sexta-feira, 12 de janeiro de 2007
Uma torre se erguerá do fundo
Não: uma torre se faça do meu peito
e eu próprio seja posto à sua beira:
onde nada mais há, haja ainda uma vez dores
e inefabilidade, mais uma vez mundo.
e eu próprio seja posto à sua beira:
onde nada mais há, haja ainda uma vez dores
e inefabilidade, mais uma vez mundo.
Mais uma coisa só no desmedido.
que se faz escura e de novo se ilumina,
mais uma última, ansiosa face,
que no exílio nunca se apaziguará,
mais uma extrema face de pedra,
perante a sua gravidade curvada,
que as amplidões, que serenamente a aniquilam,
obrigam a ser sempre mais feliz.
Rainer Maria Rilke (tradução: Paulo Quintela)
quinta-feira, 11 de janeiro de 2007
O embuste
Acerca do debate sobre a despenalização do aborto, escrevi há tempos o seguinte: "o aborto é um tema em que as respostas não são, por regra, lineares. E as perguntas não deveriam também sê-lo. Está em causa a forma como o Estado irá regular a esfera pessoal dos cidadãos. Aqui, as opções de regulação não se medem em quantidades e os interesses envolvidos são difusos. Trata-se, sobretudo, de valores fundamentais que podem ser defendidos ao mesmo tempo pela mesma pessoa. Sendo que a ciência ainda não deu resposta a algumas questões que poderiam atenuar os diferendos ao nível da opinião pública."A minha posição sobre o tema é inequivocamente pela despenalização. Pelas razões básicas aqui apontadas. Ora, o debate em curso é igualmente revelador da verdadeira matriz ideológica e cultural de muitos participantes. Leia-se então este argumentário de João Gonçalves no Portugal dos Pequeninos, tal Gulliver num exercício de desprezo pelos habitantes de Lilliput. Para o autor, os defensores da despenalização do aborto são "meia dúzia de causalistas" impondo mais um método contraceptivo com o atributo da correcção política. Que vão criar mais uma fonte de despesa, financiada com os "nossos" impostos - "dele", é claro - com o "nosso rico dinheirinho". A seguir podia vir o "vão trabalhar, malandros!", sem mudar de tom. Mais à frente, antecipando a vitória do "não", refere que essa é a única forma daquilo a que chama "as excepções legais à criminalização da prática da ivg" - que, tecnicamente, mais não são do que causas de exclusão da ilicitude - previstas na lei actual poderem ser condignamente praticadas nos hospitais públicos. Num exercício táctico oportunista, JG mistura aqui um economicismo próprio de um liberal, que ele não é, com um conservadorismo atávico de que, efectivamente, é tributário. Em aberto fica a iniquidade da responsabilização criminal de mulheres cuja decisão foi já suficientemente penosa. Mas o que interessa isso a João Gonçalves? O que lhe interessam as questões das pessoas em concreto - e das mulheres em especial - o domínio de facto sobre o seu próprio corpo? É precisamente o não reconhecimento do direito de opção o que caracteriza os defensores do "não". Que pretendem, neste caso, a continuidade da imposição, por via legal, de valores e crenças exclusivos de um sector da população.
Lendo-se ainda este post de JG, desaparecem as dúvidas acerca da vastidão da sua ignorância acerca do país real, a sua enorme arrogância, o seu profundo desprezo pelas mulheres, a sua matriz ideológica saudosa do autoritarismo, do privilégio e da opressão. Eis o típico defensor do "não", cuja combatividade não se deverá desprezar.
É de prever que, neste campo, a demagogia suba de tom na proporção inversa da qualidade dos argumentos. Como diz Vasco Rato, num artigo publicado no penúltimo número da revista "Atlântico", aos que condenam o aborto por razões puramente morais, seria exigido que o fizessem em todas as circunstâncias, sem excepção. No entanto, acrescento eu, preferem manter e lei actual, que o Estado tem vergonha em cumprir e a maioria dos cidadãos em aceitar.
Lendo-se ainda este post de JG, desaparecem as dúvidas acerca da vastidão da sua ignorância acerca do país real, a sua enorme arrogância, o seu profundo desprezo pelas mulheres, a sua matriz ideológica saudosa do autoritarismo, do privilégio e da opressão. Eis o típico defensor do "não", cuja combatividade não se deverá desprezar.
É de prever que, neste campo, a demagogia suba de tom na proporção inversa da qualidade dos argumentos. Como diz Vasco Rato, num artigo publicado no penúltimo número da revista "Atlântico", aos que condenam o aborto por razões puramente morais, seria exigido que o fizessem em todas as circunstâncias, sem excepção. No entanto, acrescento eu, preferem manter e lei actual, que o Estado tem vergonha em cumprir e a maioria dos cidadãos em aceitar.
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aborto,
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quarta-feira, 10 de janeiro de 2007
Curtas
Chamo a atenção para o artigo Blogging, the nihilist impulse, publicado no sensacional Eurozine. Um excelente texto do holandês Geert Lovink, teórico da comunicação e internauta activo, com uma vastíssima carreira académica. Existe uma versão printable em inglês, em formato pdf. Que poderão descarregar aqui. O autor formula uma construção teórica dos weblogs - um género de blogues que funcionam como um diário jornalístico - que vai além da retórica habitual do "jornalismo dos cidadãos", estabelecendo que a importância dos blogues se deve ao declínio generalizado da "Crença na Mensagem". Uma análise atenta e inspiradora.
Compre uma indulgência pelo "Não"
Ainda não começou a campanha para o referendo sobre o aborto e já a minha paciência com uma parte deste país engravatado que, por descuido, se assoa à gravata ( não é, O'Neill?) começa a esgotar-se. Há um mês atrás, expus aqui essa relação perversa entre o pânico vivido por muitas mulheres trabalhadoras em serem despedidas, em caso de gravidez, e certos defensores do "não". Quando estive um ano no sector informativo de uma delegação da Inspecção Geral do trabalho, deparei-me com essa situação dramática repetidas vezes. Em que muitas foram realmente despedidas por essa razão. Na maioria dos casos por desgaste promovido pela entidade patronal. Acontece que aqueles que as despedem, de facto, são os mesmos que - públicas virtudes - defendem o "não". Enquanto as respectivas mulheres dão um "pulinho" até Espanha. E não é para comprar caramelos. A produtivididade a todo o custo do capitalismo - na sua versão de patrão tiranete luso - aliada ao beatério é um dado que me escapava. Até agora. Eis senão quando leio hoje um post de João Villalobos no Corta-Fitas, atráves do qual fiquei a saber que a Igreja, a propósito do "não", anda a publicitar rosários pagos mediante «donativos a 10 euros». Pelo vistos, esta campanha vai ser dura. Como o foi a luta contra as indulgências, há quinhentos anos.
PS: eis mais um exemplo do desespero pela míngua de razões revelado pelos defensores do status quo.
PS: eis mais um exemplo do desespero pela míngua de razões revelado pelos defensores do status quo.
terça-feira, 9 de janeiro de 2007
A blogosfera em 3D
Representação em 3D da blogosfera e suas diferentes constelações. Um gráfico obtido com base no método dos connected component. O centro da imagem é ocupado pelas ligações ao DailyKos. A mancha azul composta por pontos situados mais abaixo à direita corresponde à comunidade socio-politica. Em cima, à direita, está a blogosfera "tecnológica", sinalizada com o BoingBoing - esfera branca. A blogosfera como uma partícula atómica, ou uma galáxia. Com buracos negros, sóis, meteoritos, cometas, planetas e respectivos satélites, etc. Não serão já os blogueiros autênticos blogonautas?
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