terça-feira, 15 de novembro de 2011

O cantil do gajo

Dois pesos, duas medidas (1)

Duas recentes medidas gevernamentais merecem total repúdio. Em comum, têm por trás o Ministro Miguel Relvas,  bombeiro de serviço / eminência parda deste executivo.
A primeira delas foi a extinção liminar da Inspecção-Geral da Administração Local. Trata-se do único órgão com competência fiscalizadora plena das autarquias. Ou como se diz na página respectiva, tem como objecto "o exercício da tutela administrativa e financeira a que se encontram constitucionalmente sujeitas as autarquias locais". A motivação da medida é óbvia. O emagrecimento das transferências financeiras, as restrições ao endividamento das Câmaras, a diminuição de vereadores e a fusão (para já) de Juntas de Freguesia não foram propriamente boas notícias para o Poder Local. Os lobbies respectivos, com o inefável e eterno Ruas à frente, mexeram logo os cordelinhos para suavizar a dieta. Nem que fosse para ocupar os batalhões de funcionários que se passeiam pelos edifícios camarários por esse país fora. Muitos deles recrutados graças a fidelidades partidárias e clientelares. Logo na primeira investida, o Governo cedeu no mais óbvio: ir desencantar receitas extraordinárias. E onde? Ao IMI, naturalmente. O imposto passa agora a ser arrecadado pelas Câmaras. Adivinhem o que veio a seguir. Exactamente. Aumentou a taxa que incide sobre os imóveis actualizados já no próximo ano. De uma assentada, matam-se assim dois coelhos. Ou seja, por um lado, satisfaz-se o apetite voraz das autarquias, em jeito de prémio de consolação. E quem paga a festa? Os proprietários dos imóveis, é claro. Cuja esmagadora maioria é constituída por cidadãos com modesta capacidade económica. E que vêm no escasso rendimento que obtém do património um justo retorno das poupanças que investiram. Muitas vezes fruto de uma vida de trabalho. E que já foram sucessivamente objecto de taxação. Ao agravar a pressão fiscal sobre o património, para satisfazer clientelas autárquicas, o Governo andou pessimamente. Continuando a alimentar os vícios públicos com as virtudes privadas. Por outro lado, com a extinção da IGAL oferece às autarquias o "prémio" da abertura das portas da impunidade e do afrouxamento do escrutínio público. Adivinha-se o regabofe que aí vem. Por sinal, o Presidente do IGAL, juiz-desembargador Orlando dos Santos Nascimento, publicou no site respectivo uma carta com a sua posição, fortemente crítica da extinção do serviço. Pois o Ministro demitiu-o e fechou o site, criando um novo, para que ninguém acedesse à carta. Mesmo assim, mão amiga fez-me chegar o documento. O qual, graças à sua frontalidade e clareza, merece aqui uma leitura atenta.
(continua)

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

A casa (15)

 Imóvel /entre os altos girassóis / és / uma pausa da luz

 O mundo é verdadeiro / Vejo / habito uma transparência

O dia / é uma grande palavra clara / palpitação de vogais

terça-feira, 8 de novembro de 2011

O homem que não viu passar os comboios

Como muitos já descobriram pelos piores motivos, hoje há greve nas empresas públicas de transporte de passageiros e mercadorias. Esta precisão é importante, pois não tenho conhecimento que nas empresas privadas de transporte rodoviário o mesmo tenha acontecido. Desta vez, com a particularidade de, no caso da CP, alguns comboios já terem parado na véspera. Mais uma vez, boa parte do país parou. Sobretudo nas grandes cidades. Isto porque um número considerável dos trabalhadores dessas empresas (com emprego estável e que estão longe de viver na miséria, é bom lembrar), através dos seus "representantes" sindicais, resolver ir prá frente com mais uma "jornada de luta". As razões invocadas são basicamente a reestruturação do sector e o pacote de austeridade da troika. Medidas que a esmagadora maioria do país encara como "males" necessários. Prejudicados? Os mesmo de sempre. Sendo grande parte trabalhadores. Para os quais fazer greve é, precisamente, um luxo... Bom, mas pelo meu lado, não me posso queixar. Em 10 minutos a pé estou onde é preciso na cidade. Enfim, vantagens de viver na província... A juntar ao rol que num destes dias hei-de publicar.

sábado, 5 de novembro de 2011

A silhueta do gajo

Arrumações

que estás aqui a fazer? saí de casa. mudaram de local. as instalações, caros clientes e amigos. para onde para onde? querida, vamos começar a ver casas? essa frase é minha. sou só sem nada, sou só sem nada, tatatararara raran. não é nada filho, não é nada, é só o terror a descer devagarinho, a escorrer pelas paredes. ai, agora temos tudo só para nós. vocês sabem lá! quero chegar depressa, quero chegar depressa, a sede no deserto e tal. afinal o que somos devêmo-lo a isso, à... e também ao... aos... pois. a isso. olha, vamos dormir querida, sim? ao cansaço, sim ao cansaço. e foi a minha vez de fazer uma surpresa. a sério?

A casa (14)

 O poema ainda sem rosto / O bosque ainda sem árvores / Os cantos ainda sem nome

 Mas já a luz irrompe com passos de leopardo

E a palavra levanta-se ondula cai / E é uma longa ferida e um silêncio cristalino