, como acontece noutros países,de que o melhor exemplo é a Alemanha. Vai haver mais abortos por causa da sua despenalização? É claro que não! Dizer o contrário é não perceber o que está em jogo para a mulher que o pratica.
Borges dizia que, ou se é platónico ou aristotélico. Para mim, o debate em curso prova isso mesmo.

terça-feira, 21 de novembro de 2006

Espectáculo!



Co-produção TMG e Trigo Limpo Teatro ACERT para a Câmara Municipal da Guarda


DOM 26 e SEG 27 | 21h30 | Grande Auditório do TMG

texto António Godinho, Américo Rodrigues e Honorato Esteves
coordenação geral e dramaturgia
Américo Rodrigues
direcção artística
José Rui Martins
direcção musical
César Prata
direcção técnica
Alberto Lopes
figurinos
José Rosa
cenografia e adereços
Victor Sá Machado


Ver notícia completa no blogue do TMG.

segunda-feira, 20 de novembro de 2006

A quermesse

É comum encontrar na revista Proteste (da DECO) resultados de testes a determinados produtos, bem como reclamações de consumidores, anunciando rotulagem defeituosa. Mas também pode suceder que a imaginação dos fabricantes, uma tradução medíocre, ou o fantasma do Senhor de La Palisse criem a impressão de que alguém se quer rir à nossa custa. Vejamos alguns exemplos:
  • Na embalagem de sabonete Dove: "INDICAÇÕES: UTILIZAR COMO SABONETE NORMAL" (Boa! Cabe a cada um imaginar para que serve um sabonete anormal. Bom, não se ponham a imaginar coisas!)
  • Em alguns pacotes de refeições congeladas Iglo: "SUGESTÃO DE APRESENTAÇÃO: DESCONGELAR PRIMEIRO" (É só sugestão! De repente o pessoal pode estar afim de lambê-la, como se fosse um gelado...)
  • Num hotel que oferecia touca para o duche: "VÁLIDO PARA UMA CABEÇA" (Alguém muito romântico poderia colocar a sua e a da amada na mesma touca...)
  • Na sobremesa Tiramisú da marca Tesco, impresso no lado debaixo da caixa: "NÃO INVERTER A EMBALAGEM" (Oops!!! leu o aviso...é porque já inverteu!)
  • No pudim do Mini Preço: "ATENÇÃO: O PUDIM ESTARÁ QUENTE DEPOIS DE AQUECIDO" (Brilhante!!!)
  • Na embalagem da tábua de passar Rowenta: "NÃO ENGOMAR A ROUPA SOBRE O CORPO" (Gostaria de conhecer a infeliz criatura que deu origem a este aviso)
  • Num medicamento (pediátrico) contra o catarro infantil, da Boots: "NÃO CONDUZA AUTOMÓVEIS NEM MANEJE MAQUINARIA PESADA DEPOIS DE TOMAR ESTE MEDICAMENTO" (Tantos acidentes na construção civil poderiam ser evitados se fosse possível ter esses Hooligans de 4 anos longe dos Catterpillars)
  • Nas pastilhas para dormir da Nytol: "ADVERTÊNCIA: PODE PRODUZIR SONOLÊNCIA" (Pode não, deve!!!! Foi para isso que eu comprei!!!)
  • Numa fileira de luzes de Natal: "USAR APENAS NO INTERIOR OU NO EXTERIOR" Alguém me pode dizer qual é a 3ª opção?)
  • Nos pacotes de amendoim da Matutano: "AVISO: CONTÉM AMENDOINS" (Mania de estragar as surpresas!)
  • Numa serra eléctrica da Husqvarna: "NÃO TENTE DETER A SERRA COM AS MÃOS OU OS GENITAIS" (Sem comentários)

Graffitis - 3


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Diálogos no Olimpo -1

A: as palavras estão gastas... B: q ideia, estão para durar A: n creio! nem a elas mesmas já se referem...B: nunca se referiram. pq agora? A: já tiveram + perto de se referir. A: já nem nos lembramos que elas existem e dizes tu q estão para durar... B: nasceram como metáforas, tudo fazemos para disso nos esquecermos... A: vou tentando n esquecer e já vi que também acreditas nelas. B: mas mesmo q o façamos n há perigo só é preciso saber porquê…A: já falamos n? :) B: acho que sim. A: deve ter sido há muito tempo. B: não foi há tanto tempo assim, o mirc só existe há 6 anos!!! A: ena! fiquei impressionada.. B: então vamos refrescar a memória. sou o Pedro e tu? A: Maria. B: qts braços tens? Lol. A: ena! são 2, chegam n? B: para mortais até chega, mas para tarefas + divinas, é capaz de ser pouco...A: n tenho pretensões míticas, n me inspiram, a ti sim? B: pensei q com esse nick, algum misticismo te inspiraria... mas adiante, és fã dos blogues? A: blogues? Lol n não sou, és um deles? B: ontem criei 1, o endereço é wwww.xisbicodabota.blogspot.com. A: alusivo a q? B: n há um tema mas um mote...sacudir as consciências, podia ser. B: existem alguns bloguistas muito perversos... B: o jargão de discoteca q por aqui prolifera é mais rasca, já ouviste falar nas flash mobs? é um misto de manifestação e performance, combinada por email. As pessoas aparecem e desaparecem e parece que nada aconteceu... A: não, nunca ouvi. mas sabes, existem alguns bloguistas bem intriguistas, n sacodem consciências, mas antes lançam montes de dúvidas e intrigas. B: referes-te ao afamado "muito mentiroso"? A: q achas? B: por enquanto, confio nas instituições q averiguam quem deve ser punido e como...A: tão crédulo, até mete dó! B: mas q há muita podridão escondida, n duvido...A: o pacheco pereira tinha um blog ao q parece desistiu…B: mentira. ainda hoje lá fui. chama-se "abrupto" e por sinal é bem interessante...A: ah, continua?! fui mal informada então. B: aliás, num país onde, ao q parece, só os mortos têm dúvidas, haver alguém q as lance é sinónimo de vitalidade. A: percebo; lançar dúvidas pode ser pertinente, qd n sejam baseadas na intriga. B: qd falo em dúvidas, refiro-me a questionar ideias e projectos, n a colocar em jogo alguém...A: e n achas q muitos bloguistas o fazem? lançam questões ao ar por mera e ingénua consciência? B: a net pode ter efeitos perversos, pela vastidão e anonimato do ciberespaço...mas se há alguém q lança calúnias para o ar, deve pagar, that's all... A: que assim seja, ámen! B: o modelo é sempre o mesmo: milícias de bons costumes, q em vez do linchamento preferem a cobardia na net...mas n tomes o todo pela parte, os blogues são uma excelente ferramenta num mundo onde, ao contrário do q parece, se comunica cada vez menos...:) A: comunica-se cada vez mais, n sei se pelos meios correctos, daqui vou comunicar com o livro de cabeceira. B: n confundas o frenesim comunicacional, a agitação hedonista dos media com a verdadeira comunicação, auto-determinada e livre. ainda estou para saber como me saiu esta, se calhar é por andar a tomar cápsulas de ginseng...lol. A: lolol, continua a tomá-las, nota-se o efeito:)...