quarta-feira, 18 de agosto de 2010
Lido
Ano sim, ano não, o país arde. Nos anos não, o Ministro da Administração Interna vem dar-nos as boas estatísticas acompanhado pela massa de dirigentes da protecção civil, em ambiente controlado e asséptico, mostrando determinação e gabando-se de que nada ardeu porque o governo fez o que devia. Em ano sim é o caos, umas vezes o Ministro também aparece, mas nem sequer uma parecença de ordem operacional se consegue manter. Nada é mais poderoso do que as imagens dos fogos, do desespero das pessoas, dos bombeiros esgotados, dos comandantes a pedir meios que não vem, dos jornalistas que acham que fazer um relato de um incêndio é aumentar o histerismo colectivo.
Pacheco Pereira, no "Abrupto"
Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos
Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos
detidos: hei-de partir quando as flores chegarem
à sua imagem. Este verão concentrado
em cada espelho. O próprio
movimento o entenebrece. Mas chamejam os lábios
dos animais. Deixarei as constelações panorâmicas destes dias
internos.
Vou morrer assim, arfando
entre o mar fotográfico
e côncavo
e as paredes com as pérolas afundadas. E a lua desencadeia nas grutas
o sangue que se agrava.
Está cheio de candeias, o verão de onde se parte,
ígneo nessa criança
contemplada. Eu abandono estes jardins
ferozes, o génio
que soprou nos estúdios cavados. É a cólera que me leva
aos precipícios de agosto, e a mansidão
traz-me às janelas. São únicas as colinas como o ar
palpitante fechado num espelho. É a estação dos planetas.
Cada dia é um abismo atómico.
E o leite faz-se tenro durante
os eclipses. Bate em mim cada pancada do pedreiro
que talha no calcário a rosa congenital.
A carne, asfixiam-na os astros profundos nos casulos.
O verão é de azulejo.
É em nós que se encurva o nervo do arco
contra a flecha. Deus ataca-me
na candura. Fica, fria,
esta rede de jardins diante dos incêndios. E uma criança
dá a volta à noite, acesa completamente
pelas mãos.
detidos: hei-de partir quando as flores chegarem
à sua imagem. Este verão concentrado
em cada espelho. O próprio
movimento o entenebrece. Mas chamejam os lábios
dos animais. Deixarei as constelações panorâmicas destes dias
internos.
Vou morrer assim, arfando
entre o mar fotográfico
e côncavo
e as paredes com as pérolas afundadas. E a lua desencadeia nas grutas
o sangue que se agrava.
Está cheio de candeias, o verão de onde se parte,
ígneo nessa criança
contemplada. Eu abandono estes jardins
ferozes, o génio
que soprou nos estúdios cavados. É a cólera que me leva
aos precipícios de agosto, e a mansidão
traz-me às janelas. São únicas as colinas como o ar
palpitante fechado num espelho. É a estação dos planetas.
Cada dia é um abismo atómico.
E o leite faz-se tenro durante
os eclipses. Bate em mim cada pancada do pedreiro
que talha no calcário a rosa congenital.
A carne, asfixiam-na os astros profundos nos casulos.
O verão é de azulejo.
É em nós que se encurva o nervo do arco
contra a flecha. Deus ataca-me
na candura. Fica, fria,
esta rede de jardins diante dos incêndios. E uma criança
dá a volta à noite, acesa completamente
pelas mãos.
Herberto Helder, "Cobra", in "Poesia Toda", Assírio & Alvim, 1979
terça-feira, 17 de agosto de 2010
O sétimo dos pecados
Longe vão os tempos das esconsas casa de passe, dos prostíbulos manhosos e até mesmo dos coloridos e aveludados bares de alterne. Assim, quem pretenda andar ao fanico, andar em manobras, andar às gatas, ir ao fado, ir a manos, ou ir para leste, o melhor é recorrer às novas tecnologias. Até aqui, nada de novo, presumo. Mas se for esta a via escolhida, já chateia andar a navegar pelos sites porno e aparecerem invariavelmente umas janelinhas de adware faiscantes. Ornadas com umas beldades ansiosas por um "bate papo com você" no chat online, enquanto meneiam algumas partes suculentas, ou falam mesmo ao telefone na Sala Oval com um desconhecido. Claro que se encontram inevitavelmente nas redondezas da área geográfica do IP utilizado. O engraçado é quando o servidor em causa está localizado numa aldeia recôndita. Ocasião em que 20 ou 30 ninfas locais suspiram pelo incauto na Merdaleja de Baixo! Nunca a máxima dos ecologistas "Pensar globalmente e actuar localmente" soou tão a propósito!
Todavia, para os saudosos da mancebia de antanho, existe uma alternativa de tirar o chapéu. Sendo que até é essa precisamente a peça de vestuário mais usada no assunto em questão. Trata-se da utilização da blogosfera como local de oferta de serviços sexuais. Com efeito, abundam blogues que nada mais são do que agregadores de anúncios até agora só encontrados nos jornais. Como exemplo, até porque diz respeito à cidade onde vivo, apresento-vos o blogue Guarda Erótica. Como subtítulo, aparece "montanhas de prazer". Bem caçado, diga-se de passagem. Nos entrefolhos dessa particular orografia, há de tudo um pouco: quem tenha acabado de chegar com um corpinho de arrasar, uma viúva carente em chama, a carla bumbum guloso, o natural convívio sem pressa, uma colombiana irrestível peluda que adora tudo, a Sandra trintona meiga sensual e tarada, uma espanholada que não se sabe ao certo o que é, presumindo-se que nada tenha a ver com carapaus, alguém com amiga atrás tudinho... Tudo isto com umas fotografias pelo meio, para aguçar o apetite. O site dispõe ainda de uma zona gay e outra para casais. Na primeira, aparece um simples anúncio referente a... um travesti. Na segunda, não prolifera o swing mas outro tipo de práticas, mais do tipo voyerista. Como se nota, nas serranias, mesmo que do prazer, ainda imperam a circunspecção eclesial e as públicas virtudes.
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