quinta-feira, 6 de julho de 2006

Colosseum


Vale a pena ler este post de João Pinto e Castro, em "Blogo Existo", intitulado "Fome de Bola". No seguimento, surgiu-me a seguinte suposição: e se a malograda realizadora alemã Leni Riefenstahl fosse viva? Será que não desprezaria produzir um remake do célebre Triunfo da Vontade? A prova de que o poder absoluto requer uma estética única ao seu serviço. Que se quer a si própria inultrapassável. Mas não só. O cenário perfeito seria agora, indubitavelmente, um estádio de futebol durante uma partida do Mundial de Futebol. Nada há de tão cenicamente evocativo de um poder globalizante e tendencialmente totalitário. No entanto, esse totalitarismo já não seria o das encenações nazis, de Honnecker, de Ceausescu ou de Kim-il-Sung. Estaríamos, isso sim, em presença do espectáculo difuso, nas palavras de Guy Debord. O mais persuasivo e letal de todos, acrescente-se.

quarta-feira, 5 de julho de 2006

O soccer, o futebol e o clister.

Chegou-me este artigo publicado num jornal online norteamericano. A propósito da inclusão de Portugal no top four do futebol mundial e que, pelos vistos, incomoda muita gente. Fiquei obviamente chocado. Não por razões patrióticas. Mas porque gosto de ser português, o que acredito ser incompatível com a condescendencia e a ignorância boçal manifestada nesta inqualificável redacção. Aqui, ao contrário de Oscar Wilde, não penso que falar mal de nós seja lamentável e não falar de todo seja trágico. Este "argumentário" claramente xenófobo do articulista não é gratuito. Uma opinião vale o que vale, é certo. Mas este desprezo cavernícola traduz de facto uma ignorância mais próxima do cidadão médio americano e cuja dimensão estava longe de imaginar. Corresponde a uma tendência cultural e sociológica caracterizada pela soberba.
O bom senso dos "founding fathers" da nação americana sempre me fascinou. Um bom senso de pequenos proprietários, num momento histórico em que a tecnologia ainda não tinha separado irremediavelmente o homem da compreensão e do domínio de facto dos objectos com que lida no seu dia a dia. Um bom senso que erigiu um sistema de poderes que se fiscalizam mutuamente e que da política retirou o fundamental: os factos resultam da acção e não de intenções. Sobre eles rege a lei e nada mais. Esse sistema tem impedido que o mundo se tenha tornado um local perigoso e fanatizado. Que esta identificação fique clara.
Mas existe o reverso da medalha. O imperialismo americano não é só retórica. Há uma ignorância irresponsável, uma insuportável arrogância que lhe subjazem. Que alimentam um discurso onde a verdadeira diversidade se reduz ao tipicismo uniformizador e hollywoodesco. Que demoniza quaisquer argumentos que questionem a sua superioridade (veja-se o ostracismo a que Noam Chomsky foi relegado após o 11 de Setembro). E que, finalmente, numa verborreia chauvinista, procura ridicularizar as nações de menor dimensão.

Sobre o assunto, leia-se o apropriado texto de Pedro Martins, em "Sesimbra e Ventos". Aqui

Não te levantarás!

A informação chegou-me através do suplemento "Fugas" do "Público" do passado sábado. A etnia dos Dogon habita ao longo da falésia de Bandiagara, no leste do Mali. Aí se refugiaram há séculos e desenvolveram uma cultura sem paralelo na África subsariana. Incluindo uma cosmogonia e uma arquitectura deveras singulares. Mas há uma construção que não posso deixar de realçar: os tugunas. São espaços destinados às assembeias onde os homens de cada comunidade discutem as questões de interesse colectivo. Com uma particularidade deliciosa: o tecto é tão baixo que obriga a quem lá permanece a sentar-se. A razão é simples: quem se exalta tem tendência a pôr-se num plano superior, o que no caso equivaleria a dar uma valente cabeçada no tecto. Ui! Desta forma impera a discussão serena e tranquila dos assuntos. Senhores arquitectos, querem aproveitar tão sábia definição do espaço? Na AR, por exemplo...

segunda-feira, 3 de julho de 2006

O teste


Pasme-se. Este mapa constava do enunciado da Prova Nacional de História do 12º ano, sob o título "A Europa das Ditaduras (1919-1939)"

Note-se a mais que subtil classificação da União Soviética como simples "regime comunista", não como ditadura ou regime autoritário. Por outro lado, se o mapa se refere ao período entre guerras, ignora completamente o regime republicano espanhol, que durou cerca de 8 anos. Ou será que também era autoritário? E os países bálticos não tinham regimes parlamentares? Será que estes senhores nunca ouviram falar da Républica de Weimar na Alemanha, que só colapsou face ao avanço do nacional-socialismo, em 1933? E já agora, será que a I República não existiu neste luso rectângulo?
A Fenprof tem funcionado de modo contínuo como mais uma testa de ferro do Partido Comunista. Facto que ninguém ignora. Agora que a influência ideológica se estenda desta forma ao próprio Ministério da Educação e aos conteúdos dos próprios testes, é assustador.

Sonho de outra noite de Verão

Vermeer, Vista de Delft

domingo, 2 de julho de 2006

Crimes exemplares - 5

Gosto muito de cinema. Mais filmes de acção, alguns a puxar para o sentimental. Desde que haja pancadaria e amores trocados, lá estou eu! Antigamente ia ver as fitas com a Paulinha "ruiva", na altura a minha namorada. Sempre de mãos dadas. Uma vez, durante o intervalo, aviei o Silvino com dois crosses, só porque fez um aparte rasca sobre as pernas dela.
Ora bem, aqui há uns meses aconteceu aquilo. Ah, não sei se já vos disse, mas detesto duas coisas: qua façam comentários fora de tempo durante as fitas e que me calhe um cabeçudo na fila da frente. Naquela noite ia ver, pela quinta vez, o "Casablanca". Aquilo sim, é que era um filme! Até já sabia algumas cenas de cor e salteado. Só que, na cadeira da frente sentou-se um sujeito que parecia uma torre. Pra chatear ainda mais, era ele sempre a mexer-se no assento, a coçar o cu ou sei lá o quê. E não parava de fazer comentários alarves por dá cá aquela palha. Numa cena em que estava a Ingrid Bergman em grande plano, o tanso gritou: "andas a pôr os palitos ao outro, sua badalhoca!". Não aguentei mais. Saquei da navalha que tinha no bolso e espetei-lha bem na garganta. Na assistência, houve quem se tivesse rido dos soluços dele, até esticar. Se calhar, pensavam que tinha a ver com o filme! Idiotas!
Amanhã vão-me dar as tais injecções. "Vais ficar de vez sem a tosse ", disse-me um guarda durante a revista. Não importa. Espero que haja matiné.

Ver anterior

Fresco

eis a exaltação das rosas
à passagem da luz:

apenas a terra só prometida,
como palavras talvez verdadeiras
como barcos talvez clandestinos.

eis a recordação de outro lugar,
a doçura das romãs,
as cidades adormecidas,
as oferendas de luz
ao recolhimento dos olhos:

apenas movimento sem destino
na intimidade das sombras

apenas uma aldeia. um sinal.


in "Labirintos"