terça-feira, 15 de agosto de 2006

Viagens - 1

Existem três triptamínicos cujo uso alternado funciona como uma espécie suprema tridade enteógena. São eles a ayahuasca, o S. Pedro e o cebil. Ainda que compartam uma mesma base cognitiva, cada um desempenha funções específicas, segundo o seu âmbito específico, momento adequado e resultado final.
A ayahuasca conduz a uma imersão nocturna no coração da vida. O S.Pedro activa uma abertura diurna aos caminhos do sol através das profundidades da terra. O cebil plana velozmente no culminar da contemplação. As três plantas maestras partilham uma sacralidade comum, própria do êxtase mistérico - são afinadores cósmicos - mas cada uma serve diferentes fins, condicionados pelo tipo de experiência, duração, efeito psicofísico característico e propriedades intrínsecas.
As breves observações que se seguirão são produto da experiência e da busca para optimizar o uso dos vegetais sagrados, tendo em vista um equilíbrio dinâmico. Propôr os três usos, relacionados com os benefícios espirituais e práticos decorrentes, significa encontrar os rituais próprios a partir de um uso consciente para casos concretos, quer em função de práticas curativas quer na ampliação de estados de consciência.


(continua)

Falsos Ídolos

De passagem por uma leitura de estimação, não resisto a colocar aqui as palavras de Arno Gruen:

A História é o resultado da interacção entre os que precisam de conquistar territórios, a natureza ou outras pessoas para se preservarem e os que dependem de falsos deuses para assegurarem a sua consistência. Por outras palavras: uns, na sua megalomania, declinam qualquer responsabilidade pelos seus semelhantes, e os outros não têm forças para serem responsáveis, já que precisam do Mal para se lhe sujugarem.(...)
Falsos deuses são as duas coisas: tanto testemunhos como produtores da vã identidade que nos salve. Enquanto não encararmos realmente de frente o desamor que nos rodeia, não seremos capazes de chegar a uma identidade própria e firmemente enraizada no que realmente somos. Em vez de uma identidade baseada numa trama exterior, em que poses ostensivas de sentimentos e valores tomam o lugar de uma identidade interior. Isso empurra as pessoas para a dependência de estruturas externas, como o estatuto social, posse, ordem, dever e obediência. Quando essas estruturas começam a vacilar devido à sua dinâmica própria, as pessoas que edificaram a sua identidade sobre elas desagregam-se. É esse o solo que não só permite como favorece os falsos deuses.
(edit meu)

Arno Gruen, Falsos Deuses, Paz Editora, 1997

*O Autor nasceu em Berlim em 1923. Em 1936 emigrou para os EUA, onde se doutorou em psicanálise. Trabalhou como professor e terapeuta em diversas universidades e clínicas. Desde 1979 vive e exerce em Zurique. Bibliografia:
A Loucura da Normalidade. O realismo como doença: uma teoria fundamental sobre a destrutividade humana. Assírio & Alvim: Lisboa 1995 [Primeira edição alemã: Munique, 1987];
A Traição do Eu. O medo da autonomia no homem e na mulher. Assírio & Alvim: Lisboa, 1996 [Primeira edição alemã: Munique 1986];
Der frühe Abschied. Eine Deutung des frühen Kindstodes (A Despedida Precoce. Uma interpretação da morte infantil súbita). Kösel: Munique, 1988;
Der Verlust des Mitgefühls (O fim da compaixão). dtv: Munique, 1996;
com J. Prekop: Das Festhalten und die Problematik der Bindung im Autismus. Praxis der Kinderpsychologie und Kinderpsychiatrie, 35/7, 1986;
Die Familie. Wegbereiter oder Verhinderer der Autonomie. Simpósio internacional sobre pedagogia social, SOS-Kinderdorf Innsbruck, 12 a 14 de Outubro de 1989;
Haß, Fremdenhaß und Rechtsextremismus (ódio, xenofobia e extremismo de direita)". Neue Zürcher Zeitung, 30.11./1.12.1991;
Psychologic Aging as Pre-Existing factor in Strokes. Journal Nervous and Mental Disease, 134/2, Fevereiro de 1962;
The Discontinuity in the Ontogeny of Self. Possibilities for Integration or Destructiveness. Psychoanalytic Review, 61/4, 1974/5.

segunda-feira, 14 de agosto de 2006

Um chá no deserto

Assim vão ser as minhas férias. A devastação interior está a ser tão inimaginável quanto necessária.

domingo, 13 de agosto de 2006

Domingo negro

Hoje é dia de vergonha para todos os guardenses que têm um pingo de consideração pela sua terra. Para já não falar do resto. A miserável reportagem que a RTP transmitiu a partir da Praça Velha, sinalizando a passagem da Volta a Portugal em bicicleta, ficará decerto na história. Pelos piores de todos os motivos. Como exemplo, foi um doente mental quem fez as honras da casa. Desta vez, espero que as responsabilidades de tão triste espectáculo sejam devidamente apuradas. Para uma mais completa avaliação, leia-se este post.

A dita cuja

Diário de um tolo - 6

Era o muro que atravessava o terreno. Dali até aqui. Podia ouvir a mensagem da voz pertencente a ti mesmo e a minha absorvia o eco da tua. “Onde vives”. Perguntavas. “Deste lado”. Respondia.
Continuámos encostados à parede inerte, pressentindo a vida do outro lado. “Onde estás?”. “Estou aqui”.

Hoje é domingo e amanhã é domingo. Apenas para mim. Hoje agi como no domingo se age e era sábado. Nada de confusões. Falhei um dia porque deixei de olhar para o calendário. Por isso deixei de ter um domingo completo nesta semana. Quando andava na rua avançava como se fosse domingo e fez toda a diferença. Domingo adiantado. Domingo por repetir. Amanhã vou ter outro domingo. E o sábado só ficou retrocedido às 7 horas da tarde. Não à hora que despontou para todos os outros. A razão para o retrocesso. O sítio certo à hora certa no dia errado. Amanhã o sítio certo à hora certa no dia finalmente certo. Domingo perdido. Intemporal. Identificado e novamente perdido. Mas só amanhã.

Ver anterior

sexta-feira, 11 de agosto de 2006

Conto de Verão

Hoje à tarde encontrei um amigo que já não via há algum tempo. Em seguida beberam-se as cervejas da praxe. Estava desolado. Tinha combinado umas férias com a namorada. Um dia antes ela ligou-lhe. A cantiga do bandido: estava confusa, mais não sei quê, tinha que ir não sei onde, etc. Conclusão: lá se foram as férias. Eu a pensar, "olha, onde é que já vi isto?" "Graças a estes banhos de água fria, quero acreditar ferozmente que me tornei um aprendiz de céptico, que passei a tropeçar na tal corda que é para atravessar e vice-versa, que consegui ultrapassar a dialética entre o optimismo de Pangloss (tudo vai pelo melhor) e o pessimismo de Martin (à pergunta de Cândido "então para que serve o mundo?" responde "Para nos enfurecer"), da mesma forma que Cândido, no final, "sei que é preciso cultivar a nossa horta"*.
Vendo bem, o normal é o que aconteceu ao meu amigo e a mim: as pessoas passam a vida a fazer acreditar as outras em qualquer coisa e depois acabam a justificar-se com mentiras piedosas. Acreditar no contrário pode ser euforizante. Mas a realidade é de uma simplicidade cruel e edificante: está-se só e morre-se só. O resto são entusiamos para principiantes. Portanto, o melhor é só contar comigo. De promessas está o inferno cheio. Todavia, será esta dedução assim tão linear? Não será essa a suprema justificação que encobre todas as outras? É. O que fica então? Manter a esperança quando tudo aponta para que a espera cesse. A horta. É claro que não disse nada disto ao meu amigo. Só lhe perguntei se não queria fazer férias das férias. E avançar com a torre quando tudo estava à espera que lançasse a rainha.

* Voltaire, Cândido, Guimarães Editores, 2005