quarta-feira, 7 de maio de 2008

Acordo Ortográfico? Não, obrigado! (4)

Mais de 15.000 assinaturas constam do Manifesto/Petição Contra o Acordo Ortográfico, documento que quinta-feira será entregue ao presidente da Assembleia da República, Jaime Gama, por uma delegação dos signatários do documento. Ver aqui notícia completa.

A este propósito, mais uma vez, convém lembrar o óbvio:
1º Esta reforma foi feita ao arrepio da etimologia do português, do seu padrão europeu.
2º Ao contrário das reformas anteriores, nomeadamente a de 1911, feitas a pensar na eliminação de arcaísmos, esta destina-se exclusivamente a adaptar a grafia do português padrão à grafia brasileira.
3º A esmagadora maioria dos especialistas, mesmo que por razões não coincidentes, tem vindo a a recusar este acordo.
4º As alterações propostas têm um impacto real e dramático na vida de toda a gente, uma realidade ignorada pelos promotores do acordo.
4º A míngua de argumentos dos defensores do protocolo degenerou na patética acusação de neo-colonialismo e outras pérolas do politicamente correcto, dirigidas aos que tomaram posição contra o acordo.
5º Esta luta envolve realidades mais profundas do que à partida se julga: é a realpolitik dos que usam a língua como instrumento diplomático e a ligeireza que sempre impuseram na discussão pública do problema. A língua não é propriedade de ninguém, mas uma marca indissociável da nossa história e da nossa cultura.

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Stalker

Momentos Zen - 40

Só encontrará a sua vida aquele que a perdeu.

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terça-feira, 6 de maio de 2008

Estudos para um ódio de estimação perfeito

O arquétipo generosamente esculpido do espertalhaço, que arrecadou uns fundos na formação no "bom tempo", o suburbano da roulotte na Caparica, o tal da sardinha assada, o tal que fala alto na tasca mas baixa as orelhinhas com o Senhor Doutor, o tal que montou uma empresa de sondagens, depois de alguém lhe ter explicado que não eram furos artesianos, o tal que se mexe no "meio" sindical, cujo patois vai soletrando, à mistura com um arremedo de discurso tecnocrático que copiou dos "empresários", que sempre invejou secretamente, o tal que tem um primo no Ministério, o tal que sabe umas coisitas de relações de trabalho, que agitou umas bandeirinhas na era do aquário, o bacano que se vai safando, que manda uns bitaites esclerosados, que defende as suas cores, que exibe uma langue de bois desconcertante... ecce homo!

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Contraponto (5)

Edições Tinta-da-China, 2008
PVP Lojas Fnac: 16.02 €
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A obra recolhe entrevistas a Luiz Pacheco, publicadas entre 1992 e 2008, com introdução e organização de João Pedro George. Foram entrevistadores: Baptista-Bastos, Carlos Quevedo, Cláudia Galhós, João Paulo Cotrim, João Pedro George, Mário Santos, Paula Moura Pinheiro, Pedro Castro, Pedro Dias de Almeida (sim, é mesmo o Pedro da "Visão"!), Ricardo de Araújo Pereira, Ricardo Nabais, Rodrigues da Silva, Rui Zink e Vladimiro Nunes.

O Luiz Pacheco criou uma personagem, contribuiu voluntariamente para levantar uma lenda à sua volta, ou fomos nós que a criámos? As duas coisas. Luiz Pacheco sempre foi um crítico arrojado e um tipo singularmente divertido, um trocista desbragado, com um desplante e uma sem-cerimónia invulgares. Um homem que não levava a sério as regras consuetudinárias nem os convencionalismos da moral. Em suma, alguém que não fazia parte da normalidade social, aquilo que as sociedades consideram um indivíduo «extravagante» ou «excêntrico». Ora bem, por via de regra, todos os grupos humanos têm, sempre tiveram, o seu quinhão de excêntricos, necessitam mesmo deles. O excêntrico é algo que se deve ter, um adorno que fica bem, mais a mais no mundo das artes e das letras, que necessita mostrar a sua diferença relativamente aos outros meios sociais (mais «vulgares»), e cujo prestígio assenta, em grande medida, numa retórica da originalidade e da transgressão. O excêntrico, como no passado os bufões ou os bobos — aqueles que diziam «cousas loucas e cousas acertadas» (Manuel Laranjeira) — é alguém que tem por função divertir, provocar, surpreender, ou seja, aliviar a tensão que nos provocam as exigências dos compromissos sociais.
(ler aqui na íntegra)

do prefácio "Cousas loucas acertadas", por João Pedro George

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sexta-feira, 2 de maio de 2008

Imagens do Maio de 68 - 1


Clamor



Tudo bem ao chamamento
Noite após noite o que dissemos e
O que nunca diremos - a viagem
Com uma giesta de algodão presa nos cabelos e
A sensação fresca de um sulco de aves na pele

Tudo vem ao chamamento- os lobos
Os anões as fadas as putas as bichas e
A redenção dos maus momentos - enquanto te barbeias

Vês no espelho o homem
Cuja solidão atravessou quase cinco décadas e
Está agora ali a olhar-te - queixando-se da tosse
Da dor de dentes e do golpe que a lâmina fez
Num deslize perto da asa do nariz

Não sei quem é - sei porém que vai afogar-se
Naquela superfície clara quando dela se afastar e
Abrir a porta para sair de casa murmurando: tudo
Vem ao chamamento
Por dentro do clamor da noite.

Al Berto