domingo, 21 de maio de 2006

Crimes exemplares -1

João, de cinco anos,
atirou o pau ao gato,
mas o gato não morreu,

D. Xica assustou-se
com o berro que o gato deu
e... morreu.

Miau.

*Tal como este, poderão aqui encontrar mais alguns interessantes casos.

O regresso do Padre Casimiro



Tenho a felicidade de morar numa cidade onde não há, literalmente, futebol ao nível de clubes. Essa será uma razão necessária, embora não suficiente, para que a Guarda esteja posicionada no topo do ranking das cidades portuguesas com maior qualidade de vida.
Já aqui denunciei este autêntico case study para psiquiatras e antropólogos, que é o facto de adeptos e dirigentes do F. C. Porto e Sporting celebrarem as vitórias das suas equipas...insultando o Benfica. (Até já vi alguém denegrir o Simão Sabrosa, após a notícia de que integrou as escolhas de Scolari para a selecção, só porque foi ocupar o lugar que pertencia, por direito divino, a Quaresma e porque...ora adivinhem, é jogador do Benfica). Inenarrável.
Mas é relativamente ao F.C.Porto que o fenómeno revela maior acuidade. Para lá dos cânticos e das euforias dos triunfos, entremeadas pelos habituais insultos ao S.L.B., só entendíveis no momento em que decorreram, há uma outra retórica, ora primária, ora subliminar, esta sim mais perigosa. Basta percorrer a blogosfera e ler certos "comentadores" em jornais: é o regresso das proclamações miguelistas, da aversão atávica à modernidade e ao cosmopolitismo, preenchida à custa da diabolização do outro - os mouros, os de Lisboa, como se o País se reduzisse a isto - da militarização folclórica, da balcanização do país por via clubística, da demagogia impune do Sr. Pinto da Costa, para contentamento das casas de alterne, das agências de viagens para árbitros, dos caciques autárquicos, das claques especializadas em destruir estações de serviço e estádios alheios.
Mas este país, que o Senhor D. Miguel de Bragança não mesnosprezaria representar, num assomo patriótico, vem também, cúmulo dos paradoxos, suprema das ironias, reivindicar a associação dos êxitos desportivos do F.C.Porto à...modernidade e ao ciclo democrático, em ruptura com um suposto favoritismo do Antigo Regime ao Benfica! Bravo! Esta pérola sofística é altamente sedutora, mas a falácia enorme que esconde tem que ser energicamente desmascarada. Para já, nunca o Estado Novo beneficiou desportivamente o Benfica. Aproveitou-se, isso sim, para fins puramente propagandísticos, dos seus êxitos desportivos nos anos 60, ao mesmo tempo que desconfiava da raiz popular da sua massa associativa e da democraticidade do seu funcionamento interno, maxime a eleição dos dirigentes. Depois, se há alguma coisa com que o F.C.Porto possa ser imediatamente identificado é com a corrupção e o caciquismo que invadiu a vida pública em Portugal. Num país onde a Lei fosse levada a sério, já há muito tempo que os seus dirigentes teriam as pernas cortadas.
A título pessoal, já tomei algumas medidas sanitárias: retirei da minha lista de favoritos certos blogues, como "Mar Salgado", "A Origem das Espécies" e "Kontratempos", onde certos soundbytes portistas têm livre curso, desmentindo a qualidade global dos seus conteúdos. Enfim, no melhor pano...
Em contrapartida ficará, de pedra e cal, "A Cidade Surpreendente", um blogue que celebra o Porto, cidade cuja natural auto-estima nada deve a estas aberrações saídas da Patuleia ou do "Portugal dos Pequeninos", de cachecol ou não.

sábado, 20 de maio de 2006

As sombras

Sócrates - Imagina ainda o seguinte: se um homem nessas condições (depois de encarar a luz) descesse de novo para o seu antigo posto (a caverna), não teria os olhos cheios de trevas, ao regressar subitamente da luz do Sol?
Gláucon - Com certeza
Sócrates - E se lhe fosse necessário julgar daquelas sombras em competição com os que tinham estado sempre prisioneiros, no período em que ainda estava ofuscado, (...) acaso não causaria o riso, e não diriam dele que, por ter subido ao mundo superior, estragara a vista e que não valia a pena tentar a ascensão? E a quem tentasse soltá-los e conduzi-los até cima, se pudessem agarrá-lo e matá-lo, não o matariam?
Gláucon - Matariam, sem dúvida.
Platão, A República, Livro VII

O autor de Fédon parece dizer-nos, neste excerto da célebre alegoria da caverna, que o seu momento mais importante surge, não com a saída, mas com o regresso às sombras. Ora, se o mundo real torna possível a dianoia e a noesis, não é menos verdade que, a haver um sentido útil para a passagem de um mundo a outro, será o de dar depois a conhecer aos que vivem nas sombras o que está para além delas. Uma missão quase obrigatória, mas sem dúvida cheia de perigos e desilusões, como é aqui advertido.
Cuidado pois, muito cuidado quando se decide sair da caverna! Não é que me tenha tornado um pessimista, à maneira de Hobbes, mas pressinto que muito poucos quereriam a luz, sabendo o que isso implicaria, e quase ninguém regressaria para a diletante missão de divulgar a boa nova, sabendo o que encontraria de volta.

sexta-feira, 19 de maio de 2006

Em alta...

Regiões mais pobres de Espanha ultrapassam a riqueza portuguesa

Em vez das costumeiras indignações, ou do condescendente masoquismo, normalmente associados a estas crudelíssimas estatísticas, propunha simplesmente ao leitor um instante de reflexão após ler esta notícia. Obrigado.

quinta-feira, 18 de maio de 2006

Neno Vasco



Advogado, jornalista e escritor anarquista, nascido em Penafiel a 9 de maio de 1878. Seu nome era Gregório Nazianzeno Moreira de Queirós e Vasconcelos, mas ficaria conhecido por Neno Vasco.
Fez parte do grupo de estudantes da Universidade de Coimbra que aderiram ao anarquismo no começo do século.
Formado em Direito, emigrou para o Brasil em 1901, para se juntar a seu pai. Em São Paulo logo entrou em contacto com anarquistas como Benjamim Mota, Ricardo Gonçalves e os libertários italianos. Participou na edição de O Amigo do Povo, que começou a circular em 1902. Algum tempo depois lançou a revista Aurora, movimento editorial que haveria de contribuir para o crescimento da influência libertária nos meios operários. Nas páginas da Voz do Trabalhador travou uma polémica sobre as relações entre anarquismo e sindicalismo, que é fundamental para entender a forma como os libertários se situaram face ao movimento operário e suas organizações.
O seu principal livro, A Concepção Anarquista do Sindicalismo, foi publicado em 1923 pela editorial do jornal anarco-sindicalista A Batalha e reeditado em 1984.
Em 1911, regressou a Portugal, onde continuou a desenvolver a sua militância anarquista, tendo colaborado na revista A Sementeira.
Morreu em 1920, em S. Romão de Coronado.

- Locais a visitar: em português e inglês

terça-feira, 16 de maio de 2006

Ir a banhos...

O Governo, pela voz do secretário de Estado da Defesa, anunciou há pouco que aprovou um diploma onde estão enumeradas 20 infracções à sinalização balnear afixada em praias vigiadas. Entre outras sanções, prevê-se a aplicação de uma coima, que pode ir de 55 a 1 000 Euros, para os banhistas que entrarem na água, estando hasteada a bandeira vermelha.
Antecipam-se aqui algumas óbvias e pertinentes questões no domínio da aplicação deste regulamento:
1º Os daltónicos estão isentos do pagamento da coima?
2º Em caso de tsunami, quem liquida as multas?
3º Será que vão ser criados calções de banho especiais, à prova de água, com uma bolsa para guardar o BI?
4º Em praias onde se pratica o nudismo, como será identificado o infractor?
5º As sereias também vão ser multadas?
6º O protagonista de "A Morte em Veneza" também deveria ter sido autuado por ter entrado no mar sem respeitar a sinalização?
7º Quem vai multar os nadadores-salvadores? Os banhistas? O juiz-desembargador em férias com a família e um problema na coluna?
Vai um mergulho?

segunda-feira, 15 de maio de 2006

Jean Cocteau


"A Poesia é uma religião sem esperança. O Poeta esgota-se no seu labor criativo, sabendo que, na longa caminhada, uma obra-prima mais não é do que o espectáculo de um cão treinado sob um solo movediço."

(Tradução nossa)