terça-feira, 6 de maio de 2008

Estudos para um ódio de estimação perfeito

O arquétipo generosamente esculpido do espertalhaço, que arrecadou uns fundos na formação no "bom tempo", o suburbano da roulotte na Caparica, o tal da sardinha assada, o tal que fala alto na tasca mas baixa as orelhinhas com o Senhor Doutor, o tal que montou uma empresa de sondagens, depois de alguém lhe ter explicado que não eram furos artesianos, o tal que se mexe no "meio" sindical, cujo patois vai soletrando, à mistura com um arremedo de discurso tecnocrático que copiou dos "empresários", que sempre invejou secretamente, o tal que tem um primo no Ministério, o tal que sabe umas coisitas de relações de trabalho, que agitou umas bandeirinhas na era do aquário, o bacano que se vai safando, que manda uns bitaites esclerosados, que defende as suas cores, que exibe uma langue de bois desconcertante... ecce homo!

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Contraponto (5)

Edições Tinta-da-China, 2008
PVP Lojas Fnac: 16.02 €
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A obra recolhe entrevistas a Luiz Pacheco, publicadas entre 1992 e 2008, com introdução e organização de João Pedro George. Foram entrevistadores: Baptista-Bastos, Carlos Quevedo, Cláudia Galhós, João Paulo Cotrim, João Pedro George, Mário Santos, Paula Moura Pinheiro, Pedro Castro, Pedro Dias de Almeida (sim, é mesmo o Pedro da "Visão"!), Ricardo de Araújo Pereira, Ricardo Nabais, Rodrigues da Silva, Rui Zink e Vladimiro Nunes.

O Luiz Pacheco criou uma personagem, contribuiu voluntariamente para levantar uma lenda à sua volta, ou fomos nós que a criámos? As duas coisas. Luiz Pacheco sempre foi um crítico arrojado e um tipo singularmente divertido, um trocista desbragado, com um desplante e uma sem-cerimónia invulgares. Um homem que não levava a sério as regras consuetudinárias nem os convencionalismos da moral. Em suma, alguém que não fazia parte da normalidade social, aquilo que as sociedades consideram um indivíduo «extravagante» ou «excêntrico». Ora bem, por via de regra, todos os grupos humanos têm, sempre tiveram, o seu quinhão de excêntricos, necessitam mesmo deles. O excêntrico é algo que se deve ter, um adorno que fica bem, mais a mais no mundo das artes e das letras, que necessita mostrar a sua diferença relativamente aos outros meios sociais (mais «vulgares»), e cujo prestígio assenta, em grande medida, numa retórica da originalidade e da transgressão. O excêntrico, como no passado os bufões ou os bobos — aqueles que diziam «cousas loucas e cousas acertadas» (Manuel Laranjeira) — é alguém que tem por função divertir, provocar, surpreender, ou seja, aliviar a tensão que nos provocam as exigências dos compromissos sociais.
(ler aqui na íntegra)

do prefácio "Cousas loucas acertadas", por João Pedro George

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sexta-feira, 2 de maio de 2008

Imagens do Maio de 68 - 1


Clamor



Tudo bem ao chamamento
Noite após noite o que dissemos e
O que nunca diremos - a viagem
Com uma giesta de algodão presa nos cabelos e
A sensação fresca de um sulco de aves na pele

Tudo vem ao chamamento- os lobos
Os anões as fadas as putas as bichas e
A redenção dos maus momentos - enquanto te barbeias

Vês no espelho o homem
Cuja solidão atravessou quase cinco décadas e
Está agora ali a olhar-te - queixando-se da tosse
Da dor de dentes e do golpe que a lâmina fez
Num deslize perto da asa do nariz

Não sei quem é - sei porém que vai afogar-se
Naquela superfície clara quando dela se afastar e
Abrir a porta para sair de casa murmurando: tudo
Vem ao chamamento
Por dentro do clamor da noite.

Al Berto

A nova "Ler"

Depois de um interregno de um ano e meio, a revista Ler voltou às bancas, em grande estilo. Dirigida, desta feita, por Francisco José Viegas, que assim retoma funções que já desempenhou entre 1989 e 2000. A publicação aparece com novo arranjo gráfico, novos colaboradores permanentes e com periodicidade mensal. Neste número, destaque para uma extensa entrevista ao maior escritor português vivo, António Lobo Antunes, conduzida por Carlos Vaz Marques; uma compilação dos "50 autores mais influentes do séc. XX", por José Mário Silva, que já conhecia enquanto autor do incontornável blogue "Bibliotecário de Babel"; um artigo sobre Eduardo Lourenço, por Miguel Real; uma excelente crónica de Eduardo Pitta; o regresso de Fernando Sobral, meu ex-colega na Universidade e uma selecção de propostas editoriais criteriosa, incluindo a publicação dos respectivos excertos. Razões mais do que suficientes para seguir com atenção este renascer de uma publicação de referência nestas "coisas" dos livros.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

As palavras dos outros

(...) Vou cotejando a crónica dos noticiários e apercebo-me do estado a que chegou o país das "novas oportunidades", do "empreendedorismo", "dos jovens empresários", "das novas empresas" e da "excelência". Um pesadelo cansado, com vincos de exasperação na comissura dos lábios, com funcionários cansados e vigiados, denúncias e processos disciplinares, polícias maltrapilhos e juízes resignados e impotentes entretendo-se em macaquear a habitualidade da justiça e da segurança em que já ninguém acredita. Assim também já esteve Portugal há muito, muito tempo. Sabemos como terminou a aventura da incompetência desses tempos. As "democracias latinas" são as maiores amigas dos ditadores.

Miguel Castelo-Branco, "A Doce Pinderiquice", no "Combustões"

Domingo à tarde

Vão discutir-se amanhã, na A.R., três projectos de lei referentes ao horário de abertura dos hipermercados (área superior a 2 000m2) aos domingos e feriados. Como se sabe, actualmente, e ao abrigo da portaria 153/96 de 15 de Maio, os hipermercados estão proibidos de abrir ao público aos domingos e feriados entre os meses de Janeiro a Outubro, podendo contudo abrir entre as 08:00 e as 13:00 de igual período. Neste momento, corre na blogosfera uma petição contra a abertura. Coincidência ou não, as propostas do BE e do PCP vão no sentido do encerramento aos domingos e feriados, extensível a todos os estabelecimentos de venda ou público ou prestação de serviços, embora a última abra algumas excepções. A justificação é a "defesa do comércio de proximidade" e a inversão da "desertificação dos centros das cidades". A proposta do PSD, invocando a liberdade de comércio e a desregulamentação, prevê a abertura desses estabelecimentos, incluindo os localizados em centros comerciais. No entanto, remete essa decisão para as autarquias respectivas. É que, se em alguns casos, um período de funcionamento alargado poderá ser benéfico para os consumidores e criar mais emprego, noutros poderá afectar gravemente o comércio tradicional. E serão as Câmaras aquelas que melhor avaliação poderão fazer destas situações. Esta proposta parece ser a mais equilibrada. Não faz qualquer sentido impor administrativamente um horário de funcionamento restritivo para determinados estabelecimentos, não aplicável a outras superfícies com praticamente a mesma área. Por outro lado, é bom começar a acabar com o mito do coitadinho e honrado comércio tradicional. Ou metê-lo a todo no mesmo saco. Há sectores e estabelecimentos onde se nota um notável esforço de reconversão, de especialização da oferta, abertura de lojas gourmet, fixação de horários de abertura diferenciados, oferta de serviços complementares, pensando no bem estar dos clientes, etc. A falta de imaginação, de conhecimento e de esforço são os maiores inimigos do comércio tradicional. Alguém, no seu perfeito juízo, acredita que será o encerramento dos hipermercados aos domingos e feriados que o irá salvar?
Uma nota curiosa: sectores ligados à Igreja tomaram posição contra a abertura dos hipermercados ao domingo. A razão invocada é a defesa da família. Sinceramente, não sei que tipo de tentações demoníacas poderão atacar o consumidor que, por não haver mais nada aberto, ou porque o domingo é um dia propício às compras semanais, se desloca a uma grande superfície nesse período. Será que a dona de casa que vai ao hiper da zona será por isso uma mãe de família pecaminosa? Enfim, quando é que a Igreja aprende a não se intrometer na liberdade e na autonomia de cada um, seja ou não cristão? E que tal se esta promovesse a abertura de estabelecimentos de aconselhamento e conforto espiritual nos centros comerciais, abertos ao domingo? Faço esta proposta com toda a seriedade que ela merece. Depois queixem-se de que o rebanho está a diminuir...