terça-feira, 17 de agosto de 2010
O sétimo dos pecados
Longe vão os tempos das esconsas casa de passe, dos prostíbulos manhosos e até mesmo dos coloridos e aveludados bares de alterne. Assim, quem pretenda andar ao fanico, andar em manobras, andar às gatas, ir ao fado, ir a manos, ou ir para leste, o melhor é recorrer às novas tecnologias. Até aqui, nada de novo, presumo. Mas se for esta a via escolhida, já chateia andar a navegar pelos sites porno e aparecerem invariavelmente umas janelinhas de adware faiscantes. Ornadas com umas beldades ansiosas por um "bate papo com você" no chat online, enquanto meneiam algumas partes suculentas, ou falam mesmo ao telefone na Sala Oval com um desconhecido. Claro que se encontram inevitavelmente nas redondezas da área geográfica do IP utilizado. O engraçado é quando o servidor em causa está localizado numa aldeia recôndita. Ocasião em que 20 ou 30 ninfas locais suspiram pelo incauto na Merdaleja de Baixo! Nunca a máxima dos ecologistas "Pensar globalmente e actuar localmente" soou tão a propósito!
Todavia, para os saudosos da mancebia de antanho, existe uma alternativa de tirar o chapéu. Sendo que até é essa precisamente a peça de vestuário mais usada no assunto em questão. Trata-se da utilização da blogosfera como local de oferta de serviços sexuais. Com efeito, abundam blogues que nada mais são do que agregadores de anúncios até agora só encontrados nos jornais. Como exemplo, até porque diz respeito à cidade onde vivo, apresento-vos o blogue Guarda Erótica. Como subtítulo, aparece "montanhas de prazer". Bem caçado, diga-se de passagem. Nos entrefolhos dessa particular orografia, há de tudo um pouco: quem tenha acabado de chegar com um corpinho de arrasar, uma viúva carente em chama, a carla bumbum guloso, o natural convívio sem pressa, uma colombiana irrestível peluda que adora tudo, a Sandra trintona meiga sensual e tarada, uma espanholada que não se sabe ao certo o que é, presumindo-se que nada tenha a ver com carapaus, alguém com amiga atrás tudinho... Tudo isto com umas fotografias pelo meio, para aguçar o apetite. O site dispõe ainda de uma zona gay e outra para casais. Na primeira, aparece um simples anúncio referente a... um travesti. Na segunda, não prolifera o swing mas outro tipo de práticas, mais do tipo voyerista. Como se nota, nas serranias, mesmo que do prazer, ainda imperam a circunspecção eclesial e as públicas virtudes.
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Sobre um Poema
Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.
Herberto Helder
sábado, 14 de agosto de 2010
sábado, 7 de agosto de 2010
O pântano existe mesmo
Em qualquer país do hemisfério ocidental, em circunstâncias idênticas, já o actual Procurador Geral da República se teria demitido. A sucessão de trapalhadas desde que o inquérito do caso "Face Oculta" lhe caiu em cima da secretária, proveniente de Aveiro, em Junho, vão desde a simples incompetência à ignomínia. Passando pela mentira descarada. Como é possível que os principais visados nas escutas então em curso tenham, logo no dia seguinte à recepção dos autos, trocado de cartão telefónico - mencionando expressamente o facto de terem tido conhecimento nessa data que estavam a ser escutados, segundo as conversas divulgadas pelo "Sol" - sem que nenhuma responsabilidade pela fuga de informação tenha sido imputada a Pinto Monteiro? Como se explica que tenha negado sempre que tenha havido pressões do procurador Lopes da Mota para com os investigadores - uma estrela de primeira água da constelação rosa que cintila nas instituições judiciais, onde os favores de ocasião e a produção legislativa encomendada ad personae são a regra (vejam-se algumas alterações constantes da última reforma do Código de Processo Penal, que vieram mesmo a calhar à "Fatinha" de Felgueiras) - mesmo depois de o magistrado ter sido afastado da Direcção do Eurojust, devido à comprovação de essas pressões terem mesmo sido feitas? Como aceitar, por fim, que Pinto Monteiro tenha afirmado por várias vezes aos jornais que Sócrates seria absolvido no caso Freeport? E numa altura em que ainda decorria o inquérito!!! Pressões sobre os magistrados que dirigiam a investigação? Que ideia! O facto de Sócrates não ter sido inquirido no caso, devido à magistrada Cândida Almeida, directora do DCIAP, não ter emitido despacho em tempo útil, é o cúmulo do servilismo. Confesso que, no inicio, a figura me era simpática. Não só por ser originária do distrito da Guarda, mas sobretudo pelo corte que, acreditava eu, representaria com o passado. Mas depois, foi o que se viu. Portanto, só há que dizer: "Demita-se, senhor procurador! Não tem outra saída!"
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