segunda-feira, 9 de abril de 2007

Imagens de Portugal romântico - 18

Lisboa, vista de Almada
Oeiras, forte de S. Julião da Barra
Lisboa, Largo do Carmo

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Errâncias

Sob o apropriado lema "vigília pascal", estive por uns dias no Algarve. Como seria de esperar, a doçura da luz primaveril, evocando outras latitudes, é irresistível nesta época. Mesmo que nos boqueirões e nos subtis recortes da costa que se alongam até ao Carvoeiro já não pululem as ninfas e as náiades, como se dizia no "Guia de Portugal" dos anos 40. Agora espreitam, nos locais mais imprevistos, as paredes de um empreendimento óteleiro. Logo "ali" na arriba. Como no caso de um hotel em Armação de Pêra, cujas paredes e respectivos alicerces substituíram, num pequeno troço, o que antes fora falésia. Elementar, caro Watson. Mas o Algarve não é só o mar. Bem pelo contrário. Numa digressão pelo "barrocal", descobri Estói, uma antiga e perfumada vila algarvia, emoldurada pelo magnífico palácio dos condes de Carvalhal, solar setecentista. Logo ao lado, as ruínas romanas do Milreu, a antiga "Ossónoba", cujo esplendor não é difícil adivinhar.

domingo, 8 de abril de 2007

No centeio

Tradução: José Lima
Ed. Difel, 2005

O que tem de extraordinário este The Catcher in the Rye, obra máxima de J.D. Salinger, que atrai legiões de admiradores dos mais diferentes perfis e é objecto de culto nos mais diversos círculos? Jerome David Salinger , o autor, é uma figura estranha. Nascido em 1919, desde sempre foi avesso à imprensa ou outras formas de divulgação da sua figura, tornando-se paranoicamente recluso. Ainda na época do lançamento do livro, na década de quarenta, fez o seu editor prometer que não lhe enviaria quaisquer críticas que fossem publicadas sobre o livro. À Espera do Centeio relata, numa narrativa na primeira pessoa, alguns dias na vida do adolescente Holden Caulfield O qual acaba de ser expulso da sua terceira escola nas vésperas de Natal, nos EUA do pós-guerra. Numa linguagem simultaneamente criativa e coloquial (o que dificulta a vida dos tradutores), Caulfield vai revelando, aos poucos, algo sobre o seu passado, família e conhecidos, ao mesmo tempo que vagueia por Nova Yorque. E, para alguém entediado e deprimido como ele, nada melhor que ua contrariedade para manter o ritmo narrativo.O texto segue a linha joyceana do fluxo de consciência, com as frases jorrando aos borbotões, como se saíssem directamente da cabeça do narrador, saltando de um assunto para outro sem grande cerimónia, parecendo obra do acaso. Em The Catcher in the Rye o fluxo de consciência funciona particularmente bem, pois permite expressar a instabilidade emocional do protagonista, não somente no conteúdo da narrativa, mas também na forma. Holden Caulfield é ao mesmo tempo o herói e o vilão da história. Vítima de si próprio e da sua sensibilidade, divertidamente mentiroso, assumidamente covarde, parece buscar uma espécie de redenção ajudando desconhecidos e enaltecendo sua irmãzinha de dez anos. Mas o que realmente o incomoda é o vazio e a falsidade das pessoas, que por mais promissoras que pareçam, acabarão sempre por se revelar como mais uma decepção. Isto não faz da obra exactamente uma leitura animadora mas, ainda assim, existe algum resquício de inocência e ingenuidade infantil em Holden Caulfield.

sábado, 7 de abril de 2007

Recomenda-se

Ed. Antígona / Frenesi, 2006

Este livro não pretende de modo algum desenvolver um estudo exaustivo sobre a prostituição em Portugal, mas coloca uma pergunta inquietante: que diferença existe entre as relações sexuais dentro da prostituição e as relações sexuais convencionais? A partir daqui, o autor analisa a história do adultério, da libertinagem, de tudo o que possa chamar-se «sexualidade», e a qual faz equivaler à devassidão, extrapolando frequentemente para o campo da pura moralidade. A ideia central deste historiador, e que preside ao seu exercício histórico, é esta: cada século é sempre mais impuro do que o anterior.A Amorim Pessoa não interessa tanto estudar a prostituição enquanto fenómeno político-social, mas expor os princípios que nas nossas sociedades feudais-burguesas norteiam as relações familiares.Esta obra (aqui compilada e anotada por Manuel João Gomes) vale sobretudo como documento psicológico de uma época – o fim do século XIX, altura em que este trabalho conheceu grande publicidade e êxito.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

Esplendor no céu


De visita ao "Cântaro Zangado", descobri esta imagem, obtida na Serra da Estrela. Mais palavras para quê?

domingo, 1 de abril de 2007

Auto de notícia

- Sempre é verdade que o outro foi dado como morto?
- Sim, mas não é certo, pois antes nunca fora dado como vivo.
- A sério?
- 1º de Abril!!!

Ratos - 1

Chama-se "Ratos". Uma pequena peça de teatro "série B" que acabei de criar. Para quem tem acompanhado a rubrica "Crimes Exemplares", mantida neste blogue, não será difícil imaginar a transposição do absurdo e de uma violência paródica, aí desenvolvidos, para uma ambiência cénica. Trata-se pois de uma história politicamente incorrecta, a partir de fragmentos aparentemente isolados. Onde certos fantasmas presentes na ordem do dia são devidamente remetidos ao jogo de espelhos de onde procedem. Numa sucessão de imagens cruas e carregadas de um onirismo corrosivo.
Com início neste post, o texto será aqui apresentado - em estreia absoluta - por episódios. Que serão editados pela ordem respectiva e fazendo cada um remissão para o anterior.

***
Personagens: Voz, Coro de quatro vozes, Homem, Condutor, Sr. Verde, Rapariga, Maria, Prof. Verde, Dr. Verde, Ana, Mário

1.
(Escuro. Ouve-se um zumbido constante, como o som próprio de uma cidade.)
VOZ
A mente é um lugar fantástico para vagabundear quando se está ausente. (Pára o zumbido.)
VOZES (OFF)
Quem está aí? Quem avançou até aqui? Tu, aí no meio!
VOZ
Eu? O que querem vocês? Sim, já fiz tudo, se querem saber. Aqui está o meu relatório para vos mostrar.
VOZES
Estamo-nos nas tintas para o que tu fizeste. Agora está sossegado e nem um pio!
VOZ
Mas ainda não sei onde estou, nem para onde ir. Indiquem-me um lugar sob este manto escuro, dêem-me essa orientação. Mas antes, digam-me, por favor, qual é exactamente o nosso tipo de relação?
VOZES
A mente é sublime, sim, mas aqui não temos tempo para jogos estúpidos, seu idiota.
Não queríamos ir por aí, mas o que virás a ser é a maior das incertezas. Foi a ti que e aos teus enigmas que banimos, desta mancha, por todo o lado. Mas acende as luzes e trá-las para aqui! Vamos! (Luz geral no palco)

2.
HOMEM
Eu vi a luz! Foi Deus quem pressenti, na sua nudez e pureza. Estou salvo! Conseguem vê-lo também? Aquela luz? Como me deleitei nela, meus irmãos! Fora a Vaidade! Tagarelice, não te conheço! Vai de retro ó personagem! Sai aparência que te acoitas dentro de mim, como um bobo cruel! O teu artifício acorrenta-nos todos ao Diabo! Fora! Fora!
VOZES (OFF, em coro) (imitando, parodiando)
Fora! Fora! Seus cães raivosos. Vamos! Voltem às vossas jaulas. Fora! Fora! Suas bestas delirantes, saiam de vez do nosso palco.
HOMEM
Que desgraças se aproximam! Quantas catástrofes vos esperam, servidores de Satã. Concede-me o teu refúgio, ó Senhor! Orarei para que os tires a todos da minha vista!
VOZES
Pobre rato insignificante! Seu idiota! Deus está morto, para todos os efeitos. E nós, somos simples figuras de porcelana, num disco suspenso do nada, em vertiginoso rodopio numa pista de dança!
HOMEM
Servidores das trevas, fora, fora da minha vista! Meu Deus, peço-vos, dai-me passagem para o vosso reino, através do mar. E longe do mundo, a ele renunciarei.
VOZ 1
Ah ah ah!
VOZ 2
He He!
VOZ 3
Ho Ho!
VOZ 4
O mar!!! Ah ah ah!
VOZES (em coro)
Gostávamos mesmo de ver tal coisa! És muito crente, mas já estás atrasado para o teu comboio! E não te esqueças do guarda-chuva, porque parece que vai chover…
HOMEM
A mente é um local mal frequentado. Pergunto a mim mesmo, ó Senhor, qual é o preço do bilhete? (Escuro)

3.
(Plano de uma grande estação de autocarros, em vídeo)
CONDUTOR
Bilhete para onde? Isso depende. Ora deixa cá ver: são € 12,00 para Braga e € 15,00 para Cascais e € 400,00 para o Ganges, mas só aos fins de semana…
HOMEM
É bastante caro, digamos, para uma tão longa viagem rumo à salvação... O que sugere você? A esse preço quero vista para o mar!
CONDUTOR
Mesmo ao cimo da Areosa , vive uma rapariga chamada Mariana, num castelo. Já não tem pai nem mãe. Está o tempo todo em casa, sozinha, acompanhada dos seus 900 amigos online…Acredite, a vida dela é deveras triste.
HOMEM
Vem mesmo a calhar! Só espero que não seja caprichosa, mas mesmo assim não me importo. Indeciso como sou, eu e ela voaremos mais alto do que um vulgar idiota poderá tentar.
CONDUTOR
Isso soa-me que nem gingas! Estou realmente contente ao ver que fez a sua escolha. (cantarolando) Eis que a hora é de largar, pois aquele apito vai soar! (aparte) E só espero que ela o receba de braços abertos...
HOMEM
Obrigado caro senhor, não é habitual ser aconselhado por alguém de forma tão correcta.
CONDUTOR
Ouça, vai mesmo agora partir o autocarro para a Areosa! Corra, depressa! Não há mais nenhum esta noite.
(O Homem corre à pressa para o autocarro.)