domingo, 21 de dezembro de 2008
Soltas
Abrimos sempre os convites por recusar, recusando assim a única razão válida para os aceitar. São os jantares em que não se comeu mas se esteve, os filmes que foram vistos sem querer ver, um olhar mais ousado com vontade de mais saber que se rejeita em desvio rápido e frágil, aceitando assim a única razão pela qual não se pode recusar um convite, querer, só.
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
Saatchi
Para encerrar os destaques da mais recente incursão a Londres, falta referir a Saatchi Gallery. Uma instituição já com créditos firmados e que acaba de reabrir junto a Slone Square, em Chelsea. Instalada no palácio do Duque de York, um magnífico espaço rodeado por uma extensa zona verde. A galeria exibe exclusivamente arte contemporânea. Sejam obras de artistas consagrados, quer emergentes. Apresentando-se como um espaço interactivo, mantém ainda uma carteira de artistas escolhidos on line, divulgando as suas obras, entre outras iniciativas. A seguir à Tate Modern, a Saatchi é provavelmente o grande centro de divulgação de arte contemporânea em Londres. Quando lá estive, pude disfrutar a notável e polémica exposição consagrada a um naipe de "novíssimos" artistas chineses, patente até Março. Mais informações, incluindo catálogo, disponíveis na página do site oficial, também em português. O panorama geral prima pelo arrojo, num espaço pensado, pela sua plasticidade e volume, para este tipo de exposições. Destaco as figuras estilizadas de Yue Minjun, o anjo caído de Cang Xin, a provocação política de Shi Xinning, as construções de Shen Shaomin, que utiliza mateiais pouco convencionais, e a a bizarra instalação de Sun Yuan e Peng Yu, "Old Person's Home", o momento iconográfico deste catálogo. Trata-se uma série de cadeiras para deficientes motores, "tripuladas" por figuras representando um conjunto de líderes políticos mundiais em estado de completa senilidade. As cadeiras vão-se movendo aleatoriamente, podendo chocar entre si. Todavia, não embatem nos visitantes que circulam no espaço, pois dispõe de sensores apropriados. Uma curta sequência da instalação poderá ser visionada aqui.
A questão coimbrã
Estou em Coimbra durante toda esta semana. Mesmo sendo verdade, é sempre bom acrescentar, para efeitos narrativos, que o faço por razões profissionais. Mais precisamente, por causa de um programa de implementação do Citius, a nova plataforma informática dos tribunais. Já ouviram falar? Who cares? Ou seja, voltando ao tema quente, "as razões" aparecem como uma designação oficial, que encobre um desígnio intimo: revisitar Coimbra enquanto deambulação pascaliana. Esperando encontrar algumas das criaturas bestiais do reino do fantástico, imaginadas por Borges. Tanto mais que matéria não falta para abrilhantar a festa. Coimbra tem-me acompanhado ao longo dos tempos. Não desconheço que este enunciado tem algo de bíblico, mas o que é que se há-de fazer? Desde um período desmedidamente feliz na infância, a um outro na idade da gaveta, passando por umas deambulações académico-orgiásticas mais à frente, por supuesto. Numa delas, houve um episódio tarantiniano, chamemos-lhe assim provisoriamente. Na República onde pernoitei, salvo erro Bu-falos-bílis, ia no grupo uma norueguesa. Pois a moçoila, ao ver uns pescoços de gansos em cima do frigorífico, depenados no dia anterior, depois de uma surtida por um dos parques da cidade, teve que a modos que um requebro. E caiu redondinha no chão. Precisamente ao lado de um caixão encostado à parede, com uma portinhola de vidro à altura da cabeça do putativo defunto, não vá o diabo tecê-las. E onde os neófitos eram obrigados a dormir na primeira noite. Ainda bem que não viu o clister que corria numa roldana por cima da mesa, normalmente cheio de vinho e por onde os convivas honravam Baco em grupo. Mais tarde houve uma pós-graduação em Direito da Comunicação, aos fins de semana. E uma curta, mas intensa estadia no hospital, após um trágico acidente de carro. Pelo meio, os inevitáveis Encontros de Fotografia, um encontro de grupos de teatro universitário, incursões poéticas avulsas, a espaços, e meia dúzia de encontros amorosos. Ou seja, um ou dois. Espero não me ter esquecido de nada importante. Algumas precauções são agora devidas aos meus queridos leitores. Em primeiro lugar, não me incluo naquele lote de saudosos profissionais que mal ouvem falar da lusa Atenas, começam a falar alto com o olhar perdido, instrumentando na circunstância uma nostalgia a propos, um tique pavloviano dedilhado à guitarra, com uma inscrição gravada num penedo qualquer de um álbum fotográfico cheio de cintilações e ervas daninhas. Por outro lado, sou insuspeito dessa tentação, precisamente porque não fiz "cá" a minha vida académica. Em vez disso, considero-me um amante de longa data, dispensado há muito de senha e contra-senha. E que, sem o peso do saudosismo, pode sempre descobrir novas geometrias na cidade, acrescentar sempre algo de novo ao que se desconhece e não simplesmente compor uma paz interior à custa de um passado mítico. Desta vez, pude admirar de longe a nova face do mosteiro de Santa Clara a Velha, prestes a ser aberto ao público, o arranjo ao longo da zona ribeirinha e até o novo mega espaço comercial. E um bar onde já não ia há muito, a meio do Quebra Costas, com net à borla. Um local feliz onde passam os The Cure em doses generosas e de onde saúdo os leitores. E pronto, estou quase de abalada. Por favor, e não me digam que a hora tem mais encanto...
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
Lido
E se matei a minha sombra algumas vezes
E desviei os olhos do sangue e do silêncio,
É porque vivo, como sabes, entre estes dois gritos,
É porque vivo, como sabes, perto de mim.
E desviei os olhos do sangue e do silêncio,
É porque vivo, como sabes, entre estes dois gritos,
É porque vivo, como sabes, perto de mim.
A. M., no "Imitação dos Dias"
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