segunda-feira, 12 de abril de 2010

O almoço do gajo

domingo, 11 de abril de 2010

A areia escorre-me

A areia escorre-me por entre os dedos. Caminho pelo crepúsculo, em direcção ao horizonte.
Cada grão de areia está habitado pelo espírito do deserto. Cada poro da minha pele bebe a fria luminosidade das estrelas e o arrepio da noite.
Entre o corpo que se degrada e a morte- a grande morte, a última- deve haver, ou começar, outra coisa. Um lugar qualquer onde possa viver e morrer sem dor. Um lugar feliz.
Pensava eu que a felicidade deveria estar escondida naqueles momentos de perturbação em que me descobria no teu olhar. Enganei-me, passei a vida a enganar-me.
É tarde. Apago-me, vagarosamente.
Deus talvez esteja no fundo do mar, na claridade das águas.
Dentro de mim sinto a melancolia da areia lavada pelo seu movimento invisível, eterno.

Al Berto, O Anjo Mudo

Stalker

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Pensão ideal

Chamam-se cubos e tal!...
Épá, isso é muito caro!
Preferes viver agarrada o resto da tua vida?
E o IMI? E a aceleração das partículas?
Pronto, não quero falar dos meus impostos...
Olha, uma casa prefabricada moderna!!!
Tudo montado!!!
Vejam só! A brochura deles! Dois vidros enormes!... Fogão e tudo!!!

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Stalker

Shatov versus Kirilov

No seu livro "Os Demónios" (ou "Os Possessos", dependendo da tradução), Dostoievski utiliza dois personagens, Kirilov e Shatov, para exprimir a ambivalência da necessidade e importância de Deus.
Kirilov acredita que a vida consiste em dor e sofrimento. Para ele, Deus não existe e, consequentemente, tudo é possível, incluindo o suicídio. Encarado como a expressão máxima da transcendência humana noutra forma, maxime uma existência divina. Observa que a felicidade não tem correspondência com as circunstâncias individuais, mas com um estado de espírito. Nesta linha, se alguém acredita na felicidade, será feliz, e nada haverá que a possa negar. O entendimento de Kirilov acerca de Deus ou da sua falta permite encará-lo como um dos personagens mais carismáticos criados pelo autor russo. Nesta obra, Kirilov surge como uma espécie de figura crística. Planeia matar-se para libertar os outros membros do grupo, perecendo pelos seus pecados. Toma assim em mãos o papel de Cristo, libertando a espécie humana para que todos possam aceder à tal transcendência que os aproximará de Deus.
Shatov, pelo contrário, quer acreditar em Deus, mas pressente que não tem fé. Valoriza a ideia de Deus e toma a religião como um factor essencial para a identidade da nação russa. Mas deu-se conta de que o seu modo de vida e as suas referências não lhe permitem ter fé. Admite a existência de Deus, mas tal postulado, só por si, não atrai a verdadeira fé. Por fim, Dostoievski coloca Shatov num papel trágico: no momento preciso em que se começa a conhecer, desenvolvendo uma convicção religiosa, é assassinado.

Quer Kirilov quer Shatov possuem convicções inabaláveis: o primeiro tem fé mas não acredita em Deus, já o segundo acredita, mas não tem fé.

1º de Abril

Mentira, é tudo mentira.