domingo, 9 de novembro de 2008

A cegueira

Só um cego não percebeu que o jogo com o Galatasaray proporcionou a pior exibição do Benfica dos últimos tempos. Foi um autêntico banho de bola da equipa turca. Eu nem queria acreditar naquilo. Ao longo do jogo, viu-se claramente que as opções tácticas e o rendimento da equipa foram medíocres. E que, ou Quique Flores altera o esquema de jogo, ou os dissabores mal começaram. E o que faz a blogosfera benfiquista, perguntareis? Pois bem, uns organizam jantaradas monumentais, com imensas palmadinhas nas costas e, com um grão na asa, tiradas fadunchas e lacrimejantes, num meio termo entre as farras descritas em "A Capital" de Eça e um filme português dos anos 30/40. Outros, por sua vez, andam ofegantes em caçadas no Alentejo, depois do tal jantar. Isto cheira-me a seita. Enfiar a cabeça na areia e esperar que as antigas glórias se repitam. Entretanto, não vejo ninguém, a não ser Bruno Carvalho, no "Novo B enfica", de que sou leitor habitual, reflectir seriamente no que está mal no clube e na equipa. Sem esse exercício, isento de desculpas externas, o Benfica tornar-se-á uma banal sucursal de Fátima.

Aviso à navegação

Outro dia perguntaram-me se os textos assinados pelo André neste blogue não seriam uma mistificação da minha parte. Isto é, se não seria um pseudónimo que teria criado para gozar comigo próprio. Sobretudo com o cepticismo e a falta de alma. Uma auto-crítica virtual, em suma. Compreendo o alcance da pergunta. A sua simples evocação faz-me sorrir. De tal forma que não resisti a aqui falar dela. Pois bem, desenganem-se os leitores, mesmo aqueles que, no seu íntimo, deixaram que a mais ténue dúvida tivesse germinado. Para que conste, o autor desses textos é (mesmo) real, um velho amigo. Tão real como a minha limitação em alcançar as paisagens e certa intensidade que ele desenrola tão naturalmente.

sábado, 8 de novembro de 2008

Bora aí!

"Vamos desenhar cogumelos - passeio, almoço e sessão de desenho orientada por Maria Lino". Tal como em anos anteriores, a Associação Luzlinar (Feital, Trancoso) organizou mais uma actividade relacionada com os nossos amigos fungos. Muito em breve darei neste espaço notícia mais desenvolvida do evento. Tal como já aqui fiz no ano passado. Para amostra, aqui ficam dois exemplares recolhidos hoje de manhã. Trata-se de um Amanita muscaria (o tal, esse mesmo) e um Lepista nuda, ou pé azul, ambos do tipo agarical.

Ver anterior

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Vivaci

E no segundo dia da Criação, fui ao Vivaci. Para quem não sabe, o recém-inaugurado mega espaço comercial da Guarda. Antes de qualquer apreciação, é bom começar pelo seguinte: sempre encarei positivamente a existência de um espaço deste tipo na cidade. Por diversas razões: criação de uma nova centralidade, de que o tecido económico pode beneficiar; um novo pólo de atracção para a urbe; um gerador de auto-estima para os guardenses; finalmente, a existência de um espaço polivalente, confortável, prático, seguro, o que pode fazer a diferença numa cidade com um clima tão agreste. Todavia, sempre discordei da sua localização. Uma vez que fica "entalado" numa zona pré edificada, não respira nem deixa que a zona adjacente o faça. Já me disseram que, ao ser construído junto da zona histórica, vai ter um efeito dinamizador, ainda que indirecto, nessa área vital da cidade. Reproduzindo um pouco o que se passou no Chiado. Mas o argumento não convence. Tanto mais que esse efeito só se notará, provavelmente, numa maior afluência aos estabelecimentos de diversão nocturna. A profusão de comércio e restauração de qualidade, que deveriam ser as âncoras da zona histórica, obedece a uma lógica distinta. Neste caso, só aproveitariam um período mais alargado de funcionamento. Ora, voltando às impressões recolhidas na "nova catedral", como diz o Américo Rodrigues: agradou-me o desenho das escadas rolantes, como linhas que se entrecruzam, vistas do andar de cima e reflectidas na cúpula envidraçada; a livraria Bertrand parece ter cumprido os objectivos; os espaços âncora tradicionais estão à altura; não entrei em nenhuma sala de cinema; o parking funciona razoavelmente; o hipermercado, com um traçado incomum, i.é., mais profundo do que largo, surpreendeu-me pela enorme variedade de produtos. Por sua vez, desagradou-me a tacanhez da área da restauração: um espaço reduzido, sem zonas diferenciadas, sem uns ornamentos "verdes", sem aberturas para o exterior. É certo que muitos estabelecimentos ainda não abriram, mas já deu para perceber as enormes limitações do perímetro. Outro aspecto: na saída de cima e até à Porta da Estrela, o caos é permanente e generalizado. Sem um corredor para os peões, com o espaço praticamente ocupado por carros e uma circulação ininterrupta, é penoso atravessar uns simples 200 metros. Para terminar, é desolador assistir à enorme quantidade de espaços comerciais que ainda não abriram as portas. O que acentua a sensação que toma conta do visitante: estar num bunker. Mesmo sabendo que esse receio advem de o centro estar a meio gás, temo que vá para além disso e subsista como uma marca negativa do edifício.

Paperbacks - 8

O binómio

O ambiente é de euforia. Obama será o 44º presidente dos EUA. O manto da unanimidade paira sobre a Terra. Todos descobriram uma razão para festejar a vitória. A maioria porque se trata do primeiro "não branco" a tornar-se o homem mais poderoso do mundo. Claro que o puro acontecimento histórico, jornalistico, cultural, é de peso. Obama será certamente o "Homem do ano" eleito pela "Time". E com toda a justiça, acrescente-se. Pela minha parte, sempre acharei que Hillary teria sido melhor presidente. E não será, muito menos agora, que mudarei de opinião. Mas voltando ao cerne do entusiasmo e do aplauso que acompanhou a eleição, pouco me interessa a cor da pele de Obama. Aliás, isso é precisamente o que menos me interessa. Se for mais sensato, audaz e esclarecido do que o seu antecessor, o que não será difícil, terá o meu aplauso. Todavia, tenho uma profunda desconfiança em relação ao movimento messiânico que a sua campanha criou. Que nada tem a ver com a onda dos Kennedy, que varreu a America nos anos 60. Neste caso, imperava a sede de liberdade, de respeito pelos direitos civis, de políticas sociais consistentes, de um hedonismo inocente e transversal. No caso de Obama, a matriz é religiosa, tribal, criada por um ídolo televisivo que promete esperança e manda esperar. Este binómio espera-esperança é a linguagem algorítmica de todas as religiões. Menos do budismo, claro. Nessa linguagem binária, em vez de 0.1.00. 1.11.0, temos esperança esperança. espera. espera. esperança. espera espera. A receita tem alcançado um imenso êxito ao longo da história, com alguns resultados que se conhecem: guerras, fanatismo, anulação do outro, subalternização da mulher, etc. Claro que também há a sede de justiça, uma espiritualidade profícua, mas essa foi sempre reservada para a nata pitagórica. Acontece que sou um pessimista moderado. Entre outras coisas, acredito que a natureza humana é basicamente determinada pelo poder e pelos genes. E que andamos todos a lutar contra todos, à maneira hobbesiana. Mas essa é a parte bestial. O mais importante, isto é, a dimensão exclusivamente humana, vem depois. A arte e a compaixão são os modos mais óbvios de a abraçar e reinventar, fugindo a um sinistro determinismo. Mas que dispensa, naturalmente, a intervenção de ídolos.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Stalker