terça-feira, 13 de novembro de 2007

Lembrete

"Nunca se pode ser tão livre quanto se deseja, quanto se quer, quanto se teme"

Marguerite Yourcenar, A Obra ao Negro

Neo Neo Realismo

A história chegou-me através de João Tunes. Miguel Urbano Rodrigues, o grande teólogo das vanguardas operárias contra a "fúria destruidora de inspiração ultramontana" das "reformas modernizadoras" de Sócrates - "uma política em que despontam já matizes neofascistas" - acaba de proferir mais uma encíclica. Com sinos a rebate e tudo. O tom jdanovista não engana ninguém: "O povo português está em condições de se assumir em sujeito, como aconteceu em grandes momentos da sua história, e de travar a escalada reaccionária, derrotando o projecto monstruoso em desenvolvimento." E à frente estará sem dúvida M.U.R., o grande emancipador, de megafone em punho. Em que planeta vive esta gente?

¿por qué no te callas?


Eis como Zapatero e o rei Juan Carlos meteram na ordem Hugo Chavez, durante a recente XVII Cimeira Ibero-Americana, realizada em Santiago do Chile. O motivo foram os insultos repetidos que este havia dirigido a Aznar. Ver aqui a notícia completa. Recorde-se-se que o vitalício presidente venezuelano se tornou uma espécie de versão local do "pai dos povos", sucessor de Fidel e arauto do niilismo raivoso e anti-globalização que certa esquerda tanto aprecia. A tal que está pronta a desculpar qualquer movimento ou regime totalitário, mesmo que de cariz fascista ou fundamentalista, desde que anti ocidental e anti-americano em particular. É o delírio. Daniel Oliveira lá vai dizendo que o homem desprestigia a esquerda internacional, mas não deixa de lembrar que Chavez, "pelo menos ainda, não é um ditador", colocando-o ao mesmo nível de Bush, em matéria de legitimidade para governar. Palavra que não sei se afirmações destas revelam simples ignorância da História, desonestidade intelectual, ou provêm de uma obstinada má-fé.

Nota: Chavez vem a Lisboa no dia 20. Segundo consta, para jantar com Sócrates e debater acordos energéticos.

Onde mora a memória obscura,onde



esse cavalo persiste como um relâmpago de pedra,
onde o corpo se nega,onde a noite ensurdece,
caminho sobre pedras na minha casa pobre.
Não conheço esse lago,não fui a esse país.
Mas aqui é um termo ou princípio novo.
Com a baba do cavalo,com os seus nervos mais finos
reconstruí o corpo,silenciei os membros.
Não se estancou a sede,no mesmo caos de agora,
mas a língua rebenta,as vértebras estalam
por uma nova língua,por um cavalo que una
a terra à tua boca,e a tua boca à água.

António Ramos Rosa, de Ciclo do Cavalo (1975)

Preces atendidas - 18



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segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Discurso directo

"Há sempre palavras a mais."
"Sempre me comoveu ver o desamparo em que as pessoas vivem. Acho que esta dimensão nunca foi suficientemente notada nos meus livros. Vivemos num certo desamparo, numa certa desprotecção."
"Já não minto. Já não componho o perfil. Estou aqui diante de vós, nu e desfigurado. Porque a nudez desfigura sempre. Agora, jogo com as cartas abertas. Agora, jogo póquer com as cartas viradas para cima. Agora, já não há nada escondido, está tudo à vista. E ou a mão ganha ou perde. Nos livros, também já não há truques."
"Mas é verdade que me sinto mais livre, sinto-me muito mais livre. Livre para escrever, livre para viver, livre para amar."
"Não penso em nada, é uma surpresa infinita."
"Agora, apenas sinto mais admiração por aquilo a que chamam pessoas comuns. Não existem pessoas comuns. Se temos a arte de fazer com que a alma do outro se abra, então, todas as pessoas são incomuns. Há uma riqueza extrema dentro de cada um de nós. É como nos livros. Ou sabemos tocar no mistério das coisas e, neste caso, o livro é bom. Ou não sabemos tocar no mistério das coisas e, pelo contrário, o livro é mau."

Lobo Antunes, entrevistado pela revista Visão

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