sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

As trevas

O juiz Helder Fráguas, autor do blogue Aqui e Agora, na comunidade blogosférica do jornal "Sol", de que sou também membro, acaba de ser suspenso das suas funções, por decisão do Conselho Superior da Magistratura. A sanção resulta de um processo disciplinar que lhe foi instaurado graças a um artigo que escreveu há uns anos para um jornal do Barreiro. Onde teria empregue linguagem menos apropriada a respeito de uma caso em que um talhante foi condenado por ter violado uma criança de 9 anos. O CSM entendeu que, ao exprimir-se desse modo, o juiz infringiu o estatuto dos magistrados judiciais. Por muito que isso custe à nossa sensibilidade e ao nosso inequívoco repúdio e indignação pelo crime, o juiz não deveria, nessa qualidade, dizer o que disse. Poder-se-á dizer, com alguma razão, que, ao imporem limites excepcionais à liberdade de expressão, certos estatutos profissionais estão a preservar a dignidade da classe no seu todo. No entanto, quer-me parecer que, neste caso, a sanção imposta socorreu-se de um pretexto. Válido para silenciar o juiz, mas que encobriu o verdadeiro objectivo: calar o cidadão Helder Fráguas. Basta ler os últimos textos que publicou no blogue para se perceber como tocaram em algumas susceptibilidades corporativas. Numa classe onde o corporativismo é o pão nosso de cada dia - veja-se o tipo de discurso do actual presidente do STJ. E onde mais facilmente se punem as ovelhas "tresmalhadas" do que se apontam as incompetentes.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Nenhum parvo ou parvo nenhum?

Dando início a uma série de digressões acerca de algumas expressões que utilizamos correntemente no luso vernáculo, começo hoje por essa pérola que dá pelo nome: "fulano não é parvo nenhum!".
Os mais incautos julgarão que o epíteto designa alguém que se distinguiu numa área determinada da investigação científica, ou que se notabilizou pela filantropia, ou que é um grande pensador, ou que tem uma moral impoluta, ou que paga escrupulosamente os seus impostos, ou que dinamiza determinada colectividade ou determinado jornal, ou cuja dimensão cívica é assinalável, ou que dispensa maior tempo à família do que o habitual, ou que se distinguiu em alguma disciplina artística, ou que tem uma participação activa em defesa do meio ambiente, ou que é um profissional exemplar na sua área, ou cujo saber e curiosidade sobressaem pela vastidão...
Pois estão redondamente enganados. Em Portugal, dizer de alguém que "não é parvo nenhum" significa simplesmente que se escusou airosamente às obrigações fiscais, que arranjou um emprego assaz pretendido, que entrou em determinado local sem pagar, que tem uma isençãozinha que lhe dá direito a ser diferente de todos os outros, que tendo sido presidente de certa colectividade, foi admitido em lugar de destaque numa instituição de ensino sem dispor de qualquer qualificação para o efeito, que conseguiu enganar tudo e todos, colocando o seu dinheirinho a coberto dos credores, que sabe sempre primeiro que todos quando sobre si recai uma ordem judicial, que conseguiu que a sua equipa ganhasse a taça à margem do mérito desportivo, que não está para perder tempo a dar prioridade aos peões nas passadeiras, que acabou por construir mais um andar na nova moradia, cuja falta de licença foi suprida da forma expedita que se imagina, que é um incompetente mas não deixa de ser promovido por isso...
Em resumo, a expressão justifica, deifica, "normaliza" o chico-espertismo, essa grande instituição nacional. Tornando possível uma tolerância razoavelmente consensual perante o arranjinho duvidoso, a finta obscura, o "faz-de-conta" espertalhaço. Democratizando-os, coloca-os ao alcance de todos, de tal modo que qualquer um pode ascender a "parvo nenhum". Mas nem por isso os que não conseguem lá chegar se conformam com o estatuto de "nenhuns parvos". Era o que faltava! Precisamente porque só um parvo nega essa qualidade a outro! Só um parvo reconhecerá que um "parvo nenhum" é possuidor de um dom que ele não tenha, ou de uma qualidade especial que ele não possa desenvolver, ou de uma oportunidade de que não possa tirar partido. Por essa razão, pagam adiantado, nomeando os meros espertalhões como "parvos nenhuns".
Mas fazem-no por exclusão de partes, não lhes concedendo um destaque inconveniente e imerecido. É que a inveja ainda pesa... Todavia, publicamente gabam-lhes profusamente a perícia. Para deles se sentirem próximos, cúmplices, familiares. Repare-se pois que os felizardos passam a ser "parvos nenhuns" e não "parvos alguns". Dessa forma, a mediania fica salvaguardada. Quando chegar a hora da "promoção", a condescendência que se "deu" de avanço irá ser devidamente recompensada. Ficando garantidas a invisibilidade e a impunidade.
Por outro lado, cada "nenhum parvo" que, podendo, um dia há-de ser um "parvo nenhum", acaba por reconhecer,
no seu íntimo, que a façanha resulta de um cálculo feliz ou de uma mediania esforçada. Mas como a risibilidade desses factores é transformada em qualidade insuspeita, nunca haverá o perigo de, sendo eu ou o leitor o próximo "parvo nenhum", passar alguém a ser algum parvo.

Publicado no jornal "O Interior"

A simpatia

A edição de Fevereiro da revista Atlântico continua a mostrar porque é que esta publicação de actualidade política continua a fazer a diferença no panorama nacional. Do excelente naipe de articulistas e trabalhos publicados é difícil eleger aqui os mais curiais. Apesar da "injustiça" da escolha, destaco aqui quatro textos:
1. "O que esperar da UE em 2007?", de Bernardo Pires de Lima: uma análise descomplexada das questões colocadas a propósito da actual presidência alemã, da eminente presidência portuguesa, da afirmação da Alemanha como interlocutor privilegiado de Washington, substituindo Londres, da recente adesão da Bulgária e Roménia e do complexo dossier turco;
2. "Descriminalizar, Despenalizar, Nacionalizar", de Manuel de Lucena: uma perspectiva heterodoxa sobre a grande questão nacional do momento, onde se colocam algumas interrogações aos dois lados da contenda sobre a salvaguarda da contenção do Estado, quer em punir quer em promover o aborto. É claro que, mesmo tendo uma posição inequívoca em favor do sim, não me impede de ler com agrado uma reflexão bem estruturada sobre o problema.
3. "Sucesso e fracasso no Iraque", de Rui Ramos: a destruição da ideia de que foram os neo-conservadores quem mais incentivou o presidente Bush à intervenção militar no Iraque, pois Dick Cheney e Rumsfeld nunca o foram.
4. "Três ruas para viver", de Paulo Tunhas: uma excelente crónica cujo tema de fundo é a onda de "compaixão" que suscitou a recente execução de Saddam. PT parte de uma sequência de "O Idiota", de Dostoievski, em que o Príncipe Mychkine relata a execução de um condenado, por ele presenciada. O herói, num exercício analógico, imagina o que aquele teria sentido nos seus último momentos de vida. PT conclui, e bem, que o episódio diz respeito à forma mais simples de simpatia: colocarmo-nos no lugar do outro. Uma espécie de "dever de sensibilidade"que identifico com a compaixão budista. Mas o autor sinaliza uma outra forma de simpatia: "desejar que o outro não estivesse lá", apelar a uma misericórdia que reponha o que se sente como uma injustiça. PT conclui que tendemos a confundir os dois planos, isto é, a "exprimir a primeira ao modo da segunda", pois a sensibilidade só adquire credibilidade com a ajuda da "emoção". E quando um acontecimento tão impressivo como este corre mundo, ninguém quer ficar de fora de uma onda emocional que reforça o que se julga ser a "humanidade" que nos habita. Um processo que PT identifica como o "reflexo automático do gregarismo opinativo". Uma "surpresa" que um sentimentalismo postiço obriga a dizer: "sim, eu também".

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

Quando estamos sós com tudo o que amamos

"Só existe uma solidão. É grande e difícil de suportar. E quase todos nós conhecemos horas em que de bom grado a cederíamos a troco de qualquer convivência, por muito trivial e mesquinha que fosse; até pela simples ilusão de uma pequena coincidência com qualquer outro ser, mesmo com o primeiro que aparecesse, ainda que assim resultasse talvez menos digno. Mas acaso sejam estas, precisamente, as horas em que a solidão cresce – pois o seu desenvolvimento é doloroso como o crescimento das crianças e triste como o início da Primavera – ela, sem embargo, não deve desconcertá-lo, pois o único que, por certo, nos faz falta é isto: Solidão, grande e íntima solidão. Mergulhar em si mesmo e, durante horas e horas, não encontrar ninguém…Isto é o que importa conseguir. Estarmos sós, como estivemos sós quando éramos crianças, enquanto á nossa volta andavam os grandes de um lado para o outro, enredados em coisas que pareciam importantes e grandes, só porque eles se mostravam muito atarefados, e porque nós não entendíamos nada dos seus afazeres."

Rilke, Cartas a Um Jovem Poeta

Ainda têm dúvidas?

Ontem fiquei definitivamente esclarecido sobre o "vale tudo" a que, em crescendo, recorrem muitos activistas do Não no próximo referendo. Assemelhando-se, cada vez mais, a contadores de histórias de uma tele-igreja evangélica. O espisódio conta-se em poucas palavras. Depois de um serão de trabalho, liguei o aparelho de televisão. No canal Sic Radical estava a ser transmitido aquele programa um bocado idiota, em que há dois pivots num estúdio detrás de uma mesa de som, lendo sms dos espectadores e mandando uns bitaites para um público essencialmente juvenil. Só que, desta vez deparo com um "jovem" numa pose claramente clownesca. Debitando um fraseado desgarrado, mas reconhecível, a propósito da campanha em curso, para uma pequena assembleia de adolescentes presentes no estúdio. Convenci-me que se tratava de um número cómico, pois todos os indícios apontavam para tal. Às tantas, saca de um telemóvel, onde reproduziu o que era suposto serem as batidas cardíacas de um feto. Com direito a um apelativo osciloscópio no visor e tudo! Rematou com a ideia de que "se queres ser modernaço, vota não!", sem abandonar o registo paródico, tipo "olá meus, querem ver, isto é fixe, heim!", e "eu também sou jove, tão a domar?". Parecia uma sequência do TV Shop nos piores momentos! Em seguida, interveio uma senhora que participava no "debate", mas do lado do "sim", expondo as suas razões à plateia. Nada mais. Só então percebi que aquilo era "a sério". Tão "a sério" que imediatamente pensei na intervenção do "jovem" oficiante como absolutamente indicada para visionamento com fins terapêuticos na secção de afásicos de um hospital psiquiátrico, num seminário sobre marketing agressivo, para criativos de escrita humorística e, de um modo geral, para os fãs do Gato Fedorento.
Mas sobretudo para tirar as dúvidas, a quem ainda as tem, sobre quem defende o quê e como, neste debate.

O Avião madeirense

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

A Inquisição vem a seguir

«A desumana insensibilidade com que os adversários da despenalização convertem o direito à maternidade e à paternidade numa obrigação absoluta - incluindo em caso de gravidez indesejada ou, mesmo, insustentável, em termos afectivos, psicológicos, familiares, económicos, sociais, etc. - revela uma dose de intolerância e de incompreensão que só o dogmatismo e o fundamentalismo religioso ou moral podem justificar.»

Vital Moreira, Público, 06.02.2007